Que deselegante…

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Só há pouco vi o vídeo que mostra a repórter Monalisa Perrone sendo atacada quando entrava ao vivo no Jornal Hoje. Ele falava da saúde do ex-presidente Lula. A jornalista foi empurrada, caiu, machucou o joelho. Felizmente, o pessoal técnico foi rápido e cortou o “protesto” do sujeito. No estúdio, Sandra Annhenberg resumiu: “que deselegante”.

Claro, o termo usado pela âncora do JH virou piada no twitter. Não poderia ser diferente. Gente vazia faz piada de tudo. Até da desgraça alheia.

A discussão feita pelo público na rede social acaba esvaziada pela ausência de critérios e por uma subjetividade construída com base nas imbecilidades televisivas de programas que tornam o humor acrítico referência de qualidade.

O “que deselegante” da Sandra está entre os assuntos mais comentados do twitter.

Sinceramente, quando vi o vídeo, abri o microblog para ver o que as pessoas estavam falando. O inocente aqui achou que encontraria uma discussão bem humorada sobre o tema, mas com o mínimo de responsabilidade e criticidade. Não foi o que vi. Todo mundo brinca com a frase da âncora e pouca gente lembra da repórter machucada, do agressor sem causa e do que isso representa para o Jornalismo (Já imaginou se a moda pega? Lembram da dancinha do “Pânico”?).

Defendo a necessidade de uma sociedade ativa, capaz de se mobilizar – ainda que em atos individuais. Mas empurrar uma jornalista e sair berrando para uma câmera parece-me insensatez. Um ato nulo.

Por outro lado, que graça tem fazer piada da falta de uma frase mais adequada para classificar a agressão? A Sandra e o Evaristo foram surpreendidos pela atitude do jovem tanto quanto a repórter e os telespectadores. Penso que a Sandra saiu-se muito bem. Teve presença de espírito e conseguiu, ao lado do colega de bancada, dar continuidade ao jornal.

Poderia ter dito outra coisa? Sim. Mas alguém pensou em alguma coisa equilibrada e “padrão Globo” para sair-se de uma situação como esta?

Eu gostei do “que deselegante”.

Deselegantes somos nós quando rimos de tudo – até do que não tem graça nenhuma.

Na segunda, uma música

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Já disse aqui… Não sou especialista em música. Nem tenho tempo pra ouvir muita coisa. Por isso, sempre é um prazer descobrir algo que, pelo menos para mim, é novo.

A música de hoje encontrei no perfil de uma amiga. Ouvi, gostei.

Desconhecia Sara Bareilles.

Pianista, compositora e cantora, a americana assinou seu primeiro contrato de gravação em 2005. E embora ainda não tenha muitos sucessos, suas músicas são agradáveis. Por isso, diria que foi uma boa descoberta.

Foi difícil definir qual música compartilhar. Optei pela canção título do seu último disco, “Gonna Get Over You“.

O Orlando caiu; que venha a demissão do sétimo ministro

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Muita gente anda assustada com as constantes quedas de ministros. Parodiando Lula, “nunca antes neste país” tantos ministros deixaram o governo em tão pouco tempo. É recorde. É o que todo mundo está dizendo. Fala-se em perda da governabilidade, tensão no comando do país, erros na composição do ministério… Enfim, não faltam analistas para discutir a fragilidade dessa equipe montada pela presidente Dilma Rousseff. O governo mal começou e já parece cansado.

Cá com meus botões, estou gostando do triste espetáculo. Não se trata de torcer contra. Muito pelo contrário. Quero que Dilma acerte. Entretanto, a tal “faxina” – termo que ela preferiu abandonar – está acontecendo. E estava na hora. Ou melhor, tinha passado da hora.

As quedas de Orlando Silva, dos Esportes, e dos outros cinco são resultado do modelo político adotado historicamente. A corrupção e o clientelismo fazem parte do DNA do brasileiro. Somos um país em que cidadãos defendem a pirataria, sonegam impostos, dão propina a fiscais e policiais… Criticamos os cargos comissionados, mas não acharíamos ruim se garantíssemos um empreguinho no gabinete do prefeito.

O loteamento de cargos no governo federal e a corrupção são apenas reflexo do que somos. Os pequenos atos de corrupção do nosso dia a dia, a constante vontade em ser “amigo do rei” para gozar dos manjares e favores do palácio, são a origem do mal noticiado pela imprensa nacional.

O exemplo não vem de cima, como alguns dizem. Ele nasce em nós, reflete-se no poder e realimenta os maus hábitos da sociedade. Um ciclo vicioso.

Porém, as quedas de ministros podem mudar essa lógica. Sentar numa dessas cadeiras significa estar na vitrine. E se seis já caíram quem garante que não cairá o sétimo, o oitavo…???

Começa haver uma preocupação. O sujeito que é convidado para ocupar uma função de destaque no governo já sabe que pode tornar-se o próximo alvo. Se a “faxina” não parte dos entes políticos, as denúncias da imprensa obrigam o governo a fazer a limpeza. Portanto, é preciso ter “ficha limpa” para sustentar-se na função.

Por isso, entendo que, como cidadãos, devemos nos orgulhar do momento em que estamos vivendo. As demissões de ministros, diretores etc etc precisam ser entendidas como um novo capítulo da história do país.

As denúncias podem não representar o fim da impunidade. No entanto, fazem parte do processo democrático e do amadurecimento político da sociedade e do país.

Para onde vão nossos desejos?

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Para onde vão quando nada parece fazer sentido? Para onde vão quando a vida se perde numa curva da estrada? Para onde vão quando tudo que sempre se desejou simplesmente desaparece como num passe de mágica? Onde encontrar forças? Onde encontrar motivos se as razões para sorrir esvaziaram-se?

Não há respostas. Perdemo-nos. Todos nós. A vida prega peças que surpreendem. Ninguém controla tudo. Muito menos, sentimentos e emoções.

