Em defesa de Bonner

entrevista boner
William Bonner está sendo vítima de agressões e xingamentos por fazer bom jornalismo. Sim, o âncora do principal telejornal do Brasil tem sido questionado por aliados e eleitores dos candidatos à presidência da República por cumprir uma das funções mais básicas do jornalismo: questionar.

O Jornal Nacional abriu a rodada de entrevistas com os candidatos ouvindo Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB). E os apresentadores foram contundentes. Fizeram perguntas que colocaram os presidenciáveis em situações, no mínimo, desconfortáveis. No entanto, nenhuma delas estava desprovida de embasamento. Ficou nítido que Bonner e Patrícia Poeta estavam preparados para questionar os candidatos. Mas isso incomodou muita gente. O âncora, principalmente, foi alvo de agressões e xingamentos.

O assunto, que ganhou repercussão inclusive na internet, também apareceu em minhas aulas. Alunos trouxeram depoimentos de familiares e amigos que disseram que os apresentadores do JN estão vendidos ao PT. Algumas pessoas acharam deselegante o tom firme de Bonner e Poeta. Entendem que deveriam ser mais gentis, “generosos” com os candidatos.

Sinceramente, fico assustado com tanta bobagem. Na minha opinião, mostra o tamanho da imaturidade política do país. E o completo desprezo ao bom jornalismo.

Na verdade, historicamente, o Brasil sempre teve um jornalismo pequeno, pobre, acanhado, publicista, vítima de alinhamentos com o poder e/ou com grupos econômicos. O jornalismo no país pouco contribui para o debate democrático. Apresenta-se como imparcial, isento, responsável, porém, geralmente se dobra diante de interesses nem sempre republicanos. Quando o assunto é política, sabe-se que por vezes falta aos jornalistas liberdade para atuar como gostariam. Há uma “regra silenciosa” – que não se ouve, mas sabe-se que existe – de que o melhor é estar “de bem” com todo mundo.

Talvez por isso cause estranhamento que Bonner, no comando do JN, assuma uma postura crítica, firme diante de candidatos à presidência. Talvez também seja nosso desconhecimento da verdadeira prática jornalística. Talvez não estejamos acostumados a questionar o poder.

Não vou discutir aqui a entrevista de Eduardo Campos, vítima de acidente aéreo na quarta-feira, 13. Porém, a participação de Aécio Neves, na terça-feira, 12, é reveladora. Não mostra um Bonner e uma Patrícia dispostos a destruírem a candidatura do tucano. Aponta sim para o exercício justo do jornalismo, que ao longo dos anos ganhou status de mediador entre os fatos e a sociedade. Por isso, Aécio tem sim que explicar as contradições de seu discurso. Como terá que fazer Dilma Rousseff e os demais candidatos.

No horário eleitoral, nos palanques… os candidatos dizem o que querem. O discurso é efeito. E nele a realidade é a que se pode construir no imaginário popular. Aos jornalistas, cabe observar as contradições, problematizá-las e, sempre que possível, colocá-las em evidência. O público precisa conhecer o que está para além da aparência dos presidenciáveis. O marketing político, é claro, fará o possível para apresentar apenas o que é bonito de ver. Entretanto, a escolha do eleitor não deve ser baseada numa imagem.

E, sejamos sinceros, mesmo com toda contundência de Bonner e Poeta, ainda não temos todas as explicações. No caso de Aécio, ele assegura que fará um governo de “previsibilidade” e transparência. Porém, se é de previsibilidade, não deveríamos saber que cortes serão feitos, quais ministérios serão fechados? Apesar da insistência dos jornalistas globais, essa questão ficou aberta, sem resposta. E o sítio da família de Aécio valorizou ou não com o aeroporto? Tudo bem que a propriedade é da família há mais de 100 anos e não há interesse em vendê-la, mas custava responder a pergunta de Bonner? E se a saúde foi modelo em Minas, porém com dinheiro do governo federal, não poderia admitir isso e dizer que a diferença dele foi a eficiência?

