A mídia errou? – II

Num post anterior, fiz algumas considerações sobre as críticas recebidas pela mídia, após o trágico desfecho do sequestro de Santo André. Neste, quero ampliar um pouco mais a discussão. São apenas verbalizações do que penso; não significa uma verdade a respeito da imprensa e do comportamento de jornalistas e veículos de comunicação.

Já disse que a “danada da audiência” sempre afetará negativamente o tratamento de uma notícia. Claro que o problema não está na audiência em si, mas no sentimento que move sua busca: a competição. Os donos dos veículos querem a audiência porque se traduz em maior captação de patrocínios, apoios comerciais; ou seja, faturamento. Jornalistas querem audiência porque buscam prestígio, respeito, um nome que faça diferença no meio. E, por isso, ambos – veículos e jornalistas – se mostram dispostos a vencer essa guerra. Como o topo da audiência é de quem arrisca mais, ousa mais na busca pelo diferente, sempre existe a chance de falhar. Não significa que jogam fora a cartilha da ética; apenas se tenta ir aos limites da ética na luta por fazer a “melhor” cobertura.

Para não errar
Cá com meus botões, penso que, por mais que haja um cuidado na cobertura de fatos de risco – como esse sequestro de Santo André -, a imprensa poderá ter influência nos rumos do acontecimento e em seu desfecho. É uma coisa natural. É muita gente envolvida, vários veículos de comunicação tratando de um mesmo assunto e, do outro lado, a pressão pública por novidades. Junto com tudo isso, o(s) bandido(s) que acompanha(m) todos os movimentos da polícia pelo noticiário.

Por isso, creio que a melhor estratégia ainda é o silêncio. Por mais que o público tenha direito à informação, defendo que ela se torne pública apenas após o desfecho do caso. Penso que jornalistas devem acompanhar as negociações, manter uma cobertura ativa dos fatos, mas torná-los notícias apenas quando nenhum inocente correr risco de vida. Afinal, pra mim, a vida humana está acima de qualquer outro direito.

Haveria chance de vazamento de algumas informações? Claro que sim. Sempre que tratamos com pessoas, lidamos com sujeitos complexos, contraditórios, movidos por interesses diversos. Ainda assim, creio que este deveria ser o código de conduta jornalística: não interferir nos fatos. Alguém pode até argumentar: “Narrar os acontecimentos não é interferir neles”. Num caso como o mencionado, discordo. É impossível garantir a não influência das notícias sobre os envolvidos. Ninguém pode negar que o agir da polícia e do(s) bandido(s) é pautado pelo movimento de câmeras, microfones e bloco de notas dos jornalistas.

A cobertura de acontecimentos dessa natureza, sem divulgação antes do desfecho, garante ao menos a não interferência na ação do(s) criminoso(s). E garante à polícia um certo espaço para agir com tranquilidade, ainda que saiba estar sendo vigiada.

3 comentários em “A mídia errou? – II

  1. Parabéns Ronaldo!
    Você está fazendo o que a mídia em geral, deveria fazer, ou seja, uma auto-crítica, auto-análise do que rolou nestes dias. Afinal, profissionais de todas as áreas erram e neste caso a mídia, principalmente a televisiva, errou feio, atrapalhou, inibiu a polícia, tomou horas do sequestrador ao telefone, não permitindo que a polícia fizesse seu trabalho, deu espaço para que ele se promovesse e mostrasse que era o que mandava na situação, falou com ele de igual, ou seja, num papo de “gangster periferia” e o mais infeliz de tudo que foi mostrar a todo custo, tudo pelo Ibope, a miséria e desgraça humana que culminou na morte de uma jovem.

    Acho perfeita a sua colocação, pois demonstra o carinho e cuidado que faz no seu trabalho. Continue assim, não se venda, nem se corrompa como tenho visto em jornalistas como o próprio Brito Junior da Record, que não mais assisto seu programa, já que virou o dono da verdade, usando as imagens, dando notícias desencontradas e fazendo de um programa, num horário em que deveria a televisão estar mostrando algo que fosse condizente com a população que a assiste, fica explorando temas pesados, violentos e que devem ser levados em horário mais tarde. Esquecem como isso afeta os pequeninos, jovens e até mesmo pessoas idosas, como minha mãe, que acabam sofrendo e vendo um país sem controle, sem esperanças!

    abraço carioca

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  2. Nossa como é bom encontrar pessoas sérias e preocupada com o bem comum,que tem coragem em expor suas idéias mesmo que isso possa provocar insatisfações em seu próprio meio, pessoas como vc Ronaldo faz falta no comando de programas televisivos, que tem o poder de ditar regras sociais, eticas, morais, políticas, modas, manipular enfim opiniões; a mídia há muito tempo não desempenha a função exigida constitucionamenlmente que é a “social”, está preocupada apenas a comercializar fatos, notícias, vender produtos,ou melhor angariar audiência a qualquer custo, mesmo que isso custe a vida de um ser humano, como no caso do sequestro em Sto André, que sem medo de errar a mídia influenciou no desfecho trágico, claro cumulado com as falhas da polícia; Vc está de Parabéns, e eu gostaria de ver vc comandar algum noticiário deste país.

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