Dia desses gravei uma entrevista sobre a importância de sermos educados para lidar com as emoções. O papo foi empolgante. Afinal, vivemos um tempo em que cuidamos muito do intelecto, mas damos pouca atenção ao que sentimos. Entretanto, embora a conversa tenha revelado a importância de reconhecermos aquilo que sentimos, cheguei à conclusão que ninguém aprende ou domina completamente o que vai no coração.

Você não chega e diz pro coração:
- Não fique triste!

Já tentou? Deu certo?

Pois bem… se deu certo, venda a receita. Isso mesmo, venda!

Queremos superar as perdas. Quem gosta da dor é masoquista. Doente da cabeça. Gente “normal” quer sentir-se bem.

São nossos desejos que nos movem. Desejos entendidos como a pulsão de nossa vida. E esta se faz presente na vontade de trabalhar, estudar, ler um livro, amar… viver. A busca e a realização dos desejos fazem a alma bailar.

Entretanto, por vezes, parecem nos abandonar. E nos deixam quase sempre por situações aparentemente corriqueiras, mas que nunca serão facilmente assimiladas. Pode ser a perda de alguém querido, a briga com um amigo, os desencontros no amor… E aí você olha dos lados e nada faz sentido. Olha para dentro de si e só encontra vazio. Nenhuma resposta. Só perguntas.

Quando isso acontece, ah… você pode ouvir o que for, qualquer palavra, mas nada consola. Não tem abraço, não tem carinho, não tem sorriso… nada. Nada conforta.

Seria carência? Fragilidade emocional? Talvez. Talvez sim. Mas, confesso que tenho medo de pessoas que não sentem dor, que lidam de maneira completamente prática com os sentimentos. Para mim, que vive assim, não vive. Viver e não sentir, não é viver.

As dores da alma são por vezes muito piores que as do corpo. Estas se curam com remédios, cirurgias… tratamentos que a ciência proporciona. As do coração… só o tempo. E às vezes, nem o tempo. Até cicatriza, mas as marcas ficam.

Uma vida bem vivida é uma vida de ganhos e perdas. De desejos adquiridos, de desejos esvaziados. De motivos novos, de motivos velhos e abandonados – por escolhas que nem sempre são nossas.

Viver bem é reconhecer que há dias em que simplesmente não desejamos existir. Sabendo, no entanto, que sempre haverá um novo dia…

PS- Raramente escrevo um texto ouvindo música. Mas hoje aconteceu. Então, se ajudar a fazer sentido, a canção é Suddenly I See (Pra ouvir ou ler).

Violência: a coca-cola é a culpada…

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Defendo as ciências. Porém, vez ou outra fico incomodado com certas pesquisas. Hoje, por exemplo, vi o resultado de um estudo realizado entre adolescentes de escolas da cidade de Boston. O resumo é mais ou menos este:

- Uso excessivo de refrigerante aumentaria em 15% a chance de conduta agressiva.

Eu não duvido que o consumo excessivo de açúcar provoque agitação, uma certa inquietação. E refrigerante tem muito açúcar.

Entretanto, não consigo dar conta dessa coisa simplista: se o sujeito bebe muito refrigerante tem maior propensão à violência.

Penso que se a pesquisa fosse feita com café daria o mesmo resultado. Se o foco fosse no açúcar, idem. E por aí vai.

Tenho a impressão que hoje há um direcionamento das pesquisas científicas. E como pesquisador que sou, costumo dizer que, dependendo do método escolhido, sempre chegaremos aos resultados levantados em nossas hipóteses.

O que quero dizer?

Quero dizer que se quisermos provar que usar cigarro traz benefícios, vamos chegar a esse resultado. Depende apenas de nossa disposição em levantar uma boa tese. E, no caso do tabaco, poderia ser o prazer, a satisfação. Não sou fumante, mas sei que muita gente usa o cigarro como “muleta” para acalmar, tranquilizar etc.

Por isso, creio que essa pesquisa a respeito dos refrigerantes é mais um desses estudos pouco significativos. Talvez até contribua para banalizar ainda mais a ciência.

Concordo que precisamos reduzir o consumo de refrigerantes. Mas há outros motivos para isso. Dizer que há uma relação com a violência não me parece um argumento muito forte para convencer as pessoas. Na verdade, chega quase a ser motivo de risos.

Brasileirão: próximos adversários de Vasco, Corinthians, Botafogo e Flamengo

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Acabei gastando tempo hoje para preparar um texto sobre os próximos jogos do Campeonato Brasileiro. Na verdade, a proposta era identificar os próximos adversários dos quatro clubes que parecem mais próximos do título.

Após 31 rodadas, o Vasco tem 57 pontos; o Corinthians, 55; Botafogo e Flamengo, 52.

É sempre difícil apostar num favorito. Entretanto, teoricamente, a caminhada do timão é mais fácil. Começo achar que meu filho vai comemorar o título do seu time de coração. Cá com meus botões, preferia o Vasco – até para homenagear o Ricardo Gomes.

Veja os próximos jogos:

VASCO
30/10 – São Paulo (casa)
6/11 – Santos (fora)
13/11 – Botafogo (casa)
16/11 – Palmeiras (fora)
19/11 – Avaí (casa)
27/11 – Fluminense (fora)
4/12 – Flamengo (casa)

CORINTHIANS
30/10 – Avaí (casa)
6/11 – América Mineiro (fora)
13/11 – Atlético Paranaense (casa)
16/11 – Ceará (fora)
20/11 – Atlético Mineiro (casa)
27/11 – Figueirense (fora)
4/12 – Palmeiras (casa)

BOTAFOGO
29/10 – Cruzeiro (casa)
5/11 – Figueirense (casa)
13/11 – Vasco (fora)
16/11 – América Mineiro (fora)
20/11 – Internacional (casa)
27/11 – Atlético Mineiro (fora)
4/11 – Fluminense (casa)

FLAMENGO
30/10 – Grêmio (fora)
6/11 – Cruzeiro (casa)
13/11 – Coritiba (fora)
17/11 – Figueirense (casa)
20/11 – Atlético Goianiense (fora)
27/11 – Internacional (casa)
4/12 – Vasco (fora)

Veja post atualizado após a 33a rodada.