Além do mais, ética e eficiência não seriam pressupostos básicos de todo governante? Como isso pode ser prioridade? Falta ao candidato planos para educação, saúde, segurança?

Enfim, o que quero mostrar é simples: William Bonner, ao lado de Poeta, estão apenas fazendo jornalismo. Talvez nossos políticos, e até nossa sociedade, não saibam muito bem o que é isso. Cá com meus botões, porém, fico contente por ver que, aos poucos, a mesma Globo, tão criticada por ser conivente e até partidária em muitos momentos da história, apresenta amadurecimento na prática jornalística e assegura certa liberdade aos seus jornalistas.

A mulher e os estereótipos

“Valente” é a primeira animação da Pixar a trazer uma heroína no papel principal
“Valente” é a primeira animação da Pixar a trazer uma heroína no papel principal

Embora os estudos não consigam provar a existência de uma relação direta entre o que a mídia mostra e o comportamento da sociedade, há vários indícios de que a gente reproduz muito do que passa na telinha, no cinema e até do que se propaga como modelo nas revistas, jornais e internet. Não dá para negar, por exemplo, que a moda surge, primeiro, em imagens midiáticas para depois ganhar as ruas. E não para por aí.

Se a gente pressupõe essa relação, algumas coisas deveriam nos preocupar. Entre elas, a imagem da mulher. E isso desde a infância.

Uma pesquisa realizada pela Universidade de Granada, Espanha, revelou alguns aspectos interessantes das animações e desenhos infantis. Após a investigação de 621 papeis de ambos os sexos, em 163 séries, os estudiosos identificaram que, para cada dois personagens masculinos, há um feminino. E quase sempre aparecem em segundo plano. Elas são as namoradas, as noivas, as mães dos protagonistas ou vilões.

Mais que isso. As mulheres, que raramente são as protagonistas, são retratadas de acordo com estereótipos bem conhecidos. São fúteis, nervosas, estressadas, histéricas, ciumentas, obcecadas pela aparência – querem se mostrar bonitas pra agradar os outros (geralmente, os personagens masculinos ou na competição com outras mulheres).

Muita gente pode olhar para esse retrato e dizer: mas esse é o retrato do que são as mulheres. Eu questionaria: isto é o que elas são ou este é o estereótipo construído delas? Não me parece que mulheres são assim. Há mulheres assim. E se existem mulheres assim, quem pode assegurar que essa é a essência delas? Será que não aprenderam a ser assim?

Parece-me que o conteúdo consumido por nossos filhos está longe de ser inocente. Cá com meus botões, acredito que as animações e desenhos infantis, ao retratarem as mulheres de forma estereotipada, promovem um reforço dessa imagem. E isso logo nos primeiros anos de vida. Tenho a impressão que meninos e meninas crescem sob efeito dessas imagens. Nossas crianças se desenvolvem tendo essas referências: de um lado, a supremacia masculina; de outro, mulheres frágeis, desequilibradas, fúteis, consumistas e reféns da estética. Isso não é nada positivo. Muito menos emancipador. Pais e educadores deveriam pensar um pouco nisso antes de exporem a molecadinha a certos conteúdos televisivos e cinematográficos.

PS- Não abordo aqui as questões envolvendo a música. Mas fica a dica: qual a imagem de mulher retratada pelas músicas que fazem sucesso entre nossas crianças, adolescentes e jovens?

A neutralidade no Jornalismo

jornalismo
Ouvir as diferentes versões de uma mesma história é um dos princípios jornalísticos. A gente chama isso de “entrevistar os dois lados”. Afinal, se você tem alguém que reclama, do outro lado deve haver alguém pra se defender. Numa greve, existem as versões dos empregados e dos patrões. Num acidente, envolvidos e até testemunhas. Na política, situação e oposição… E assim por diante.

