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A neutralidade no Jornalismo

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Ouvir as diferentes versões de uma mesma história é um dos princípios jornalísticos. A gente chama isso de “entrevistar os dois lados”. Afinal, se você tem alguém que reclama, do outro lado deve haver alguém pra se defender. Numa greve, existem as versões dos empregados e dos patrões. Num acidente, envolvidos e até testemunhas. Na política, situação e oposição… E assim por diante.

Entretanto, há algo nessa dinâmica do jornalismo que pouca gente nota. Quando o assunto carece de uma interpretação, entrevista-se um especialista. Esse expert explica o acontecimento, as implicações do fato. E a visão desse profissional não se questiona.

Por exemplo, quando ocorrem atos de violência nos morros do Rio de Janeiro, moradores são ouvidos, a polícia é ouvida. E, com frequência, um único especialista é convidado para explicar o confronto. Essa pessoa problematiza as questões envolvidas e as interpreta para os ouvintes, telespectadores, leitores etc.

Essa lógica da imprensa funciona basicamente para todos os assuntos. Do meio ambiente à economia. Os lados são ouvidos. E, pra concluir a “reportagem”, também um especialista, que deve interpretar os acontecimentos.

O que pouca gente questiona é a neutralidade desse especialista. Será não há visões diferentes entre pesquisadores do mesmo tema? Será que um expert reúne toda a verdade? Será que um especialista não se posiciona de um determinado lugar, inclusive ideológico? É claro que sim.

A Ciência não é um todo homogêneo. Todos os fenômenos sociais possuem diferentes interpretações. Um mestre, um doutor – ou mesmo pós-doutor – faz suas pesquisas partindo de uma linha teórica. Isso se reflete na forma como analisa os fatos. Por exemplo, um especialista adepto de uma linha teórica mais liberal vai criticar as intervenções no Estado na economia; outro pode entender que a presença do governo interferindo no mercado é uma necessidade para que se reduzam as desigualdades sociais.

A questão, portanto, é bastante complexa. E é complexa porque raramente a gente reclama da imprensa por trazer apenas um especialista (ou uma vertente ideológica) nas explicações de um determinado fato. O Brasil, por exemplo, supostamente vive um momento delicado. Parece não dar conta de controlar o crescimento da inflação e, ao mesmo tempo, não consegue expandir a economia. Entretanto, temos visto na mídia diferentes interpretações dos movimentos econômicos? Tenho impressão que o discurso dominante é de total crítica ao governo. Mas será que não há visões contraditórias? Todos concordam? Não há ninguém com analise de outra maneira? Estaríamos vivendo um momento em que todos pensam igual? Ou será que quem pensa diferente não estaria sendo ouvido?

Um autor americano que respeito, Roberto Darnton, ressalta que:

Os jornais devem ser lidos em busca de informações a respeito de como os acontecimentos eram interpretados pelas pessoas da época, em vez de representarem fontes confiáveis dos acontecimentos em si.

E o motivo é muito simples: o jornal – o jornalismo em si – interpreta a realidade. Não significa que mente, manipula ou pretende aliar o público. Apenas não reproduz a realidade em sua totalidade. Ela faz um recorte. Por isso, decidir nossa vida pelo que sai na imprensa pode ser bastante arriscado.

Artistas descartáveis

fama

Um dos temas mais recorrentes em aula, quando discuto com meus alunos sobre a música contemporânea, é a efemeridade do sucesso. Os anônimos de hoje podem ser celebridades amanhã. As celebridades de hoje podem ser artistas tidos como fracassados amanhã.

Na verdade, não considero um fracasso aqueles que deixam de estar em evidência na mídia; penso que são apenas vítimas de uma lógica cruel. Artistas são produtos. E semelhante à moda que vive momentos – as chamadas tendências da moda -, os produtos da indústria cultural são descartáveis. Permanecem apenas alguns nomes que resistem aos modismos.