Na segunda, uma música

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Recordo que passei a dar mais atenção ao talento de Cássia Eller após a morte dela. Gostava de sua voz… um timbre diferente, único.

Quando a Cássia morreu, no dia 29 de dezembro de 2001, a Veja fez uma reportagem ampla sobre o que motivou a morte da cantora. Também trazia a trajetória dessa carioca que morreu antes dos 40 anos. Foi a primeira vez que “gastei tempo” para conhecer mais sobre a intérprete.

Penso que falar do talento de Cássia, suas características… não é necessário. Porém, hoje quero recordar uma de suas canções imortais.

Convido você a ouvir comigo “Palavras ao vento“.

Morte de Gaddafi: imagens que não chocam

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Desde essa quinta-feira, 20, o noticiário internacional está repleto de informações a respeito da morte do ex-ditador líbio, Muammar Gaddafi. É verdade que o tema tem importância geopolítica. Entretanto, tal assunto não faz parte da minha lista de interesses. Vejo a notícia, mas o que me importa não é a morte em si. Sempre reflito na repercussão espetaculosa do fato e, por interesse humanitário, no que vai acontecer agora com o povo daquele país. Afinal, Gaddafi morto pode não significar nada. Basta observar o que está ocorrendo no Egito. O ditador foi deposto, mas ainda não há sinais de que o país passará por um processo de democratização e fortalecimento das liberdades individuais, do Estado de Direito.

Mas vamos ao motivo do post… Não escreveria sobre a morte de Gaddafi. Porém, uma leitora, a Salete Batista, enviou o seguinte comentário pelo Google+.

- Vendo as imagens da morte de Kadaf penso no reflexo de tais imagens pois com certeza muitas crianças e adolescentes viram este vídeo, num mommento que se fala tanto sobre violência entre essa parcela da sociedade… que exemplo se dá divulgando tais imagens? Pior ainda é ver a Sandra Annenberg mostrando as imagens e logo depois sorrindo falando de outra noticia mais amena como se fosse natural ver um homem ser assassinado em rede mundial. O que vc me diz disso?

Sinceramente, não acredito que essas imagens afetam o olhar da molecada. Eles estão acostumados com essas cenas. Infelizmente, os desenhos animados, os filmes na tevê, os jogos eletrônicos banalizaram a violência. Para eles, Gaddafi é um personagem – como os de ficção. A mídia tirou nossa sensibilidade. Mortes são apenas estatísticas. A Sandra sorrir segundos depois da exibição do corpo do ditador revela a indiferença que hoje sentimos pelo drama alheio.

É verdade que Gaddafi não era o tipo de sujeito que inspiraria alguma comoção. Entretanto, a exibição pública de seu corpo deveria ao menos nos causar constrangimento. E a imprensa poderia ter a sensibilidade de evitar a apresentação dessas cenas. Mas não é o que acontece. E isto não vai mudar. Gostamos de sangue. Assistimos o grotesco entre gargalhadas e diante de uma taça de vinho e um belo prato de espaguete a bolonhesa.

PS- Há várias grafias para o nome do ditador. A imprensa reproduziu várias delas. Adotei a da Folha de São Paulo.

O olhar do fotógrafo… ou da fotógrafa

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Tenho trauma de fotos. Quase sempre, sinto-me ridículo. É verdade que a “carinha” não ajuda muito. Mas parece que o registro fotográfico consegue me deixar ainda pior. Uma das poucas imagens que gosto é a que tenho neste blog, feita pela amiga Joelma Handziuk.

Fotos feitas em flagrante sempre me deixam com bico, olhos fechados, caretas… Horríveis.

Neste ano, porém, por duas vezes fui surpreendido pelo olhar fotográfico de uma aluna. Sem que eu percebesse, ela clicou e, confesso, gostei das imagens. A mais recente é essa que está aí embaixo… Apareço ao lado do acadêmico de Jornalismo e amigo, Valério Pereira. Foi feita na segunda-feira na abertura da Semana de Comunicação da Faculdade Maringá.

A foto não é para mostrar minha carinha… É só para reconhecer o talento da Renata Thomazi.

Brasileiros: não somos otimistas; somos alienados

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A Época desta semana traz o título:

- Brasil, o país do otimismo

Gostei da capa. Verdinha. Uma espécie de bandeira do Brasil estilizada. Tem até uma carinha sorridente.

A reportagem é baseada numa pesquisa que trata das expectativas das pessoas com o país. Ainda não li a matéria. Optei por escrever antes de ler. Afinal, minha proposta não é discutir a reportagem e nem o estudo. Quero apenas “pensar alto” sobre o que entendo a respeito de nosso otimismo.

Cá com meus botões, tenho impressão que o brasileiro não é otimista; é alienado. Nosso povo está “se lixando” para o país. Quer mesmo é levar a sua vida, cuidar de si mesmo. O negócio é garantir “o meu”.

Dane-se se o Orlando Silva é corrupto. Político é assim mesmo. Todo político é corrupto. O que importa é que estou empregado, ganho meu dinheiro, faço meu churrasco nos fins de semana, saio com os amigos, tomo minha cerveja…

Não é mais ou menos assim que somos?

Importa é que as coisas dêem certo para nós.

Até queremos um país desenvolvido, rico, uma potência mundial. Porém, não queremos nos envolver. Envolvimento dá trabalho. Requer esforço, comprometimento e espírito coletivo.