Entretanto, há algo nessa dinâmica do jornalismo que pouca gente nota. Quando o assunto carece de uma interpretação, entrevista-se um especialista. Esse expert explica o acontecimento, as implicações do fato. E a visão desse profissional não se questiona.

Por exemplo, quando ocorrem atos de violência nos morros do Rio de Janeiro, moradores são ouvidos, a polícia é ouvida. E, com frequência, um único especialista é convidado para explicar o confronto. Essa pessoa problematiza as questões envolvidas e as interpreta para os ouvintes, telespectadores, leitores etc.

Essa lógica da imprensa funciona basicamente para todos os assuntos. Do meio ambiente à economia. Os lados são ouvidos. E, pra concluir a “reportagem”, também um especialista, que deve interpretar os acontecimentos.

O que pouca gente questiona é a neutralidade desse especialista. Será não há visões diferentes entre pesquisadores do mesmo tema? Será que um expert reúne toda a verdade? Será que um especialista não se posiciona de um determinado lugar, inclusive ideológico? É claro que sim.

A Ciência não é um todo homogêneo. Todos os fenômenos sociais possuem diferentes interpretações. Um mestre, um doutor – ou mesmo pós-doutor – faz suas pesquisas partindo de uma linha teórica. Isso se reflete na forma como analisa os fatos. Por exemplo, um especialista adepto de uma linha teórica mais liberal vai criticar as intervenções no Estado na economia; outro pode entender que a presença do governo interferindo no mercado é uma necessidade para que se reduzam as desigualdades sociais.

A questão, portanto, é bastante complexa. E é complexa porque raramente a gente reclama da imprensa por trazer apenas um especialista (ou uma vertente ideológica) nas explicações de um determinado fato. O Brasil, por exemplo, supostamente vive um momento delicado. Parece não dar conta de controlar o crescimento da inflação e, ao mesmo tempo, não consegue expandir a economia. Entretanto, temos visto na mídia diferentes interpretações dos movimentos econômicos? Tenho impressão que o discurso dominante é de total crítica ao governo. Mas será que não há visões contraditórias? Todos concordam? Não há ninguém com analise de outra maneira? Estaríamos vivendo um momento em que todos pensam igual? Ou será que quem pensa diferente não estaria sendo ouvido?

Um autor americano que respeito, Roberto Darnton, ressalta que:

Os jornais devem ser lidos em busca de informações a respeito de como os acontecimentos eram interpretados pelas pessoas da época, em vez de representarem fontes confiáveis dos acontecimentos em si.

E o motivo é muito simples: o jornal – o jornalismo em si – interpreta a realidade. Não significa que mente, manipula ou pretende aliar o público. Apenas não reproduz a realidade em sua totalidade. Ela faz um recorte. Por isso, decidir nossa vida pelo que sai na imprensa pode ser bastante arriscado.

Artistas descartáveis

fama

Um dos temas mais recorrentes em aula, quando discuto com meus alunos sobre a música contemporânea, é a efemeridade do sucesso. Os anônimos de hoje podem ser celebridades amanhã. As celebridades de hoje podem ser artistas tidos como fracassados amanhã.

Na verdade, não considero um fracasso aqueles que deixam de estar em evidência na mídia; penso que são apenas vítimas de uma lógica cruel. Artistas são produtos. E semelhante à moda que vive momentos – as chamadas tendências da moda -, os produtos da indústria cultural são descartáveis. Permanecem apenas alguns nomes que resistem aos modismos.

Pensava nisto nesta manhã quando vi uma nota no F5, da Folha.

- Após cobrar R$ 120 mil no auge, Naldo agora faz shows por R$ 15 mil

Eu nunca ouvi nada desse funkeiro. O máximo que conheço da voz dele foi por “trombar” com um comercial de uma operadora de celular. Também vi alguns títulos de notas publicadas em sites sobre a carreira dele, e em especial a respeito do casamento com outra celebridade do momento, a Mulher Moranguinho.