Pensava nisto nesta manhã quando vi uma nota no F5, da Folha.

- Após cobrar R$ 120 mil no auge, Naldo agora faz shows por R$ 15 mil

Eu nunca ouvi nada desse funkeiro. O máximo que conheço da voz dele foi por “trombar” com um comercial de uma operadora de celular. Também vi alguns títulos de notas publicadas em sites sobre a carreira dele, e em especial a respeito do casamento com outra celebridade do momento, a Mulher Moranguinho.

Não sei se Naldo é bom ou ruim. Nem estou interessado em saber. Entretanto, quando vira notícia por reduzir o cachê, a mídia inicia o processo de desconstrução da imagem. Repete uma fórmula conhecida: o sucesso ou o fracasso das celebridades vende notícias. Quando parar de vender, o artista sai de vez do cenário midiático – terá cumprido seu ciclo (do anonimato à fama, da fama ao limbo).

É fácil perceber o quanto são descartáveis. Se voltássemos no tempo, e não precisa ir tão longe… cinco anos atrás, notaríamos que muitos daqueles que estavam em destaque, já foram esquecidos. E os sobreviventes geralmente são aqueles que já tinham história e alguns poucos que têm talento de fato ou criaram uma identificação maior com o público, adaptando-se, principalmente, às novas tendências.

Como produtos, os artistas são usados pela indústria. Interessam enquanto geram lucro. Depois, muitos deles praticamente pagam a fim de encontrar uma casa de shows que abra espaço para se apresentarem – ou, no caso de atores, se submetem a fazer qualquer programa de humor, filme de quinta categoria etc para manter viva a carreira. Simplesmente perderam o encanto. E a insistência de alguns deles em sobreviver até parece incomodar. É a cultura do descarte que se repete dia após dia, com a concordância de todos nós, consumidores de “arte”.

Desligado da TV

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Estou sem televisão há mais de 15 dias. Nesse período descobri algumas coisas. Entre elas, que dá pra viver sem a telinha. E o melhor, no meu cantinho, não existe carnaval.

A gente vê a vida passar pelos “olhos” da tevê. Ou da mídia. Quando você desliga o botão, passa a ver o que acontece ao seu lado. E mais… Passa a reparar em você mesmo.

A tevê quase sempre nos anestesia, nos ilude. Achamos que a vida é aquela que desfila na tela. A medida da violência nas cidades, a medida dos problemas econômicos, políticos… e até mesmo da felicidade e do jeito de viver são dadas pelos noticiários, novelas, programas de entretenimento etc.

No meu cantinho, não teve carnaval. Não teve desfile de escola de samba, mulatas dançando, famosos em camarotes. Também não teve barulho, briga, confusão, nem gente embriagada. Não teve, porque no bairro onde moro, o ritmo é dado apenas pelo vai e vem de pessoas que trabalham e daquelas que descansam em virtude do feriado. A festa popular não acontece pra nós.

Sabe, não sou contra a tevê. Na verdade, sou um sujeito de mídia. Jornalista de profissão; professor de Comunicação por paixão. Vivo, respiro os fenômenos midiáticos. Entretanto, desligar-se da telinha faz bem. Faz bem pra gente se encontrar, pra notar quem está do lado, pra identificar as próprias emoções. A vida da gente é diferente da vida que passa tela. Desligados das imagens, temos a chance de viver nosso próprio mundo e descobrir nele o que de fato nos faz bem.

BBB, Veríssimo e a ignorância

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Terça-feira, 14/1, tem estreia na Globo. Pela 14a vez, a emissora carioca vai apresentar o Big Brother Brasil. E, claro, o programa desperta paixões. Gente que gosta e gente que não gosta se posiciona para verbalizar suas opiniões. Alguns, sem ter o que dizer, apropriam-se de argumentos de outros para tecerem suas críticas. E a internet ajuda muito nisso. 

