Calma aí… Não precipite-se. A frase não é minha. Nem estou me atrevendo a fazer declarações com essa “profundidade” para alguma mulher misteriosa. Não, nada disso. É só a frase de uma música. Dessas que andam embalando um público de gosto, digamos, duvidoso.
Por sinal, alguém sabe me responder por que todo mundo que curte músicas ruins faz isso com o som alto? Eu, sinceramente, não entendo. O sujeito coloca o som nas alturas e sai por aí “se achando”.
Mas, voltando…
A frase aí do título é de alguma dessas músicas imbecis. Ouvi enquanto vinha para o trabalho. Estava no trânsito. Naquela fila imensa de carros parados no semáforo, não consegui identificar de onde vinha tanto “bom gosto”.
Acho que ando mesmo passadinho, rabugento. Só pode. Eu não conheço a banda, cantor… quem gravou isso. O ritmo era de música baiana. E nada contra os baianos que têm músicos e compositores maravilhosos.
Mas esquece o gênero – se é que faz parte de algum. Não vou conseguir identificar mesmo.
Enfim, vamos ao que importa. Eu falava que ando rabugento. Deve ser. Afinal, não consigo achar graça nessas músicas. Alguns vão dizer que é só uma brincadeira. Faz parte desse jogo erótico do qual a música tem participado. É pra dançar. Ou ainda diriam que só reflete as provocações normais da paquera, da sedução…
É verdade que estou “fora do mercado” há duas décadas. Mas, cá com meus botões, não existem palavras, frases, argumentos melhores para o jogo da conquista? As mulheres estariam tão fúteis assim? Sentem-se elogiadas ou ficam excitadas quando um homem diz que quer ver a cor da calcinha?
É… acho que não entendo mais nada.
Eu sempre pensei nas músicas quase como uma “muleta” pra gente dizer aquilo que nem sempre damos conta. Olhava para as canções e a beleza de suas poesias e tinha a impressão que nelas encontrava o encanto que os pobres mortais não conseguem dar às palavras. Só os artistas seriam capazes de tornar a vida mais bela. Então, podia usá-las para dizer o que por vezes que não conseguimos.
Por exemplo, estou lá… carente da pessoa amada. Sentindo falta. Ela está distante… Tem algo mais perfeito que usar “Só hoje” (J.Quest)? Olha como fica perfeito.
Hoje eu preciso te encontrar de qualquer jeito
Nem que seja só pra te levar pra casa
Depois de um dia normal…
Hoje eu preciso ouvir qualquer palavra tua!
Qualquer frase exagerada que me faça sentir alegria…
Em estar vivo.
Hoje eu preciso tomar um café, ouvindo você suspirar…
Me dizendo que eu sou o causador da tua insônia…
Que eu faço tudo errado sempre, sempre.
Hoje preciso de você
Com qualquer humor, com qualquer sorriso
Hoje só tua presença
Vai me deixar feliz
Pronto. Está certo que editei um pouco… Mas, eu não poderia dizer algo melhor.
E quem já não fez bobagem por ciúme? Magoou? Machucou a pessoa amada por um “barraco”?
Aí arrepende-se, mas não sabe bem o que dizer.
É só pedir socorro para a Rita Lee. Em poucas palavras, de maneira simples, despretensiosa, ela dá o tom para você dizer: desculpa, errei, mas sou capaz de tudo por você.
Desculpe o Auê
Eu não queria magoar você
Foi ciúme sim
Fiz greve de fome
Guerrilhas, motins
Perdi a cabeça
Esqueça!
Da próxima vez eu me mando
Que se dane meu jeito inseguro
Nosso amor vale tanto
Por você vou roubar
Os anéis de Saturno…
Na verdade, sempre entendi que a arte promove um aformoseamento da vida. Até mesmo as tragédias ganham novos contornos e tornam-se poéticas.
Por isso, não consigo digerir um “eu quero ver a cor da sua calcinha”. Sei que existem frases bem piores. Sei também que o erótico e até o chulo foram e são usados na arte. Entretanto, sempre estiveram presentes dentro de um contexto maior. Nunca foram ditos por dizer. Já serviram para protestar, para confrontar e até para apontar as contradições e o quanto a nossa sociedade é hipócrita.
Não é o caso dessas músicas contemporâneas. Elas banalizaram a arte.
Quando ouço essas frases, penso no público. O empobrecimento das manifestações artísticas representa carências afetivas, cognitivas e intelectuais. Mas também significa ausência de crítica, passividade, alienação, incapacidade de significar, pobreza de espírito.