Escutei nessa sexta-feira a comentarista Lucia Hippolito resumir: "o garoto que hoje quer ser professor deve ser carregado no colo". Trata-se de uma verdade. Quem deseja ser professor em nosso país? Certamente, quem faz esta opção, por livre e espontânea vontade, deveria receber tratamento diferenciado. Afinal, que valor tem um educador em nossos dias? Pelo menos do ponto de vista do reconhecimento público e financeiro, quase nenhum. E o "quase" aqui é só para não generalizar mesmo.
Não faz muito tempo, a revista Veja trouxe uma reportagem curiosa. Com base numa ampla pesquisa, concluiu que poucos desejam seguir essa profissão. E os que pensam nela quase sempre o fazem porque sabem que a concorrência no vestibular é menor. Como geralmente são alunos com menor potencial, menos chances de conquistar uma vaga na Engenharia, Arquitetura, Medicina etc, olham para a carreira de professor como uma alternativa de possuírem um diploma universitário.
A mesma reportagem mostra o tamanho da contradição existente em nosso país pontuando o que ocorre na Finlândia. Por lá, só podem se candidatar ao exercício do ensino os melhores. Ou seja, para ser professor é necessário ter sido um excelente aluno ao longo da vida escolar. Resultado? A Finlândia tem a melhor educação do planeta.
E por aqui? Temos índices de qualidade ridículos. Pior, os prefeitos de nossas cidades comemoram quando atingem nota 6 no Ideb, Índice de Desenvolvimento da Educação. Sabe o que significa isto? Significa comemorar o mínimo. Algo do tipo: "passei". Esse índice representa uma coisa apenas: as crianças estão aprendendo a ler e escrever. Só isto. Não há nada de excelência. É o indicador mínimo de que a escola conseguiu ao menos ensinar a garotada a ler e escrever um texto.
No Brasil, educação se faz no discurso. No Dia do Professor, ouvi promessas de Dilma Rousseff e José Serra, candidatos à presidência da República. Por sinal, a petista promete mais creches; o tucano, dois professores em sala – quer dizer, um professor e um estagiário. Lindo isto, não? O tipo de proposta que ambos têm para o setor nem de longe é capaz de promover uma mudança ampla, estrutural. Escutei que vão valorizar o professor. Mas valorizar de que forma? Qual o tipo de salário? Que carga horária? Que políticas serão implementadas para desenvolvimento e promoção do educador?
Gente, um professor de educação infantil chega a ganhar, por 20 horas de trabalho, menos de R$ 600. Em todos os lugares? Claro que não. Mas, convenhamos, quem neste país é motivado a ser professor de pirralhos por esse salário? Eu conheço educador que ganha menos de R$ 5,00 a hora para ensinar crianças de cinco, seis anos de idade.
Não quero dizer que só os piores se tornam professores. De jeito nenhum. Tem muita gente apaixonada em sala de aula, que faz a diferença. Contudo, como motivar alguém que pode concorrer no vestibular de Medicina a ser professor da educação infantil? E, cá entre nós, quem disse que uma profissão é melhor que a outra? Uma cuida da saúde; a outra, da formação do cidadão. Uma sociedade com educação de qualidade duvidosa é uma sociedade medíocre.
Particularmente, quando o assunto é educação, só vou confiar nas promessas de nossos políticos quando os filhos deles estudarem em escolas públicas. Vou respeitar a proposta deles quando notar que entendem a educação infantil como ainda mais importante que o ensino superior; quando os salários do professor dos primários não for muito diferente da remuneração daqueles que ensinam nas universidades. Enquanto isso, educação no Brasil é demagogia.