A internet é terra de ninguém. Ambiente próprio para que verdades e mentiras circulem com a mesma autoridade. Gente famosa, conhecida divide espaço com milhares, milhões de anônimos que também ganham status de produtores de conteúdo. Todos podem consumir informações, dar ou compartilhar notícias. Pois é… E também fazem isso pra tratar do BBB. 

A internet é revolucionária. Porém, como pontuei, é terra de ninguém. Pessoas dotadas de inteligência e responsabilidade circulam por aqui ao lado de outras tantas sem nenhum compromisso. Apenas com a ousadia e/ou coragem permitidas pelo anonimato ou por contarem com a precipitação alheia que transforma boatos em verdades absolutas. Na rede, dá para publicar o que quiser. Inclusive muitas bobagens. 

Neste ano, de novo, outra vez… pra falar do BBB, estão ressuscitando um suposto texto de Luís Fernando Veríssimo. Nele, o cronista e escritor simplesmente desconstruía o programa global. Já falei sobre esse texto aqui. Por sinal, esse post nada mais é que uma atualização de algo que escrevi há quatro anos. Entretanto, se resgatam o texto do Veríssimo, que nem é dele, estou no direito de reescrever o meu.

Pois bem… há vários argumentos interessantes no tal artigo. Entretanto, embora não seja especialista em Veríssimo, na época que vi o “artigo” pela primeira vez, estranhei o estilo e, como aprendi a desconfiar de tudo que circula na rede, pesquisei o famigerado texto.

Como supunha, nada prova que seja do Veríssimo verdadeiro, o gaúcho, autor premiado e colunista de grandes jornais. Além disso, quem faz circular o artigo tratou de atualizá-lo, já que uma versão semelhante circula desde os tempos do BBB 10. Ou seja, o texto não é do Veríssimo. Colocaram o nome dele no “artigo” e publicaram na rede. 

Na prática, a situação só reforça minhas crenças que a gente precisa ter um pouco mais de bom senso e desconfiança com o que vê ou com o que é falado na internet. Não é por que um texto vem assinado como do Jabour, do Veríssimo, do Alexandre Garcia ou seja lá quem for que vamos sair por aí afirmando: viu o que fulano escreveu? Reproduzindo algo que pode não passar de mais uma tremenda bobagem.

Ainda há pouco, apontei que há argumentos interessantes nesse texto. Porém, o “artigo” perde autoridade por seu autor simplesmente não ter a capacidade de assiná-lo, dizer quem é. Lamentável.

Portanto, quem se propõe a criticar o BBB, primeiro deve se questionar. Analisar se tem os argumentos certos, se não está apenas “entrando na onda”. Depois, se quer se apropriar de um texto para tratar do programa, necessita reunir as habilidades mínimas necessárias para certificar-se de que os argumentos têm autor conhecido, se o autor é de fato o autor mencionado e se o que está ali escrito é confiável.

O JN não me faz falta

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Teve uma época que a programação da televisão era referência para a programação diária dos brasileiros. A pessoa saia de casa, mas fazia as coisas de tal forma a não perder os programas favoritos. Entre eles, estavam as novelas e o Jornal Nacional. Nas duas últimas décadas, isso começou a mudar. E sobrou até para o principal telejornal brasileiro. Segundo dados recentes do Ibope, o JN teve o pior ano de sua história. A audiência não para de cair.

Faz muito tempo que não vejo o Jornal Nacional. Trabalho à noite e não dá para ver televisão. Entretanto, mesmo quando estou em casa, não sinto falta. O resumo dos fatos trazidos pelo JN não me atrai. Quase tudo já está na internet. Com a vantagem que dá pra selecionar o que quero ver, não tem intervalo comercial e ainda encontro opinião. O telejornal da Globo é sem graça. Apenas noticia, não informa.