Vivemos sob a crença de que assistir os telejornais, ver uma ou outra notícia na internet já nos torna cidadãos.

Preferimos simplificar as coisas. Não queremos entendê-las.

Se tem buraco na rua, a culpa é do prefeito. Se faltam médicos nos postos de saúde, idem. Se o pedágio sobe, o problema é do governador. Se os aeroportos estão lotados, a presidente é incompetente.

O resumo simplista do problema pode até trazer uma parte da verdade. No entanto, não é só uma questão de culpa ou responsabilidade. As coisas vão além disso. E lamentavelmente, passam pelos nossos valores. Porque se as ruas pelas quais trafego estivessem devidamente asfaltadas e bem cuidadas, não estaria nenhum pouco preocupado com as centenas de pessoas que vivem em moradias de risco. O vereador é safado, mas se for meu amigo/conhecido e conseguir um emprego para o meu filho, estou feliz da vida.

Nosso otimismo cego faz cerca de 90% dos pais brasileiros acreditarem que as escolas de seus filhos são boas. É o que revelou uma pesquisa recente publicada na Veja. Para eles, importa ter um lugar para deixar a molecada enquanto trabalham. Escola é abrigo e espaço para ensinar a ler, escrever e garantir um diploma a fim de ter um bom emprego e ganhar muito dinheiro.

Por isso, não gosto desse otimismo. Temos sim que acreditar no país. Mas entender que o Brasil é feito por pessoas. E nossa alienação pouco colabora. Continuamos guiados pelos Sarney’s da vida, Maluf’s etc etc. Sintoma claro de que otimismo sem ação e uso da razão e do conhecimento são pouco producentes.

Só a literatura clássica pode nos salvar da ignorância?

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Na semana passada, a Veja trouxe uma discussão interessante sobre as provas do Enem. Com base num levantamento das questões de literatura, a revista concluiu que o candidato não precisa mais conhecer literatura para ter bom desempenho na avaliação. Consequentemente, mesmo sem referências dos clássicos, consegue fazer um curso superior e acessar grandes universidades.

A reportagem diz que o negócio do Enem é identificar se os alunos sabem mesmo é interpretar textos – em especial, quadrinhos.

O levantamento realizado pela Veja foi bastante amplo. Analisou as provas do Enem deste 1998. E, para se ter uma ideia, nesses anos todos, apenas sete questões citaram nosso maior escritor, Machado de Assis. Guimarães Rosa ganhou uma única pergunta. Pouco, né?

Pois é. Esta foi a impressão que tive após ler a reportagem. Conduzido pelos argumentos da Veja, fiquei com a sensação que cobra-se pouco de nossa literatura e gasta-se muito tempo com interpretações de quadrinhos do Garfield, Mafalda etc. Portanto, de fato, faltariam critérios para os avaliadores do Inep (órgão responsável por elaborar as provas).

Entretanto, o assunto ficou me incomodando. E hoje resolvi compartilhar com os amigos leitores.

A pergunta que não me sai da cabeça é muito simples:
- Quem disse que para provar que é um bom aluno é preciso ter lido os clássicos?

Pensava nisto enquanto deixava meu filho na biblioteca. Ele estava com três livros nas mãos. Literatura adolescente. Porém, obras com mais de 400 páginas cada. Leu tudo em uma semana. Mais de 1,2 mil páginas em sete dias.

Não gosto das histórias que ele gosta. Eu prefiro Machado de Assis. Sou apaixonado por Eça de Queirós. Mas sei também que a maioria dos adolescentes não tem maturidade para ler esses autores. Essa molecada cresceu assistindo o mundo fantástico dos desenhos animados; as luzes, cores e ações dos jogos eletrônicos; os heróis do cinema…

Como pedir que se encantem pela literatura clássica?

Para eles, essas obras são chatas demais. Cansativas.

Não discordo. Na idade deles, é sim. Lembro que, quando tinha uns 10 ou 12 anos, li “Inocência” de Visconde de Taunay. Não estava pronto para aquele romantismo trágico. Fiquei tão chocado com a história que, ao final da leitura, queimei o livro. Hoje tenho um exemplar novinho na minha prateleira, mas, na época, não tinha maturidade para dar conta daquela leitura.

Essa garotada faz o Enem – e o vestibular – com 16, 17 anos. São pouco maduros. Entendo que precisam ser leitores. Devem ser leitores. Mas cobrar numa prova que saibam sobre Machado, Eça, Manuel Bandeira, Graciliano Ramos, Augusto dos Anjos, Mário de Andrade, Lima Barreto, Guimarães Rosa, Castro Alves, José de Alencar e outros tanto???

Para ler essa gente toda teriam que estar em contato com as obras desses autores há três ou quatro anos. Não consigo vê-los maduros para isso. Não se trata de dizer que não devam ler os clássicos. Apenas de reconhecer que, no contexto em que vivemos, são obras difíceis, pouco acessíveis. E, sob obrigação, não nasce um gosto.

Acredito que leitores são formados desde a infância. Adquiri o hábito da leitura por meio de obras fáceis como as da coleção Vagalume. Lia dezenas desses livros. Perdi as contas do número de obras. Porém, aprendi a gostar (e sentir) da literatura clássica numa fase mais madura. Aos poucos fui me aventurando em textos mais difíceis até chegar a Dostoievski, Oscar Wilde, Franz Kafka etc.

A descoberta das grandes obras não foi por obrigação. Foi escolha. Algo do tipo: “não posso passar pela vida sem saber por que esses ‘caras’ foram tão importantes”.

Ler dá trabalho. É cansativo. A moçada quer saber de diversão. Os clássicos nunca vão entretê-los. Obrigá-los a ler essas obras pode até melhorar as provas do Enem, mas não me parece que será suficiente para construir um país mais letrado – como sustenta a Veja. O conhecimento vem sim pelos livros e pela leitura. Mas não apenas estes. Esses autores não escreveram para adolescentes. Escreveram para um público mais maduro. E quando publicaram não tinham a pretensão de serem as principais referências de leitura de um povo. Por isso, parece-me que sustentá-los como único porto seguro do conhecimento e da educação é restringir o sistema de ensino e ignorar que a leitura é um caminho não um fim em si mesma.