Não sei se Naldo é bom ou ruim. Nem estou interessado em saber. Entretanto, quando vira notícia por reduzir o cachê, a mídia inicia o processo de desconstrução da imagem. Repete uma fórmula conhecida: o sucesso ou o fracasso das celebridades vende notícias. Quando parar de vender, o artista sai de vez do cenário midiático – terá cumprido seu ciclo (do anonimato à fama, da fama ao limbo).

É fácil perceber o quanto são descartáveis. Se voltássemos no tempo, e não precisa ir tão longe… cinco anos atrás, notaríamos que muitos daqueles que estavam em destaque, já foram esquecidos. E os sobreviventes geralmente são aqueles que já tinham história e alguns poucos que têm talento de fato ou criaram uma identificação maior com o público, adaptando-se, principalmente, às novas tendências.

Como produtos, os artistas são usados pela indústria. Interessam enquanto geram lucro. Depois, muitos deles praticamente pagam a fim de encontrar uma casa de shows que abra espaço para se apresentarem – ou, no caso de atores, se submetem a fazer qualquer programa de humor, filme de quinta categoria etc para manter viva a carreira. Simplesmente perderam o encanto. E a insistência de alguns deles em sobreviver até parece incomodar. É a cultura do descarte que se repete dia após dia, com a concordância de todos nós, consumidores de “arte”.

Desligado da TV

televisao
Estou sem televisão há mais de 15 dias. Nesse período descobri algumas coisas. Entre elas, que dá pra viver sem a telinha. E o melhor, no meu cantinho, não existe carnaval.

A gente vê a vida passar pelos “olhos” da tevê. Ou da mídia. Quando você desliga o botão, passa a ver o que acontece ao seu lado. E mais… Passa a reparar em você mesmo.

A tevê quase sempre nos anestesia, nos ilude. Achamos que a vida é aquela que desfila na tela. A medida da violência nas cidades, a medida dos problemas econômicos, políticos… e até mesmo da felicidade e do jeito de viver são dadas pelos noticiários, novelas, programas de entretenimento etc.

No meu cantinho, não teve carnaval. Não teve desfile de escola de samba, mulatas dançando, famosos em camarotes. Também não teve barulho, briga, confusão, nem gente embriagada. Não teve, porque no bairro onde moro, o ritmo é dado apenas pelo vai e vem de pessoas que trabalham e daquelas que descansam em virtude do feriado. A festa popular não acontece pra nós.

Sabe, não sou contra a tevê. Na verdade, sou um sujeito de mídia. Jornalista de profissão; professor de Comunicação por paixão. Vivo, respiro os fenômenos midiáticos. Entretanto, desligar-se da telinha faz bem. Faz bem pra gente se encontrar, pra notar quem está do lado, pra identificar as próprias emoções. A vida da gente é diferente da vida que passa tela. Desligados das imagens, temos a chance de viver nosso próprio mundo e descobrir nele o que de fato nos faz bem.

BBB, Veríssimo e a ignorância

bbb

Terça-feira, 14/1, tem estreia na Globo. Pela 14a vez, a emissora carioca vai apresentar o Big Brother Brasil. E, claro, o programa desperta paixões. Gente que gosta e gente que não gosta se posiciona para verbalizar suas opiniões. Alguns, sem ter o que dizer, apropriam-se de argumentos de outros para tecerem suas críticas. E a internet ajuda muito nisso. 

A internet é terra de ninguém. Ambiente próprio para que verdades e mentiras circulem com a mesma autoridade. Gente famosa, conhecida divide espaço com milhares, milhões de anônimos que também ganham status de produtores de conteúdo. Todos podem consumir informações, dar ou compartilhar notícias. Pois é… E também fazem isso pra tratar do BBB. 

A internet é revolucionária. Porém, como pontuei, é terra de ninguém. Pessoas dotadas de inteligência e responsabilidade circulam por aqui ao lado de outras tantas sem nenhum compromisso. Apenas com a ousadia e/ou coragem permitidas pelo anonimato ou por contarem com a precipitação alheia que transforma boatos em verdades absolutas. Na rede, dá para publicar o que quiser. Inclusive muitas bobagens. 