Não sei se é assim que se sentem os telespectadores que abandonaram o Jornal Nacional. Entretanto, cá com meus botões, tenho a impressão que muita gente deixou de se sentir dependente da televisão para saber o que está acontecendo no Brasil e no mundo. Tudo está na rede. Além disso, para ver o programa, precisa sentar o bumbum no sofá naquele horário determinado pela emissora. É como se tivesse um compromisso com a TV; tem que fazer parte da agenda diária. E quem tem disposição pra isso hoje? Cada vez menos gente quer ficar refém de horários. Já bastam as obrigações com o trabalho.

No caso do JN, ainda tem o fato de o jornal ter se tornado chato. O modelo envelheceu. E, pra emissora, mudar é arriscar, correr riscos. Basta ver o que aconteceu com a apresentação. A aposta na jornalista Patrícia Poeta, uma cara jovem e simpática, foi extremamente equivocada. Poeta mais parece uma bonequinha que faz caras e bocas diante das câmeras. Desde a estreia dela, a audiência só caiu. Pior, ainda conseguiu deixar o William Bonner completamente insosso. Os apresentadores já não são referência para o público. Tanto faz ser um ou outro apresentador/a na bancada do JN. A gente não sente falta.

Quanto ao que vai acontecer com o principal telejornal do país, não dá para saber. Eu só sei que apenas um milagre me faria voltar a gastar tempo vendo o Jornal Nacional.

Exibicionismo na rede, noticiário e o leitor

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Na lista de sites que espio diariamente está o Globo.com. Noto com freqüência que entre as notícias relevantes, também há inúmeras bobagens. Entretanto, parece cada vez mais recorrente as publicações baseadas no exibicionismo virtual de certas “estrelas”. Hoje, entre outras, encontrei:

- Com calça colada, Gracy Barbosa agradece por mais um dia de trabalho

A “notícia” dá conta de uma publicação de Gracyanne Barbosa nas redes sociais. Noutra, Joana Prado aparece pronta para malhar:

- Joana Prado acorda cedo e posta na internet: ‘Já malhei e adorei a Deus

Nas informações do esporte, também existe espaço para o exibicionismo:

- De short minúsculo e saltão, Daniele Hypólito dá bom dia: ‘Bora treinar’

Sempre me questiono sobre a atuação do jornalismo. Entretanto, como sustento para meus alunos, a informação oferecida tem uma referência principal: o gosto do público. O público é voyer, logo tornou-se “normal” o “noticiário” baseado no exibicionismo de “estrelas”. Além disso, brinca-se à vontade com a libido masculina. Funciona!

Quanto aos hábitos de se mostrar na rede, aí só pode ser carência mesmo, necessidade de curtidas e comentários. Sintoma de solidão e falta de afeto.

Quem nunca fez uma grande bobagem na vida?

futuroDifícil, hein? Acho que todo mundo já fez alguma coisa que lhe causa vergonha. Mas a vida é assim. A gente aprende… errando. Recria-se a partir do erro, torna-se uma pessoa melhor (Claro, nem todo mundo evolui. Tem gente que passa a vida cometendo os mesmos erros, infelizmente).

Pensava nisso após ver uma notícia sobre a Xuxa. Um vídeo dela de 1983. Na época, a apresentadora era modelo e namorada de Pelé. No vídeo, ela dança dentro de uma espécie de taça trajando um biquíni. A filmagem ocorreu em Minas, no carnaval.

No passado, Xuxa também fez um filme com cenas eróticas. Quase um pornô. E contracenava com um adolescente.

A apresentadora já brigou muito na Justiça para recolher o filme. Sumir com todas as imagens. Ela nunca fala sobre o assunto. Agora, eis que surge esse vídeo com cerca de 5 minutos. As imagens devem incomodá-la.

Não sei se Xuxa se arrepende do que fez no passado. Dessa exibição pública em Minas. Nem do filme “Amor estranho amor”. Mas é certo que, hoje, ela se esforça para esconder parte do seu passado. É provável que, pela imagem midiática que construiu, gostaria de apagar esses fatos. Não dá.

