Sempre me questiono sobre o desinteresse de parcela da juventude nas discussões humanísticas. Como estudioso das teorias, defendo a apropriação desses conhecimentos como fundamento essencial para formação de uma consciência crítica, perspicaz.
Ontem, por exemplo, tivemos um debate acalorado em sala de aula por conta de um tema da moda, a violência na sociedade. Tudo começou quando sustentei a necessidade de observarmos os atos dos cidadãos como consequência direta de uma formação sócio-ideológica. Ilustrei: “não podemos dizer que um garoto de 10 anos se tornou criminoso, consumidor de drogas, simplificando: ‘esse garoto sempre foi uma peste; nunca prestou’”. Isto é banalizar demais a questão. Ninguém se torna bandido, dependente químico por uma predisposição biológica, genética. O meio é responsável pelo que somos.
Fui mais longe… Apontei que, por ser vítima da sociedade, não podemos defender que a solução para os crimes na infância e adolescência serão resolvidos tão somente com a redução da maioridade penal. A sociedade não vai acabar com a criminalidade apenas por punir quem tem comportamentos marginais. É preciso ir mais longe. Há necessidade de reconhecer as fragilidades sociais e tratar as causas que deformam nossas famílias – logo, nossas crianças, adolescentes e jovens.
Claro, o tema é polêmico. Há aqueles que entendem que a máxima deve ser o “olho por olho, dente por dente”. Chega-se ao ponto de defender a pena de morte. Acredita-se que apenas o medo da punição possa ser suficiente para tornar pacífica a sociedade.
Mas, voltando ao tema, o que nos faz ver as questões de forma mais ampla, em sua complexidade? O conhecimento. Não o técnico, mas aquele que promove a formação social, humanística.
Li hoje um texto publicado pelo brilhante colega, o professor Antonio Ozaí da Silva. Ele trata exatamente disso. Fala sobre essa miopia pós-moderna. Não usa esses termos, mas cita Dostoievski, que sustenta a ideia de que a sociedade contemporânea está satisfeita em ter uma consciência comum. Por isso, mantém um distanciamento de todo conhecimento que promova uma consciência crítica. Isto porque, nas palavras do professor Ozaí, “a consciência perspicaz trás à tona o sofrimento. A ignorância é seu antídoto; a consciência crítica é um estorvo à adaptação e ao individualismo descomprometido com a comunidade”.
Esta é uma grande verdade. É mais fácil viver na ignorância. Entender os porquês, questionar-se, questionar o mundo causa desconforto. Sentimo-nos muito melhores quando “tocamos a vida” no mesmo ritmo de todo mundo. Queremos resultados práticos. Importa-nos ganhar dinheiro, garantir uma boa vida. Para quê gastarmos tempo com reflexões? Quais benefícios temos em contextualizar os fatos? Afinal, para que complicar se podemos simplificar?
De fato, a vida é mais simples quando permanecemos alienados. Quando compreendemos a complexidade de cada fenômeno social, percebemos que o desafio humano é muito maior. Sentimos o peso da responsabilidade, a culpa por colaborarmos com a construção e manutenção das contradições. Entendemos que ser cidadão não é apenas votar, mas envolver-se, se dispor a transformar – ainda que tendo uma noção clara que estaremos na contramão do mundo, sob o risco de sermos mal compreendidos.
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