A gente pergunta, mas não quer a resposta

Fui buscar um copo de água e encontrei uma colega no corredor. Ela saia do elevador, apressada. Tão logo me viu, deu um sorriso e perguntou: 

– Tudo bem? 
– Tudo bem, e com você – respondi. 

Ela seguiu adiante. Fiquei ali na cozinha e recordei de um texto que escrevi não faz muito tempo. Nele, falava sobre esse hábito educado, gentil que temos de, ao encontrarmos uma pessoa, dizermos: "tudo bem?". 

Nos meus pensamentos, fiquei elaborando… E se eu dissesse: "não estou bem"? Como seria a reação dela? Será que iria parar para falar comigo? 

Claro, eu não faria isso. Primeiro, porque não teria razão para dizer que não estou bem. Segundo, porque, ainda que não estivesse bem, sei que é só um jeito gentil de cumprimentar as pessoas. Qualquer pessoa que tenha um mínimo de bom senso, ainda que esteja mal, não vai verbalizar isso no corredor, no ônibus, ao chegar na empresa, ao encontrar alguém no banco etc etc. 

Ainda assim, é impossível não achar graça de nossos hábitos. A gente pergunta pra não saber. Perguntamos, mas não queremos ouvir. Fazemos isso até de forma inconsciente, mas fazemos. O único problema é que de vez em quando alguns levam a sério nossa pergunta e resolvem contar todos os problemas, mesmo quando você não está nenhum pouco disposto a ouvir. Mas, afinal, quem mandou perguntar? 
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