Na segunda, uma música

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O Google – e seus demais serviços – é inteligente. Ele já sabe meus gostos, preferências. Então, hoje, sem saber o que compartilhar com meus amigos e leitores, o Youtube fez a parte dele. Adivinhou meu “drama” e ofereceu uma bela canção… pra recordar, reviver e curtir. Eu concordei. Afinal, “Pra ser sincero” é uma daquelas músicas que não morrem ao fim de uma estação. Basta ouvir os primeiros acordes, e a gente vai recordando as frases e cantando junto com Humberto Gessinger.

“Pra ser sincero” estourou nas rádios em 1990. Fazia parte do álbum “O papa é pop” da banda Engenheiros do Hawaii. Além da canção título, da música que escolhi pra hoje, o disco também trouxe outros sucessos: “Era Um Garoto Que Como Eu Amava Os Beatles e Os Rolling Stones”, “O Exército de Um Homem Só”, e “Perfeita Simetria”.

O grupo que começou em 1984 em Porto Alegre já não é o mesmo. Apenas Humberto Gessinger restou da formação original. E ainda assim o último álbum foi lançado em 2007 (Novos Horizontes).

Bom, mas chega de falar… Vamos ouvir.

O câncer como uma dádiva?

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O ator global em campanha contra o câncer

Foi assim que Reynaldo Gianecchini definiu a doença. Na primeira entrevista em que falou sobre o problema, o ator resumiu:

- Acredito que isso pode ser uma dádiva para mim.

Eu não sei se o câncer é uma dádiva. Não gosto de doenças. Acho que ninguém gosta. Mas Gianecchini encontrou uma forma otimista de lidar com o problema. Ameniza o sofrimento. Mais que isto: ajuda na recuperação. Afinal, toda cura passa pela postura da pessoa diante da doença, principalmente diante da vida.

No caso do ator, ele disse que nunca se sentiu tão amado. E certamente a doença deve ajudá-lo a desenvolver um outro olhar a respeito de si mesmo, das pessoas e do mundo. Na verdade, ninguém sai de uma situação como esta da maneira como entrou. Há um aprendizado que geralmente resulta em crescimento.

E neste sentido todo sofrimento é uma dádiva. Não que eu acredite na necessidade de sofrer para aprender. Não mesmo. Acho inclusive que é o pior meio para se desenvolver. Gosto da ideia de crescimento por escolha, por opção. Reconhecimento que é preciso mudar, melhorar. Prefiro a capacidade de avaliar-se. Entretanto, sei que as quedas nos ensinam, ajudam a perceber os “buracos” pelo caminho e quais as formas de nos protegermos.

Mas tem gente que nem o sofrimento faz mudar. Pois só aprende com a dor quem tem disposição de conhecer-se, abrir-se sem preconceitos para o novo. Alguns sempre vão viver com os olhos vedados. E nunca reconhecerão que o melhor da vida são as perguntas, as dúvidas e a possibilidade de ir em busca de respostas, transformando-se sempre.

Eu quero ver a cor da sua calcinha…

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Calma aí… Não precipite-se. A frase não é minha. Nem estou me atrevendo a fazer declarações com essa “profundidade” para alguma mulher misteriosa. Não, nada disso. É só a frase de uma música. Dessas que andam embalando um público de gosto, digamos, duvidoso.

Por sinal, alguém sabe me responder por que todo mundo que curte músicas ruins faz isso com o som alto? Eu, sinceramente, não entendo. O sujeito coloca o som nas alturas e sai por aí “se achando”.

Mas, voltando…

A frase aí do título é de alguma dessas músicas imbecis. Ouvi enquanto vinha para o trabalho. Estava no trânsito. Naquela fila imensa de carros parados no semáforo, não consegui identificar de onde vinha tanto “bom gosto”.

Acho que ando mesmo passadinho, rabugento. Só pode. Eu não conheço a banda, cantor… quem gravou isso. O ritmo era de música baiana. E nada contra os baianos que têm músicos e compositores maravilhosos.

Mas esquece o gênero – se é que faz parte de algum. Não vou conseguir identificar mesmo.

Enfim, vamos ao que importa. Eu falava que ando rabugento. Deve ser. Afinal, não consigo achar graça nessas músicas. Alguns vão dizer que é só uma brincadeira. Faz parte desse jogo erótico do qual a música tem participado. É pra dançar. Ou ainda diriam que só reflete as provocações normais da paquera, da sedução…

É verdade que estou “fora do mercado” há duas décadas. Mas, cá com meus botões, não existem palavras, frases, argumentos melhores para o jogo da conquista? As mulheres estariam tão fúteis assim? Sentem-se elogiadas ou ficam excitadas quando um homem diz que quer ver a cor da calcinha?

É… acho que não entendo mais nada.

Eu sempre pensei nas músicas quase como uma “muleta” pra gente dizer aquilo que nem sempre damos conta. Olhava para as canções e a beleza de suas poesias e tinha a impressão que nelas encontrava o encanto que os pobres mortais não conseguem dar às palavras. Só os artistas seriam capazes de tornar a vida mais bela. Então, podia usá-las para dizer o que por vezes que não conseguimos.

Por exemplo, estou lá… carente da pessoa amada. Sentindo falta. Ela está distante… Tem algo mais perfeito que usar “Só hoje” (J.Quest)? Olha como fica perfeito.

Hoje eu preciso te encontrar de qualquer jeito
Nem que seja só pra te levar pra casa
Depois de um dia normal…

Hoje eu preciso ouvir qualquer palavra tua!
Qualquer frase exagerada que me faça sentir alegria…
Em estar vivo.

