Deu o que falar a capa da última Época. Michel Teló na primeira página de uma das principais revistas do país incomodou muita gente. Um seguidor do meu twitter chegou a dizer que a capa o fez desistir de assinar a publicação.
Quem não gosta do sertanejo e seu “ai, se eu te pego” ficou indignado com o fato de a reportagem classificar o sucesso de Michel como reflexo ou tradução da cultura popular brasileira.
Diante da polêmica, uma amiga me mandou a sugestão: “escreve sobre isso, Ronaldo”. Ela sabe que o rabugento aqui adora discutir questões polêmicas. Porém, optei por esperar a Época disponibilizar integralmente o conteúdo na internet. Não iria comprar a revista. Nem encontrei alguém com a edição para me emprestar. E falar sem ver a reportagem seria uma agressão a todos os valores que defendo: só tratar de um assunto quando temos argumentos minimamente coerentes. Cair no lugar comum não contribui, não produz reflexão.
É verdade que ninguém está muito a fim de parar, pensar… refletir. O negócio é sair despejando bobagens. Quando propomos a necessidade de ver a história sob um outro prisma ainda corremos o risco de não sermos entendidos. E isso não significa que estou aqui para produzir uma verdade. Apenas apresentar uma opinião.
Mas… vamos em frente.
O que dizer do Teló na capa da primeira Época de 2012? Perfeito. Qual o problema? Vamos deixar de ser hipócritas, puritanos, conservadores, intelectualistas. É só uma capa. Por que a revista não pode estampar o cara que estourou no mundo da música em 2011? Por que a música dele é vazia, pobre? Vazios e pobres somos nós que consumimos esse tipo de coisa. O Michel Teló e sua música fazem sucesso porque nós gostamos, ouvimos, compramos – ou baixamos – seus CD’s e ainda damos audiência aos programas em que se apresenta.
Não estou questionando o talento do sertanejo. Se o público fosse outro, talvez ele interpretasse outras músicas. Afinal, como a própria reportagem da Época mostra, Teló colocou “Ai, se eu te pego” no último disco porque percebeu, ao ouvir uma moça de sua equipe cantarolando “nossa, nossa, assim você me mata”, que era a música que faltava para “grudar” no ouvido das pessoas. Ou seja, está provado que tem exata percepção do que o povo quer ouvir. Isso se chama sintonia. Ele só está cantando o que as pessoas querem. No mundo da indústria cultural, mantém-se no topo – faz sucesso – quem produz o tipo de “arte” que o público deseja.
Voltando para a revista… A Época, como toda imprensa, é um veículo de comunicação de massa (massa, ok?). É, antes de tudo, uma empresa. E empresas sobrevivem do lucro. O lucro é garantido – semelhante ao sucesso do artista – pelo público (quem consome a revista, jornal, programa de tevê etc). Se o Michel Teló é o nome mais badalado do momento, por que não pode estar na capa?
Alguém aí acha que as férias da Dilma renderiam capa? Vamos deixar de ser ingênuos. Está todo mundo em clima de festa. Férias, minha gente! Uma capa séria, respeitável – como alguns gostariam – passaria batido. Ninguém comentaria.
Por sinal, diga-me… E com toda sinceridade do mundo:
- Qual foi a última capa da Época que você ouviu as pessoas comentando?
Eu não lembro. E olha que gosto da revista. Não recordo nem qual foi a da última semana (teria que olhar no site).
Ao publicar o Michel Teló, a Editora Globo acertou. Criou o maior buchicho. Era tudo que a revista precisava. Começar o ano com uma bela polêmica (alguém aí ouviu falar da capa da Veja esta semana?). Os meios de comunicação sobrevivem do “barulho” que fazem. Precisam ser lembrados, estar na boca do povo.
Você pode até dizer:
- Mas não combina com uma revista elitizada.
Talvez, eu respondo. Meses atrás, a Veja trouxe uma pesquisa mostrando que esse tipo de música feito por gente como o Teló agrada todos os públicos. Inclusive os das classes A e B.
Ah… detalhe, a Época fez jornalismo. Uma reportagem perfil. Não rompeu com a ética, com nenhum valor da profissão. Revistas semanais também trazem entretenimento.
Eu não gosto da música dele. Quem sabe, você também. Os jornalista que escreveram a reportagem não precisam gostar. Entretanto, não é motivo suficiente para deixar de ousar numa edição de janeiro da revista – quando não tem nada muito significativo acontecendo e o próprio leitor está a fim de amenidades.
E, por fim, a última crítica que li/ouvi… O fato de a revista sustentar que Michel Teló traduz a cultura popular. Vamos lembrar o que é cultura? Cultura é o conjunto de valores de um povo. Cultura não é ser culto. O que somos, o que gostamos, nossas preferências revelam qual é a nossa cultura.
Partindo desse pressuposto, responda-me:
- A letra de “Ai, se eu te pego” não traduz os valores atuais?
Sexo, sexo, sexo. Todo mundo anda louco para “pegar” alguém. Baladas, agito, diversão… é o que todo mundo deseja. E, no caso do sertanejo, ele traduz tudo isso de maneira divertida. É picante, mas não é vulgar. Também combina um estilo (estética, moda) jovem, despojado, alegre… A cara de um Brasil que, embora não seja de todos nós, é sim da maioria.
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