Na vida da gente também é assim. Tem coisas que a gente gostaria de esquecer. Tem coisas que nos envergonham. Tem outras que, se pudéssemos, reescreveríamos. Pode ser um namoro desastrado, uma paixão imbecil… Quem sabe, algumas bebedeiras, comportamentos vulgares… Não importa. É bem provável que todos nós tenhamos algumas atitudes que não nos orgulham nenhum pouco.

Não sei se a Xuxa cresceu. Não sei se o desejo de apagar o passado é fruto de uma preocupação com a imagem midiática ou resultado de um genuíno arrependimento. Entretanto, a vida é cíclica. E a gente muda, felizmente. Tem sempre a oportunidade de crescer. Apagar o passado não dá. Mas é possível escrever o futuro. E este começa com as escolhas que fazemos hoje. Aprender com os erros cometidos pode ser o início de um outro momento que poderá nos orgulhar.

A TV que a gente não deveria ver

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Um dos temas mais controversos envolvendo a mídia é o que trata da regulamentação dos veículos de comunicação. Confusão comum é entendê-la como censura. Ou seja, um mecanismo que limite a liberdade das emissoras de rádio e televisão, principalmente.

A questão sempre volta à tona quando gente, como o governador do Rio Grande do Sul Tarso Genro, cita aspectos da Constituição Brasileira e faz questionamentos do tipo:

Se esses artigos fossem aplicados de maneira séria, provavelmente mais de 80% dos programas que estão nas rádios e principalmente nas televisões teriam de sair do ar.

Cá com meus botões, não entendo que uma regulamentação seja necessariamente censura. Ela pode conter elementos que permitam a censura (e isso sim é preciso evitar). Mas não significa que a regulação da mídia impeça a liberdade de imprensa ou de expressão.

E Tarso Genro tem razão quando aponta que muita coisa poderia sair do ar.

São programas que ou transformam a mercadoria em notícia ideologizada ou promovem a violência, o sexismo e a discriminação.

O princípio de que o público deve escolher o que assistir/ouvir é muito bonito na teoria. Na prática, funciona pouco. Infelizmente, por falhas na educação, as pessoas não sabem selecionar. E embora tenham o controle nas mãos, optam pelo lixo. Como consequência, a programação piora cada vez mais.

Acho normal que televisão e rádio ofereçam diversão ao público. Mas qual a qualidade da diversão? Violência e sexo norteiam boa parte dos produtos midiáticos. E as notícias raramente contribuem para a formação da opinião pública (pelo contrário, distorcem a visão dos fatos). A gente assiste/ouve e fica com uma pergunta: “e daí?”. As notícias geralmente mostram um problema, mas raramente abrem possibilidades de reflexão sobre o assunto – e nunca apontam soluções. Na verdade, a notícia só publiciza o drama, mas não transforma, não provoca mudanças.

E existem outros problemas. Veja o caso dos domingos na TV aberta. À tarde, não há opções. Só existem programas de auditório. Escolher entre um e outro apresentador não é garantir diversidade. Oferecer opções é ter num canal programa de auditório; noutro, filme; no terceiro, talk-show; no quarto, programação infantil… E isso não existe no país. Quando num canal tem telejornal, nos demais quase sempre encontramos algo parecido. Se passa novela na Globo, passa na Record.

As temáticas abordadas por vários programas desrespeitam o público. “Vende-se” o sexo fácil, o desrespeito nos relacionamentos, a infidelidade, o desapego, o egoísmo… Associa-se felicidade ao consumo. Os modelos de beleza midiático atropelam a realidade e apresentam um ideal de corpo inatingível – como consequência, milhares de mulheres vivem frustradas e não gostam do que vêem no espelho. Crianças aprendem desde cedo que comprar é o que abre a porta do prazer; e muito novas são despertadas para o sexo, tornam-se vaidosas e, as meninas principalmente, adotam saltos, maquiagem e, na adolescência, já frequentam as salas de cirurgia plástica.