Hoje eu preciso tomar um café, ouvindo você suspirar…
Me dizendo que eu sou o causador da tua insônia…
Que eu faço tudo errado sempre, sempre.

Hoje preciso de você
Com qualquer humor, com qualquer sorriso
Hoje só tua presença
Vai me deixar feliz

Pronto. Está certo que editei um pouco… Mas, eu não poderia dizer algo melhor.

E quem já não fez bobagem por ciúme? Magoou? Machucou a pessoa amada por um “barraco”?
Aí arrepende-se, mas não sabe bem o que dizer.

É só pedir socorro para a Rita Lee. Em poucas palavras, de maneira simples, despretensiosa, ela dá o tom para você dizer: desculpa, errei, mas sou capaz de tudo por você.

Desculpe o Auê
Eu não queria magoar você
Foi ciúme sim
Fiz greve de fome
Guerrilhas, motins
Perdi a cabeça
Esqueça!

Da próxima vez eu me mando
Que se dane meu jeito inseguro
Nosso amor vale tanto
Por você vou roubar
Os anéis de Saturno…

Na verdade, sempre entendi que a arte promove um aformoseamento da vida. Até mesmo as tragédias ganham novos contornos e tornam-se poéticas.

Por isso, não consigo digerir um “eu quero ver a cor da sua calcinha”. Sei que existem frases bem piores. Sei também que o erótico e até o chulo foram e são usados na arte. Entretanto, sempre estiveram presentes dentro de um contexto maior. Nunca foram ditos por dizer. Já serviram para protestar, para confrontar e até para apontar as contradições e o quanto a nossa sociedade é hipócrita.

Não é o caso dessas músicas contemporâneas. Elas banalizaram a arte.

Quando ouço essas frases, penso no público. O empobrecimento das manifestações artísticas representa carências afetivas, cognitivas e intelectuais. Mas também significa ausência de crítica, passividade, alienação, incapacidade de significar, pobreza de espírito.

Adolescentes e excluídos

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Sim, eles são excluídos. É verdade que são chatos. Às vezes, insuportáveis. Entretanto, só ocupam o papel que, como sociedade, reservamos aos nossos adolescentes.

Somos responsáveis pela criação desses monstrinhos. Eles vivem num vácuo, num espaço entre a infância e a fase adulta – um lugar não definido. Apenas se diz que é a adolescência. Fase de dúvidas, incertezas, aborrecimentos, revolta, busca de identidade. Já não são os nossos “bebês” – aquelas coisinhas fofas que pegávamos no colo. Nem são adultos o suficiente para conversarmos de igual para igual.

Qual o papel que lhes cabe? A sociedade definiu: não serem responsáveis por nada. E só causarem transtornos.

Para algumas coisas, dizemos a eles que são crianças demais; para outras, argumentamos que já são adultos.

Confuso, né? Até para eles. Podem ter certeza.

Estão excluídos. Não possuem “função” social.

Sinceramente, não gosto dessa visão pessimista da adolescência. Embora seja muito próxima da realidade. Uma realidade que nós construímos. Não são os hormônios que “disseram” como os adolescentes seriam. Fomos nós. É o jeito que olhamos para eles. É uma visão social. Correspondida sim, porque os “ensinamos” a serem assim.

Acontece que, ao fazermos isso, também negamos aos adolescentes o direito de serem gente. Afinal, olhamos para eles e falamos que eles não sabem nada. Claro, eles também olham para nós, adultos, e nos acham quadrados, ignorantes, ultrapassados. De certa, com um pouco de razão.

Hoje, ao ler a mensagem deixada por uma leitora – uma adolescente de 16 anos -, senti-me impulsionado a falar sobre isso.

Ela reclamava que não tem direito de reclamar. Não é ouvida. Por ser uma adolescente. Dizia isso no contexto de escola, mas trazia implícito o discurso estabelecido:

- Adolescente, não fale. Você não sabe nada.

É verdade que são inexperientes. Também é verdade que, na tentativa de construírem o próprio espaço, tornam-se ousados, mal humorados e até agressivos. Entretanto, eles têm algo a dizer. E por vezes sabem muito.

Acontece que os silenciamos, ou negamos o direito de falarem, porque não queremos ser confrontados. Sem pudores ou censura, os adolescentes confrontam nossos valores. Em especial, aqueles que não fazem sentido. Eles tocam em nossas feridas. Mostram nossas contradições. Obrigam-nos a tirar a máscara.

Ninguém quer isso. Não queremos admitir que nossas regras nem sempre são perfeitas. E muito menos que também temos nossas fragilidades.

Vejo isso no meu dia a dia. Tenho um filho adolescente. E sei o quanto é difícil ser pai de adolescente. É preciso ter disposição e muito fôlego para manter as coisas sob controle. Porém, com um pouquinho de bom senso, todas as vezes que debato um tema com meu filho aprendo um pouco mais. Sinto-me desafiado e obrigado a rever valores; também confirmo outros e, principalmente, aprendo que nunca sabemos tudo. E mais: tenho cada vez certeza de que conhecimento só se sustenta quando é constante atualizado. Do contrário, tornamo-nos sim dinossauros.

Renato Russo e a nossa música

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Faz 15 anos que Renato Russo morreu. A fim de homenageá-lo, pedi aos amigos do Facebook que sugerissem uma música do cantor e compositor. A ideia era escolher três ou quatro para colocar trechinhos no final do jornal. Em poucos minutos, foram mais de 30 comentários. Quase 20 músicas sugeridas.

Cá com meus botões, fiquei pensando: bons tempos aquele em que artistas construíam uma trajetória de sucesso colocando em evidência tantas músicas e com poesias tão belas. Bons tempos aqueles em que o tempo não silenciava as canções. Pelo contrário, eternizava-as.