Neste ano, de novo, outra vez… pra falar do BBB, estão ressuscitando um suposto texto de Luís Fernando Veríssimo. Nele, o cronista e escritor simplesmente desconstruía o programa global. Já falei sobre esse texto aqui. Por sinal, esse post nada mais é que uma atualização de algo que escrevi há quatro anos. Entretanto, se resgatam o texto do Veríssimo, que nem é dele, estou no direito de reescrever o meu.

Pois bem… há vários argumentos interessantes no tal artigo. Entretanto, embora não seja especialista em Veríssimo, na época que vi o “artigo” pela primeira vez, estranhei o estilo e, como aprendi a desconfiar de tudo que circula na rede, pesquisei o famigerado texto.

Como supunha, nada prova que seja do Veríssimo verdadeiro, o gaúcho, autor premiado e colunista de grandes jornais. Além disso, quem faz circular o artigo tratou de atualizá-lo, já que uma versão semelhante circula desde os tempos do BBB 10. Ou seja, o texto não é do Veríssimo. Colocaram o nome dele no “artigo” e publicaram na rede. 

Na prática, a situação só reforça minhas crenças que a gente precisa ter um pouco mais de bom senso e desconfiança com o que vê ou com o que é falado na internet. Não é por que um texto vem assinado como do Jabour, do Veríssimo, do Alexandre Garcia ou seja lá quem for que vamos sair por aí afirmando: viu o que fulano escreveu? Reproduzindo algo que pode não passar de mais uma tremenda bobagem.

Ainda há pouco, apontei que há argumentos interessantes nesse texto. Porém, o “artigo” perde autoridade por seu autor simplesmente não ter a capacidade de assiná-lo, dizer quem é. Lamentável.

Portanto, quem se propõe a criticar o BBB, primeiro deve se questionar. Analisar se tem os argumentos certos, se não está apenas “entrando na onda”. Depois, se quer se apropriar de um texto para tratar do programa, necessita reunir as habilidades mínimas necessárias para certificar-se de que os argumentos têm autor conhecido, se o autor é de fato o autor mencionado e se o que está ali escrito é confiável.

O JN não me faz falta

jornalnacional
Teve uma época que a programação da televisão era referência para a programação diária dos brasileiros. A pessoa saia de casa, mas fazia as coisas de tal forma a não perder os programas favoritos. Entre eles, estavam as novelas e o Jornal Nacional. Nas duas últimas décadas, isso começou a mudar. E sobrou até para o principal telejornal brasileiro. Segundo dados recentes do Ibope, o JN teve o pior ano de sua história. A audiência não para de cair.

Faz muito tempo que não vejo o Jornal Nacional. Trabalho à noite e não dá para ver televisão. Entretanto, mesmo quando estou em casa, não sinto falta. O resumo dos fatos trazidos pelo JN não me atrai. Quase tudo já está na internet. Com a vantagem que dá pra selecionar o que quero ver, não tem intervalo comercial e ainda encontro opinião. O telejornal da Globo é sem graça. Apenas noticia, não informa.

Não sei se é assim que se sentem os telespectadores que abandonaram o Jornal Nacional. Entretanto, cá com meus botões, tenho a impressão que muita gente deixou de se sentir dependente da televisão para saber o que está acontecendo no Brasil e no mundo. Tudo está na rede. Além disso, para ver o programa, precisa sentar o bumbum no sofá naquele horário determinado pela emissora. É como se tivesse um compromisso com a TV; tem que fazer parte da agenda diária. E quem tem disposição pra isso hoje? Cada vez menos gente quer ficar refém de horários. Já bastam as obrigações com o trabalho.