A regulamentação dos veículos de comunicação poderia qualificar a programação das emissoras. Embora pareça uma ação que desrespeita o direito do cidadão, entendo que somos obrigados a reconhecer que o público brasileiro ainda não dá conta de decidir por si só o que ver/ouvir. O que preocupa, porém, num quadro de regulação é quem vai julgar o conteúdo e quais serão os critérios. Afinal, deixar isso nas mãos do governo não me parece nenhum pouco recomendável. Mas este é assunto para um outro post.

Envelhecer é imperativo

espelho

As pessoas, na televisão, envelhecem, mas seguem tão lindas que me sinto péssima. Tenho até vergonha de me olhar no espelho.

O comentário é de uma leitora. Recebi dias atrás no Facebook. Pensei nela… Pensei em mim e concluí:

- É por isso que evito o espelho.

O espelho é cruel. Diante dele, nos sentimos péssimos. É uma ruga aqui, outra ali. Uma mancha nova na pele. E se nos despimos… socorro!!! Não faltam imperfeições.

Os homens geralmente são mais tranquilos. Não todos, é claro. Têm muitos deles vaidosos demais. Ficam preocupados com uma espinha no rosto. Porém, historicamente, as mulheres sofrem mais. Você conhece uma mulher plenamente satisfeita com o corpo? Difícil, né?

Pior que as supostas imperfeições é o efeito do tempo. Raramente gasto tempo me olhando no espelho. Claro, faço o básico: arrumo os cabelos, passo um hidratante, ajeito sobrancelha, pelinhos do nariz… Mas não dá para ficar medindo as rugas e manchas.

Dia desses, porém, enquanto minha filha brincava comigo, levei um susto. Estávamos próximos de um espelho. Não me reconheci. O rosto não parecia meu. O que aconteceu? Bem, não dá para sair correndo. Nem voltar no tempo. As marcas de expressão estão todas aqui para não me deixar esquecer o movimento contínuo da vida. E que o envelhecimento é realidade para todos nós.

Não diria que é divertido ver as marcas do tempo estampadas no corpo. O tempo é cruel.

Vivemos sob o império da beleza. Na televisão, no cinema, nas revistas – e até nas redes sociais -, a imagem única é da juventude. Ela é onipresente.

É difícil aceitar o efeito do envelhecimento, principalmente porque rostos e corpos perfeitos parecem ser a identidade histórica dessa sociedade midiatizada. E o efeito da comparação é devastador. Afunda a autoestima. Na mesma medida, alavanca a indústria de cosméticos, as academias de ginástica, clínicas de estética e de cirurgias plásticas. Instigadas pela aparente perfeição desfilada nas telas do cinema, na televisão, nas revistas, as pessoas apostam em qualquer novidade que prometa retardar o envelhecimento. Estica, puxa… Cosméticos, nutrição, exercícios… Porém, envelhecer é imperativo. O que a mídia mostra apenas ilude. E gera frustração. Torna ainda mais doloroso o processo de aceitação.

A beleza não mora ao lado

felicidade

Quem determina o padrão de beleza? Afinal, há um padrão? Existe uma medida que defina as formas belas do corpo humano?

Confesso que sou um pouco exigente. Penso que é preciso se cuidar. Entendo inclusive que cuidar do corpo é cuidar do relacionamento. Quem procura estar bem, de alguma forma, diz pro outro que se importa, que se interessa, que o ama. Afinal, o que justifica cuidar-se pra conquistar e, após conquistado o “bem amado”, abandonar-se?

Esta semana, por exemplo, vi de longe um uma pessoa que conheço há uns oito anos. Ele está com uma barriga tão grande que chega a dobrar por sobre a calça. É um homem ainda jovem. Não deve ter 30 anos. Quando casou, a circunferência abdominal certamento não chegava a 100 centímetros. Hoje, não tenho ideia das medidas.