O que dizer de “Será“, primeiro sucesso do Legião Urbana? E “Pais e filhos“? O ritmo intenso e a letra dura de “Que país é esse“? Dá para contestar “Monte Castelo”?

Renato foi músico, letrista… Daqueles artistas completos. Tinha uma bela voz, interpretação que emocionava, filosofava com suas canções e ainda era politizado.

Bem diferente do que a gente anda vendo por aí, né?

Desde ontem estou “ensaiando” para escrever um texto sobre a pobreza de muitas das canções que, atualmente, embalam milhões de pessoas. Espero postar ainda nesta terça-feira. Entretanto, hoje, ao lembrar da morte de Renato Russo, lamentei ainda mais a morte precoce de artistas tão completos que, ao nos deixarem, também levaram com eles um pouco da beleza, poesia e profundidade da nossa música.

Na segunda, uma música

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A busca por um amor relevante, significativo… daqueles que tiro os pés do chão e que faz perder a razão é o sonho de muitos. Alguns já tiveram a chance de viver um amor tão intenso. Outros ainda estão à procura. É verdade que muita gente perdeu as esperanças. Ainda assim, todos querem uma relação que faça bem, que traga sorrisos e torne a vida ainda mais bela.

A música de hoje fala dessa busca. Nas palavras de Frejat, o desejo expresso é da procura deste amor. Portanto, aos amigos e leitores, compartilho “Procuro um amor“, belíssima canção do talentoso cantor, compositor e guitarrista carioca.

Para que se que servem os partidos políticos?

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No Brasil, para tudo. Menos para identificar uma ideologia, uma bandeira, um ideal.

Teoricamente, as siglas deveriam ser mais que siglas; os partidos teriam que reunir políticos que tivessem pensamentos semelhantes a respeito de diferentes temas. Ou seja, quando votássemos num candidato de um determinado partido saberíamos o que ele pensa a respeito do aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo, educação, política cambial etc etc. Isso criaria uma identificação do eleitor com o partido, porque nos sentiríamos representados em nossas opiniões. Se entendemos que a escola deve ser pública para todos, bastaria saber que partido defenderia tal tese.

É verdade que, no Brasil, os políticos têm praticamente os mesmos propósitos: perpetuarem-se no poder. Entretanto, para isso, usam os partidos. As siglas estão a serviço deles e não do país. Por isso mesmo, quando alguém sente que perdeu espaço, muda de legenda. Foi o caso de Gustavo Fruet, em Curitiba. Ele queria ser o candidato do PSDB à prefeitura de Curitiba. A tucanada não parecia disposta a lançá-lo na disputa. Fruet arrumou as malas e mudou-se para o PDT.

O exemplo revela a completa ausência de uma identificação partidária. Afinal, o ex-deputado até dias atrás pertencia a um partido de oposição ao PT; hoje, faz parte de uma sigla que é base de apoio do governo Dilma. Fruet era do grupo de Beto Richa; agora está com Osmar Dias.

Como fazer o eleitorado entender essas mudanças de “humor”?

Talvez por isso o eleitor brasileiro vota em nomes, pessoas. O partido pouco importa. Claro, existem exceções. Porém, é assim que funciona na maioria dos casos.

A quantidade de legendas é tão grande que temos dificuldade para nominá-las. São cerca de 30. O mais recente é o PPL (Partido Pátria Livre). Sua bandeira resume-se no que seus representantes chamam de um programa de governo nacional e desenvolvimentista. Será que não tem nenhuma outra sigla com a mesma “bandeira”?

Essa confusão de partidos que mais parecem um amontoado de letras do que qualquer outra coisa não ajuda a criar identificação alguma com os eleitores. Na verdade, só contribui para que os caciques políticos sejam donos de seus próprios territórios.

Ainda hoje brincava com o Gilson Aguiar:

- Vamos montar um partido?

Ele concordou com a brincadeira… E completei:

- Só não podemos brigar. Do contrário, já serão mais dois partidos.

Porque é assim que funciona: “se estou incomodado, troco de partido. E se não encontrar nenhum que me agrade, monto meu próprio partido”. Foi assim com o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab; e, ao que parece, com a ex-petista e ex-candidata do PV à presidência, Marina Silva.

Sinceramente, acho tudo isso uma piada de mau gosto. Os políticos riem de nossa ignorância. E com essa mistura de partidos, garantem o espaço que precisam para continuarem perpetuando-se no poder.

A população simplesmente não consegue entender nada disso. E se mantém alheia aos fatos políticos. A prova disso eu tiro quando concluir este texto e publicá-lo: certamente será o menos lido da semana. Por quê? Porque ninguém está nem aí para assuntos deste gênero.

Quem se atreve a refletir e compartilhar sobre essas questões fala com o público de sempre. Uma minoria que ou está engajada com a política ou que vive a utopia de que ainda há espaço para mudar. Mudança que nunca vem. E que se evidencia em gente que se sustenta em seus cargos – como o Sarney, Collor… ou aqui na terrinha, com o nosso nobre vereador John Alves Correa.

Steve Jobs e as reações passionais

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Steve Jobs morreu. Tudo bem… Já não é novidade. Também não falo nada novo se disser que ele era um gênio. Nem se sustentar que o mundo da tecnologia não seria o mesmo sem o criativo ex-presidente da Apple.

Lamento a morte de Jobs. Lamento a morte dele e de outras pessoas geniais quanto ele ou simplesmente das milhões de anônimas, mas que souberam ser significativas ao transformar o lugar em que viviam – mesmo que seja lá na beira do Rio Amazonas.

A importância de Jobs para o mundo dos negócios, para a evolução tecnológica está sendo muito bem repercutida pela mídia. E a revolução que causou enquanto esteve vivo não poderia ser silenciada pelos meios de comunicação.