No caso do JN, ainda tem o fato de o jornal ter se tornado chato. O modelo envelheceu. E, pra emissora, mudar é arriscar, correr riscos. Basta ver o que aconteceu com a apresentação. A aposta na jornalista Patrícia Poeta, uma cara jovem e simpática, foi extremamente equivocada. Poeta mais parece uma bonequinha que faz caras e bocas diante das câmeras. Desde a estreia dela, a audiência só caiu. Pior, ainda conseguiu deixar o William Bonner completamente insosso. Os apresentadores já não são referência para o público. Tanto faz ser um ou outro apresentador/a na bancada do JN. A gente não sente falta.

Quanto ao que vai acontecer com o principal telejornal do país, não dá para saber. Eu só sei que apenas um milagre me faria voltar a gastar tempo vendo o Jornal Nacional.

Exibicionismo na rede, noticiário e o leitor

rede
Na lista de sites que espio diariamente está o Globo.com. Noto com freqüência que entre as notícias relevantes, também há inúmeras bobagens. Entretanto, parece cada vez mais recorrente as publicações baseadas no exibicionismo virtual de certas “estrelas”. Hoje, entre outras, encontrei:

- Com calça colada, Gracy Barbosa agradece por mais um dia de trabalho

A “notícia” dá conta de uma publicação de Gracyanne Barbosa nas redes sociais. Noutra, Joana Prado aparece pronta para malhar:

- Joana Prado acorda cedo e posta na internet: ‘Já malhei e adorei a Deus

Nas informações do esporte, também existe espaço para o exibicionismo:

- De short minúsculo e saltão, Daniele Hypólito dá bom dia: ‘Bora treinar’

Sempre me questiono sobre a atuação do jornalismo. Entretanto, como sustento para meus alunos, a informação oferecida tem uma referência principal: o gosto do público. O público é voyer, logo tornou-se “normal” o “noticiário” baseado no exibicionismo de “estrelas”. Além disso, brinca-se à vontade com a libido masculina. Funciona!

Quanto aos hábitos de se mostrar na rede, aí só pode ser carência mesmo, necessidade de curtidas e comentários. Sintoma de solidão e falta de afeto.

Quem nunca fez uma grande bobagem na vida?

futuroDifícil, hein? Acho que todo mundo já fez alguma coisa que lhe causa vergonha. Mas a vida é assim. A gente aprende… errando. Recria-se a partir do erro, torna-se uma pessoa melhor (Claro, nem todo mundo evolui. Tem gente que passa a vida cometendo os mesmos erros, infelizmente).

Pensava nisso após ver uma notícia sobre a Xuxa. Um vídeo dela de 1983. Na época, a apresentadora era modelo e namorada de Pelé. No vídeo, ela dança dentro de uma espécie de taça trajando um biquíni. A filmagem ocorreu em Minas, no carnaval.

No passado, Xuxa também fez um filme com cenas eróticas. Quase um pornô. E contracenava com um adolescente.

A apresentadora já brigou muito na Justiça para recolher o filme. Sumir com todas as imagens. Ela nunca fala sobre o assunto. Agora, eis que surge esse vídeo com cerca de 5 minutos. As imagens devem incomodá-la.

Não sei se Xuxa se arrepende do que fez no passado. Dessa exibição pública em Minas. Nem do filme “Amor estranho amor”. Mas é certo que, hoje, ela se esforça para esconder parte do seu passado. É provável que, pela imagem midiática que construiu, gostaria de apagar esses fatos. Não dá.

Na vida da gente também é assim. Tem coisas que a gente gostaria de esquecer. Tem coisas que nos envergonham. Tem outras que, se pudéssemos, reescreveríamos. Pode ser um namoro desastrado, uma paixão imbecil… Quem sabe, algumas bebedeiras, comportamentos vulgares… Não importa. É bem provável que todos nós tenhamos algumas atitudes que não nos orgulham nenhum pouco.

