Educação sexual, religião, fé

O texto abaixo foi escrito sexta-feira. Mas, construído de um só “fôlego”, não foi conclusivo. Na verdade, todo texto é um “gesto inacabado“. Ainda assim, mudei algumas coisas e volto a publicá-lo.

Talvez o título não seja o mais apropriado. Poderia inclusive ser muito mais instigante, polêmico. Afinal, o que não falta é confusão quando se mistura sexo e religião; sexo e fé. Sim, vira uma confusão mesmo.

Mas vamos em frente… No Questão de Classe da última quinta-feira falamos sobre educação sexual. Já tratei disso num post anterior. Mas não refleti sobre alguns aspectos que foram tratados ao longo do programa.

Nosso convidado, o doutor em Psicologia Daniel de Freitas Barbosa, contou uma história lamentável. Em recente palestra numa escola, foi interrompido por um pai. Não era um pai curioso. Ele não tinha uma pergunta a fazer. Aquele homem levantou, pegou a Bíblia, apontou o livro sagrado e resumiu:

– Meus filhos não precisam de educação sexual. Eles encontram na Bíblia tudo que precisam saber.

Eu concordo que a Bíblia é o mais importante livro da história da humanidade. Creio em sua inspiração divina. Contudo, não posso admitir que ainda existam pessoas com tamanha pobreza de espírito.

A Bíblia fala sobre sexo? Sim. Mas naquela época existiam pulseiras de silicone sendo usadas por crianças e adolescentes numa “brincadeira” sexual? É obvio que não. O mundo é outro. As atitudes, os comportamentos são outros.

A sociedade daquela época tratava o sexo na perspectiva reprodutora. Pouco se falava ou pensava em prazer. Embora a Bíblia em nenhum momento condene o prazer sexual, o comportamento do povo antigo não privilegiava a satisfação na intimidade do casal. O prazer feminino, por exemplo, era simplesmente ignorado. Na verdade, a mulher era pouco respeitada. Ela era objeto reprodutor, objeto de prazer do homem. Estava ali para servir ao homem.

Com o desenvolvimento humano, hoje se estudam os mecanismos do prazer – masculino e feminino. Ambos, homem e mulher, têm direito de viverem intensamente a satisfação do sexo. E elas esperam isto. Querem o mesmo direito que durante anos a sociedade, a família, os maridos e também a religião lhes roubou.

Agora, como alguém pode achar que, por crer na Bíblia, não precisa aprender mais nada? Será que o fato de ter uma religião, uma fé me tira a responsabilidade, o dever de me preocupar com o prazer da parceira(o)?

E mais, será que apenas por haver uma doutrina que prega a castidade, nossos adolescentes e jovens não devem ser orientados sobre a sexualidade, sobre sexo? Será que tudo se resume em dizer: “não pode antes do casamento”?

Ainda que se preserve a castidade por princípio, nossos adolescentes e jovens devem aprender sobre o assunto. Os locais mais apropriados são o lar e a escola. Esses ambientes devem favorecer o diálogo amplo, sem preconceitos, livre de tabus. A religião não pode servir de desculpa para não falar sobre o assunto. Pais e educadores que não estão abertos para tratar de sexo com as crianças, adolescentes e jovens provavelmente são pessoas mal resolvidas e que sequer dão conta da própria sexualidade. E isso pode até ter origem na religião, mas nunca em Deus. O divino não é responsável pela ignorância humana.

Ignorar os desejos é silenciar a própria natureza. E proibir sem esclarecer, ou simplesmente se calar, é se omitir diante da realidade. É permitir que a rua eduque. E na rua ninguém aprende a ter uma vida sexual saudável e feliz.

Um comentário em “Educação sexual, religião, fé

  1. Meu caro,

    É fato que a sociedade evoluiu a um ponto de não só reivindicar esse direito a ela negado pelo seculos de sociedade, porém, quando você vê um pai falar que a Bíblia por si só é capaz de ajudar eu concordo plenamente e creio que sua limitação bíblica possa ser a penumbra de seu entendimento sobre o que o pai quis dizer ou disse.

    Muito pelo contrario do que você afirmou acima, a Bíblia aborda sim conteúdos dos gêneros que você listou não tratar, o próprio Cristo tratou a mulher com o respeito que lhe era negado e vemos os apóstolos fazendo o mesmo nas cartas que sucedem os 4 evangelhos.

    Paulo fala sobre o homem amar sua esposa e não lhe negar o prazer sendo pecado tanto homem e mulher o fazer sem estarem em comum acordo.

    Deus criou uma auxiliadora ao homem, alguém que lhe fosse idônea “a mulher” não colocando-a em nenhum momento inferior ao homem apenas delegando-a o papel de ser sujeita a este no casamento.

    Jesus falou sobre não fazer qualquer tipo de mal a nenhum dos seus pequeninos “a saber crianças” ai contextualiza-se qualquer mal: agressão física, psicológica, sexual…

    Sem contar que a Bíblia ensina sobre a castidade para o casamento e a fidelidade no casamento como formas de evitarmos patologias sociais como: Adultério, divórcios, DST’s, paixões…

    Deus oriente o pai da criança passá-la não só os ensinamentos que o pai aprendeu, mas principalmente passar a identidade e destino do filho como forma de abençoá-los a serem prósperos, homem ou mulher conforme seu sexo, maridos que honrem as esposas e vice versa, pais que amam e educam os filhos.

    O que acontece hoje é que se acha mais conveniente viver conforme os psicólogos ditam a sociedade, conforme lideres ou celebridades ensinam a viver, conforme o capitalismo que faz com que a busca por $ seja prioridade, fazendo com que o papel de educar, amar, cuidar, respeitar sai do meio da família e passe a ser exercido pela sociedade que não tem nenhum um pouco de compromisso com esse papel.

    Assim como Licenciado em Estudos Sociais, Graduando em Secretariado Executivo, Servidor publico e Cristão não estou alienado, mas lucidamente vejo que se a sociedade hoje voltasse a fazer seu papel, a começar na célula da sociedade a “família” como a Bíblia orienta que seja feito problemas sociais gerados pelo desamor, desrespeito não existiriam e o que essa pai deve ter afirmado e te escandalizou foi simplesmente isso “eu faço o meu papel de pai e ensino ao meu filho como se preparar sexualmente conforme a Bíblia me oriente a prepara-lo”

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