Entretanto, penso que há dois extremos. Existem pessoas que simplesmente abandonam-se. E outras que tornam-se reféns de um padrão irracional de beleza. Por conta disso, sofrem. E sofrem muito.

Bulimia, anorexia e outros transtornos são doenças comuns nos dias atuais. Gente que se olha no espelho e vê uma distorcida de si mesma. Sem referências do próprio corpo e com noções completamente equivocadas do que é belo, abrem mão de viver.

As mulheres são as principais vítimas. Mas muitos homens também experimentam essa lógica irracional. Como sugere Augusto Cury, escalas irracionais de sensualidade levam homens e mulheres a se sentirem deficientes, deformados, não atraentes, não admirados.

Essas pessoas fazem tudo, de exercício a intervenções cirúrgicas, para terem um corpo supostamente perfeito. Mas nunca estão satisfeitas.

Mulheres com barriginha ou dobrinha nas costas se submetem a lipoaspirações; aquelas que têm seios menores, colocam silicone; as que têm seios grandes, reduzem; mulheres magras passam semanas, meses em academias para ganhar massa muscular… Homens de várias idades tomam suplementos diversos para “crescer”. Precisam ficar saradões.

brunetO problema é que os padrões estéticos mudam com a mesma rapidez que surge um novo celular. Luiza Brunet, sucesso como modelo nos anos 1980, não seria referência de beleza nas passarelas nos dias de hoje. E por falar em passarelas, quem inventou essa história de garotas de 15, 16 anos serem as referências de corpo para exibirem as novas coleções?

Às vezes chego a ter a impressão que existe uma intenção oculta em plantar a insatisfação constante, porque gente insatisfeita consigo mesmo consome mais, gasta mais.

Tem alguma errada. Mulheres reais não são feitas em máquinas. Não são produzidas em escala industrial. Possuem biotipos diferentes. Algumas são baixas, outras altas. Há aquelas medianas. Vale o mesmo para os homens. Tem gente magrinha. Tem gente mais forte. Alguns desenvolvem barriguinha com facilidade. Às vezes, culote. Entretanto, do ponto de vista da indústria da beleza, não existem seres humanos; existem objetos humanos.

banhistaE detalhe, o que se mostra como o padrão estético atual é apresentado como uma referência absoluta de beleza. A verdade estética, o modelo supremo, perfeito. Silencia, porém, que não faz tanto tempo assim que eram exaltadas em verso e prosa mulheres roliças, gordas – como a retratada por Jean Auguste Dominique no início do Século XIX.

Por meio da televisão, do cinema, das revistas uma imagem é construída. Afinal, aquilo que pensamos sobre nós é resultado daquilo que vemos, escutamos, sentimos. Quando os veículos de comunicação desfilam esse padrão irracional de beleza, homens e mulheres passam a se espelhar nele. A imagem torna-se realidade. A imagem passa a ser o objetivo a ser alcançado pelas pessoas normais. E isso desenvolve frustração, vergonha e até depressão, porque as referências são inatingíveis para a maioria. Tem gente que ganha meio quilo e já fico ansioso.

Sabe, como disse lá no comecinho do texto, defendo a importância de cuidar-se. Estar bem. Mas o que é estar bem? Será que estar bem é agredir-se? Deixar de comer um pedacinho de chocolate após a refeição? Dividir uma pizza com a pessoa amada de vez em quando? Tomar um sorvete numa noite de calor? Ou estar bem é contar as calorias a cada porção que se coloca na boca? É ficar atrás da última receita da moda? Visitar o cirurgião plástico antes de todas as férias? Sofrer toda vez que vê a atriz na novela das 21h desfilar à beira do mar (e lamentar-se não ter o corpo dela)?

Gente, todo mundo tem alguma parte do corpo que não gosta e parece imperfeita. Não dá pra viver se lamentando por isso. Estar bem é estar saudável. É aceitar-se, amar-se. É ter disposição pra viver e pra fazer viver.