Não sei se a Xuxa cresceu. Não sei se o desejo de apagar o passado é fruto de uma preocupação com a imagem midiática ou resultado de um genuíno arrependimento. Entretanto, a vida é cíclica. E a gente muda, felizmente. Tem sempre a oportunidade de crescer. Apagar o passado não dá. Mas é possível escrever o futuro. E este começa com as escolhas que fazemos hoje. Aprender com os erros cometidos pode ser o início de um outro momento que poderá nos orgulhar.

A TV que a gente não deveria ver

televisao

Um dos temas mais controversos envolvendo a mídia é o que trata da regulamentação dos veículos de comunicação. Confusão comum é entendê-la como censura. Ou seja, um mecanismo que limite a liberdade das emissoras de rádio e televisão, principalmente.

A questão sempre volta à tona quando gente, como o governador do Rio Grande do Sul Tarso Genro, cita aspectos da Constituição Brasileira e faz questionamentos do tipo:

Se esses artigos fossem aplicados de maneira séria, provavelmente mais de 80% dos programas que estão nas rádios e principalmente nas televisões teriam de sair do ar.

Cá com meus botões, não entendo que uma regulamentação seja necessariamente censura. Ela pode conter elementos que permitam a censura (e isso sim é preciso evitar). Mas não significa que a regulação da mídia impeça a liberdade de imprensa ou de expressão.

E Tarso Genro tem razão quando aponta que muita coisa poderia sair do ar.

São programas que ou transformam a mercadoria em notícia ideologizada ou promovem a violência, o sexismo e a discriminação.

O princípio de que o público deve escolher o que assistir/ouvir é muito bonito na teoria. Na prática, funciona pouco. Infelizmente, por falhas na educação, as pessoas não sabem selecionar. E embora tenham o controle nas mãos, optam pelo lixo. Como consequência, a programação piora cada vez mais.

Acho normal que televisão e rádio ofereçam diversão ao público. Mas qual a qualidade da diversão? Violência e sexo norteiam boa parte dos produtos midiáticos. E as notícias raramente contribuem para a formação da opinião pública (pelo contrário, distorcem a visão dos fatos). A gente assiste/ouve e fica com uma pergunta: “e daí?”. As notícias geralmente mostram um problema, mas raramente abrem possibilidades de reflexão sobre o assunto – e nunca apontam soluções. Na verdade, a notícia só publiciza o drama, mas não transforma, não provoca mudanças.

E existem outros problemas. Veja o caso dos domingos na TV aberta. À tarde, não há opções. Só existem programas de auditório. Escolher entre um e outro apresentador não é garantir diversidade. Oferecer opções é ter num canal programa de auditório; noutro, filme; no terceiro, talk-show; no quarto, programação infantil… E isso não existe no país. Quando num canal tem telejornal, nos demais quase sempre encontramos algo parecido. Se passa novela na Globo, passa na Record.

As temáticas abordadas por vários programas desrespeitam o público. “Vende-se” o sexo fácil, o desrespeito nos relacionamentos, a infidelidade, o desapego, o egoísmo… Associa-se felicidade ao consumo. Os modelos de beleza midiático atropelam a realidade e apresentam um ideal de corpo inatingível – como consequência, milhares de mulheres vivem frustradas e não gostam do que vêem no espelho. Crianças aprendem desde cedo que comprar é o que abre a porta do prazer; e muito novas são despertadas para o sexo, tornam-se vaidosas e, as meninas principalmente, adotam saltos, maquiagem e, na adolescência, já frequentam as salas de cirurgia plástica.

A regulamentação dos veículos de comunicação poderia qualificar a programação das emissoras. Embora pareça uma ação que desrespeita o direito do cidadão, entendo que somos obrigados a reconhecer que o público brasileiro ainda não dá conta de decidir por si só o que ver/ouvir. O que preocupa, porém, num quadro de regulação é quem vai julgar o conteúdo e quais serão os critérios. Afinal, deixar isso nas mãos do governo não me parece nenhum pouco recomendável. Mas este é assunto para um outro post.