Se sou apaixonado pelo universo das palavras, também amo a leitura. Uma não caminha sem a outra.
Ler é uma atividade prazerosa, mas desafiadora. Cansa, dá sono. Somos preguiçosos, talvez por isso pouca gente tenha tal hábito. É mais fácil ver televisão, por exemplo. Não exige esforço. Leitura implica ação, uma atitude ativa.
A leitura abre as portas do mundo. A vida se revela em toda sua beleza. É nisso que consiste o prazer. Saber mais, conhecer mais produz uma sensação indescritível. Claro, nos torna mais exigentes, seletivos, reflexivos.
Mas o que ler? Talvez a resposta mais prudente seria: bons livros. Contudo, esta é uma verdade parcial. Penso que não há leitura proibida. Há sim necessidade de um olhar crítico, capaz de discernir se há qualidade ou não no conteúdo proposto. Porém, em cada leitura existe a possibilidade da formação de um novo conhecimento – ainda que seja para aprender o que não vale o esforço de ser lido.
Enquanto escrevo este texto, tenho em mãos um exemplar da revista Claudia. Trata-se da edição do mês de junho. Já esteve comigo no estúdio pela manhã. Veio para a minha mesa agora à tarde. Várias pessoas já olharam, pegaram, folhearam. Ouvi alguns comentários, digamos, engraçados. Afinal, trata-se de uma publicação feminina. Um amigo brincou:
- É para te inspirar?
Sorri, respondi que sim. Afinal, a Mariana Ximenes está na capa e ela realmente é uma bela mulher.
Mas não estou com a Cláudia por causa da atriz – nem por causa das matérias sobre como combater a celulite ou das táticas de sedução da Luiza Brunet. Tem ali assuntos curiosos, importantes – inclusive para nós, homens. Acontece que, às vezes, nossos preconceitos nos cegam. Julgamos sem conhecer. Deixamos de experimentar por ser “coisa de mulher” ou por aquela desculpa “é auto-ajuda; não leio”. Outras vezes, em função de nossas crenças, convicções religiosas, colocamos um rótulo de “é pecado; não pode” e nos fechamos para o mundo.
Temos o direito de não gostar de determinadas coisas, rejeitá-las completamente. Não há problema nisso. Entretanto, ninguém pode fazer isso sem uma justificativa razoável. Se não gosta, por quê? Tem que haver um motivo. Quando afirma “não presta”, não presta por qual razão? Existem argumentos para isso? Talvez o gênero não agrade. Isso é compreensível. Porém, não dá para simplesmente negar-se a conhecer por que alguém falou que não era bom ou por um conceito formado fora de nós.
Experiências múltiplas de leitura contribuem para a formação de uma visão de mundo mais ampla. Quando olhamos sempre sob uma perspectiva, vemos tudo de forma estreita; por vezes, deformada. É necessário ir além. Não há limites para o conhecimento. O mundo não se escreve e nem pode ser pintado de uma única maneira. Os seres humanos são complexos. As relações que estabelecemos se firmam em gostos, valores e desejos muito individuais. Dispor-se a ler tudo e sobre tudo é se abrir para entender a vida. Esta não se resume ao que entendemos ser a única verdade. Somos contraditórios como contraditória é a terra dos humanos.
Os textos que lemos nos revelam fragmentos incontáveis da face dos homens. Por isso, quando nos dedicamos à leitura estamos nos dispondo a viver coisas novas, nem sempre imaginadas; por vezes, rejeitadas; quase sempre, reveladoras.