A gentileza que nos falta

Gosto demais dos textos da jornalista Eliane Brum. Embora seja necessário gastar tempo para ler o que ela escreve, vale a pena cada palavra. Nesta semana, a coluna dela na Época trata de algo que anda em falta, a gentileza. Falta-nos disposição para sermos gentis. Ocupados demais, estamos sempre mau humorados. Entretanto, a gentileza que nos falta sentimos sua ausência nos outros. Às vezes, em pequenas coisas. Mas, como diz Brum:

Até é possível reivindicar boa educação – embora seja cada vez mais difícil. Mas é impossível exigir gentileza.

A falta de gentileza parece ter relação com algo que já discuti aqui, nossa disposição à intolerância. Não é difícil notar que as pessoas pouco praticam a tolerância. Sintoma do individualismo, que também rouba do homem sua capacidade de ser gentil.

E, por incrível que pareça, ainda que possamos racionalizar e considerar naturais tais sintomas da sociedade pós-moderna, a ausência de determinados comportamentos pode ser sentida, pois nossa humanidade reclama por bondade.

Se cada um de nós fizer uma reconstituição mental do nosso dia, hoje mesmo, vai perceber que o pior dele foi causado porque não foram gentis conosco nem fomos gentis com os outros. Desde o bom dia que faltou, o por favor que não foi dito, a buzina desnecessária no trânsito, a cara fechada, o sorriso que economizamos, a ajuda que poderíamos ter dado e não demos, ou ainda a que não recebemos, o elogio que não veio, a crítica que deveria ter sido feita para somar, mas foi programada para massacrar, o veneno que escorreu da nossa boca e da dos outros. Uma soma de pequenos e desnecessários gastos de energia que só serviram para nos intoxicar.

Eliane Brum continua:

Hoje, tratar mal as pessoas, marchar pelos corredores, fechar a cara, não dar bom dia e dizer coisas duras sem nenhum cuidado parece ser um atributo dos poderosos. Quase uma virtude.
Lamentável, não?

Talvez, para concluir, seja necessário lembrar o que é ser gentil. Afinal, se já não mais encontramos gentileza, é importante recordar.

Gentileza é o exercício cotidiano de vestir a pele do outro. É cuidar não de alguém, mas de qualquer um. Mesmo que ele não seja nosso parente, mesmo que seja um estranho. Cuidar por nada. Sem precisar de motivo. Cuidar por cuidar. […] O resgate desta gratuidade, de algo que é dado sem esperar nada em troca, é o que faz nosso mundo estremecer.

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2 comentários em “A gentileza que nos falta

  1. Oi Ronaldo…
    A essa falta de gentileza eu chamo de deselegância nas relações…e tenho pensando em quanto essa falta de elegância tem influenciado no sofrimento psíquico de todos nós, que estamos na multidão mas estamos todos sós e podemos ser atropelados a qualquer momento.Em nome de quê?Ainda vou escrever um livro sobre esse assunto…

  2. a essa falta de gentileza eu chamo de deselegância nas relações…. estamos todos sós na multidão… a qualquer momento podemos ser atropelados…em nome de quê?
    ainda vou escrever um livro sobre o assunto

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