Palavras traduzem nossas emoções?

Palavras. Elas são poderosas. Permitem que alteremos o meio em que estamos, exteriorizando o que é do mundo interior. Expressam nossas vontades, desejos, angústias, anseios. Refletem nossa alma. São mais que instrumentos para nos comunicarmos. Afinal, pensamos por meio de palavras. Mas teriam a capacidade de traduzir todas as nossas sensações, nossos sentimentos?

Um pensador russo, M. Bakhtin, apontou que a palavra é o modo mais puro e sensível da relação social. Também disse que preenche qualquer espécie de função ideológica: estética, científica, moral, religiosa. Entretanto, ressaltou que nem todos os fenômenos podem ser inteiramente substituídos por palavras.

Amo as palavras. Não tenho o talento de um João Ubaldo Ribeiro, com todo seu cuidado e esmero na escolha de cada uma delas para compor seus textos. Estou longe, muito longe dele. Porém, sinto-me encantado com seu poder mágico de sugerir o que vai no coração. Quando bem escolhidas, comovem, tocam. Também são capazes de polemizar, convencer, calar. É por isso que Bakhtin ressalta: a palavra é um signo neutro. Em qualquer contexto, servimo-nos delas para nos expressarmos.

Bem, não quero aqui desfilar argumentos da lingüística, da semiologia. Não é esta a intenção. Meu texto é apenas a expressão de uma vontade de pensar a palavra como esse instrumento que nos faz compreendidos pelo outro. Mas, mesmo combinadas e recombinadas, nem sempre traduzem o que sentimos.

Por exemplo, como tratar do amor que uma mãe tem por seu filho? Teriam o poder de revelar tamanho sentimento? Como alguém apaixonado expressa a emoção de estar ao lado da pessoa amada? Como falar da saudade que aperta, que machuca e faz chorar? Como expressar a sensação de um abraço, que acalma, conforta e nos faz perder a noção de tempo e lugar? Como, depois de seis meses repetindo todos os dias “eu te amo”, garantir que a frase expresse com a mesma força tamanho sentimento?

Nossas emoções são maiores que as palavras. Elas sugerem, mas não refletem. Falar das coisas do coração não é o mesmo que pedir: “tire o copo da mesa, por favor” ou “você poderia me dizer quanto está custando essa televisão?”. Não é simples assim. Por isso, quando tratamos de coisas abstratas o universo da linguagem pode conspirar contra ou a nosso favor.

As palavras, depois de ditas ou escritas, passam a ter vida própria. Já não nos pertencem. São do mundo do exterior, pertencem ao outro – ao leitor ou ao ouvinte. Por isso, ganham novos sentidos. Muitas vezes, diferentes demais daquilo que desejávamos. Não dá para controlar.

Esta é uma das riquezas desse signo. Elas são experimentadas de acordo com nossas vivências. Sentimos cada uma delas de uma forma. Isto é mágico. Por um lado, podemos concentrar todos os nossos desejos na composição das frases mais lindas e tocarmos alguém; por outro, nossa poesia pode simplesmente ser ignorada.

Porém, essa magia também guarda perigos. Mais que deixar de alcançar nossos objetivos, um enunciado é passível de ser compreendido de maneira distorcida. Não raras vezes, alguém se chateia com algo que falamos. Muitas vezes, a intenção era dizer uma coisa, mas o outro entendeu diferente. Brigas acontecem, mágoas ficam guardadas no peito. Pior é que, em algumas situações, somos incapazes de reconhecer que não somos donos do discurso. E que a fala ganha sentidos no outro. É o ouvinte, leitor que dá o significado.

A compreensão do encanto das palavras, sua incompletude na tradução de nossas emoções, a autonomia dos sentidos são aspectos fundamentais e transformadores, inclusive nas relações humanas. Tornar-nos-íamos mais compreensivos com o outro se pudéssemos perceber que a vida que se expressa em palavras não é a mesma que se passa no coração.

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3 comentários em “Palavras traduzem nossas emoções?

  1. Bakhtin não me traz boas lembranças, enfim. Hehehehe. Mas, realmente a palavra depois de proferida, ela tem vida própria e não adianta nos martirizar por alguma incompreensão, temos que ter discernimento e calma para tentar reexplicar com outras palavras e se ainda assim, não houver entendimento, paciência! E o amor é um sentimento único e não há adjetivos que possam representá-lo como um abraço, um carinho, uma lágrima, um sorriso. O amor vai além de qualquer letra ou som, ele é a força que move o universo!

  2. Não sou muito fã do querido Bakhtin (ainda tenho pesadelo com ele rsrs)…
    Porém concordo que a palavra seja neutra e capaz de se moldar ao contexto, mas para que ela transmita realmente o sentimento do individuo ela precisa ser bem escolhida para que não aconteça ruídos na sua transmissão. A mesma palavra pode ganhar significados diferentes de individuo p/ individuo de acordo com sua formação ideológica, emocional, social….
    É por isso que o amor não é um sentimento que pode ser medido, classificado e nem explicado em palavras pois ele muda de característica conforme a pessoa e a situação vivida por ela.
    Quem me dera poder escolher bem as palavras para organizar a minha mente e coração em conversas ou pedaços de papel…

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