Se isso é justo ou não é uma outra história. Entretanto, no mundo midiático apenas o sucesso, o glamour ou a tragédia colocam um sujeito nas páginas dos jornais. Por isso, não critico a repercussão dada pela imprensa. Faz parte do jogo. Homenagem e negócio. Reconhece a genialidade de Jobs e vende jornais; alavanca o ibope. Nada novo.

O que me incomoda é a passionalidade de muitos “fãs”. Vi hoje um comentário quase despretensioso do amigo e produtor, Diego Drush. No Facebook, ele escreveu:

- Eu nunca tive nada da apple. Normal eu não ter ressentimento algum. Eu estaria em desacordo se estivesse aqui, lamentando e dizendo que sinto muito.

A fala dele ganhou repercussão. Gente apaixonada simplesmente o “atacou” por não sentir a morte de Jobs.

Peraí… é só uma opinião. Quem sente, sente; quem não sente, não sente. Simples assim.

O cara era um gênio. Mas ele estava lá, distante… O Diego, eu e tantas outras milhões de pessoas simplesmente só o conhecíamos pelo que a imprensa fala. Nunca tivemos um produto da Apple. Até sonhamos com um iPad, iPhone… Porém, ficou nisso.

Ele fará falta? É provável. Principalmente para as pessoas com as quais convivia, seus familiares, amigos… E quem sabe ficará aquela incômoda pergunta para o pai:

- Será que, se eu tivesse tentado, ele aceitaria conversar comigo? Poderíamos ter sido amigos?

Pela sua história, ficará um vazio… como o que foi deixado por outros ilustres que já se foram. No entanto, para pessoas como o Diego, eu e outras tantas, não será o mesmo vazio como o deixado por aqueles que amamos e que também um dia se foram.

Jobs, o humano, vivo e criativo, deixa o mundo, mas fica o mito. E este não morre. Será sempre lembrado; por vezes, aplaudido e homenageado. Escreveu o nome dele na história. E com méritos.

Mas é isto. O fato de não suscitar paixões em alguns, nem derramar lágrimas ou sentir-se triste, não significa falta de humanidade. Ou de sensibilidade.

A gente chora a morte de quem nos é querido. Daqueles que vemos a distância ou não conhecemos, lamentamos. Afinal, penso, ninguém aceita a morte como algo desejável. Reconhecemos que faz parte do ciclo da vida, mas desejamos a vida eterna. Jobs poderia ser imortal… Como eu e você.

Por isso discussões passionais ou posições como a que citei sempre lamento a frivolidade dos sentimentos de alguns de nós. Temos tanta potencialidade, porém nos esvaziamos da razão e nos afogamos em emoções tão mesquinhas que me fazem pensar: será que somos mesmo dotados de intelecto?

Gente, é só uma opinião…

E vocês ainda acreditam nisso, bobinhos?

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- Poderiam ser tão inocentes? Ingênuos?

Esta foi a minha primeira pergunta que fiz ao ler um dado de uma pesquisa realizada pelo professor Fábio Iglesias, do Instituto de Psicologia da UnB. O resultado foi apresentado na coluna online do jornalismo Ancelmo Gois, do jornal O Globo.

O estudo revelou que os pais acreditam que seus filhos são pouco influenciáveis às propagandas.

É isso aí que você leu: os pais ACREDITAM que seus filhos praticamente NÃO sofrem influência das propagandas (a mesma pesquisa revela que as agências usam pelo menos 21 estratégias para seduzir a molecada).

Imediatamente lembrei de um comercial muito bonito que está passando na TV. É do Café Pilão (vou até reproduzir o vt aqui porque a criança é muito fofa).

Então, retomando…

Lembrei desse comercial porque só mesmo a ingenuidade justificaria tal conclusão. Comerciais influenciam crianças sim. E pais que não percebem isso estão cegos. Não conhecem seus filhos. Ou não querem conhecê-los.

Sou jornalista, pesquisador de mídia e da educação. Além disso, tenho filhos.

Em casa, televisão sempre foi controlada e alvo de discussões. Tudo que a moçadinha assiste vira tema de nossos papos. Conversamos sobre o que eles veem. E quer saber? A queda de braços com o discurso da TV nem sempre nos é favorável. Eles são influenciados pela TV sim – mesmo tendo pais que participam do dia a dia deles e que ainda tentam desenvolver um olhar crítico para o conteúdo midiático.

O encanto, a sedução da publicidade desenvolve a crença. E motivo o consumo. Minha filha, na hora de escolher uma sandalinha, prefere a da Ivete Sangalo. E prefere não por que seja a mais bonita, mas por causa da propaganda na TV. Meu garoto, ao escolher o salgadinho na prateleira do supermercado, opta pela marca famosa que associa a imagem de vitória, prazer e heroísmo ao produto.

Eles acreditam sim que é mais gostoso, melhor e até mais bonito. Tudo por causa da publicidade.

Agora será que a maioria dos pais não percebe isso?

É só conhecer nossos filhos.

Ou será que a pesquisa foi distorcida? Se foi, eu tenho uma hipótese: os pais que participaram do estudo não querem admitir que não dão conta de lidar com o mundo mágico da publicidade.

Essa guerra realmente não é justa. As peças publicitárias são fascinantes. Quinze ou trinta segundos; um minuto, que seja… de um universo aparentemente perfeito em que o consumo sugere paz, alegria, felicidade, prazer, vitória, status, superioridade e tantos outros discursos que vão ao encontro de nossos desejos não realizados.

Entretanto, admitir que nossos filhos são influenciados pelos comerciais talvez seja o primeiro passo para nos libertarmos. Afinal, temos sido guiados – por vezes, teleguiados. Nossas escolhas não têm sido nossas; quase sempre são resultado do que nos é sugerido pelos meios de comunicação.

PS- Eles têm pelo menos 21 estratégias de sedução por meio dos comerciais. Quais são as nossas estratégias para deixarmos de ser reféns da publicidade?

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