Para construir um ano bom

Ando numa fase estranha… Frequentemente estou fuçando em coisas que já escrevi, recordando velhas reflexões. Nesta época do ano, talvez um pouco mais. Fiz isto na véspera do Natal; repeti hoje. Concluí que meu jeito de pensar não mudou muito. Claro, sempre a gente reformula coisas, revê antigas teses e observa que deu um passo adiante. E isto é maravilhoso. Afinal, acredito que quem se orgulha de sempre dizer as mesmas coisas, ter eternamente as mesmas posições, na verdade só está provando que parou no tempo. Estacionou.

Mas esta introdução é só pra começar um texto novo, falando da passagem de mais um ano. Curiosamente, uma coisa nunca muda: meu descontrole do texto. Sempre começo com uma proposta, mas me perco em cada uma das frases. Elas vão surgindo, ganhando vida própria. O que era pra ser, deixa de ser. Às vezes, simplesmente produzo algo completamente diferente do que me propunha a escrever. É mais ou menos o que está acontecendo agora. A ideia era só falar do poder simbólico do início de um novo ano. Parece-me que essa proposta já foi silenciada por algo que sequer havia pensado discutir.

Então, como uma coisa se sobrepôs a outra, uso este último parágrafo escrito em 2010 pra desejar a todos os amigos e leitores um ano novo especial, iluminado, produtivo. É verdade que amanhã só será mais um dia. Um dia que nasce junto com o início de 2011. Também é verdade que, de alguma forma, só trocamos o calendário. Nossos problemas não acabam à meia-noite do dia 31; as tristezas não se dissipam. O que carregamos de ruim ao longo deste ano ainda estará com a gente quando secarmos a última gota do champagne.

Entretanto, pode haver esperança de um novo ano com uma nova vida. A decisão é nossa. Se decidirmos que vamos agir de uma maneira diferente, escolhermos construir ao invés de destruir, amar no lugar de odiar, enfrentar os problemas em vez de os jogarmos para debaixo do tapete, elogiar ainda que o primeiro desejo seja de criticar, calar quando o desejável seria gritar… Se estas forem algumas de nossas atitudes, construiremos sim um ano bom; mais que um novo ano, uma nova vida.

PS- Cheguei em pensar em mudar o terceiro parágrafo, mas como estava dizendo que o texto ganha vida própria, optei por não tirar de lá o que era minha proposta: escrever ali meu último parágrafo.

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Nossa visão estereotipada de felicidade

Estamos chegando ao final de mais um ano e é impossível não se questionar: valeu a pena? Fui feliz?

Enquanto tento desenvolver este texto, ouço a reapresentação de uma das entrevistas que fiz no Questão de Classe. Nela, falávamos sobre a eterna busca pela felicidade. A primeira coisa que pensava acompanhando de novo o papo com a psicóloga Isla Gonçalves é: será que sabemos o que é felicidade?

De alguma forma, em função de tudo que a mídia nos apresenta, temos uma visão estereotipada da felicidade. A gente entende o ser feliz como resultado de conquistas. Transferimos felicidade para o ter coisas ou até pessoas. É feliz quem tem dinheiro, quem viaja, quem tem o melhor carro, a casa dos sonhos, a mulher mais bonita, tem vida sexual agitada, veste as melhores roupas etc etc.

Embora não seja simples definir a felicidade – e nem tenha a pretensão de fazê-lo -, sempre penso num estado de espírito em que exista paz interior, sensação de completude. Acontece que, nos dias em que vivemos, são experiências quase impossíveis. Portanto, ser feliz ou estar feliz parece-me resultado de uma vida para além dos prazeres – ainda que estes sejam importantes e necessários.

Os opostos se atraem?

Claro. Mas os semelhantes, também. Agora se a pergunta for "opostos podem dar certo?", a reposta seria: "talvez". Conversava sobre isto com uma amiga. Falávamos das diferenças de personalidade, dos gostos e de hábitos.

A ideia de que os opostos se completam funciona em alguns aspectos. Por exemplo, dificilmente vai dar certo uma relação entre duas pessoas ansiosas. Como também não vai ter sintonia um casal em que ambos ficam nervosos facilmente. Sempre é preciso ter o equilíbrio. Se um é econômico demais, é bom que o outro seja um pouco mais liberal – e o inverso também.

Entretanto, como conciliar diferenças do tipo: um adora sair, curtir lugares movimentados e o outro prefere a discrição, espaços reservados? Ou, um ama expor todos os problemas pros amigos, amigas, conta tudo; o outro tem sua vida privada num cofre fechado a "sete chaves"? Vai ter conflito.

Hábitos, gostos e comportamentos podem ser determinantes num relacionamento. Para o bem ou para o mal. Acredito que uma boa convivência se constrói através de concessões. Porém, ninguém pode se anular a ponto de abrir mão de sua própria personalidade. Se isto acontecer, a pessoa morre aos poucos. Por outro lado, se as diferenças forem significativas, também não há chance de serem felizes.

Se o desejo é ter uma relação duradoura, o melhor é investir em alguém que viva e faça coisas que admira, gosta e também compartilha.

Foto da calcinha e o fim da privacidade

Vi há pouco uma notícia curiosa: 

A informação está um pouco confusa. Não dá pra entender muito bem o que aconteceu. Entretanto, lembrei de outras discussões que fiz por aqui: o fim de nossa privacidade. Até brinquei com um amigo: – o Google vai acabar com nossos segredos. 

Ainda é cedo pra dimensionar o tamanho da invasão de privacidade proporcionado pelas novas ferramentas tecnológicas. Algumas situações são expostas por nós mesmos. O exibicionismo na rede é assustador. Algumas vezes, sem consequências; outras, nem tanto. 

Hoje, é fácil saber da vida de uma pessoa sem ao menos conhecê-la. Basta segui-la no twitter, num blog, pelo facebook ou outra rede social qualquer. Entretanto, o que dizer dos registros em imagens feitos pelo Google? 

Com suas diferentes ferramentas, não é raro encontrar depoimentos de pessoas que sentiram ter sua privacidade invadida porque suas casas, propriedades etc foram fotografadas pelo Google. Essa mulher viu uma foto da calcinha dela parar na rede. Poderia ter sido o flagra de um beijo ou outra cena qualquer. 

Acontece que nem tudo na nossa vida é público. Ou queremos tornar público. Mas como evitar o Big Brother da vida real? Parece-me quase impossível. Seja pelas imagens captadas pelo Google ou pelas câmeras de segurança que vão se espalhando por nossas cidades, nossa vida é cada vez menos nossa. 

Seria simbólico, mas queria uma despedida oficial de José Alencar

Fico impressionado com a luta pela vida empreendida pelo vice-presidente José Alencar. Nesses oito anos de mandato, já perdemos as contas de quantas vezes foi internado, passou por cirurgias. Agora, na reta final do governo, Alencar está internado. Sua hemorragia não cede aos procedimentos médicos. O Brasil acompanha o drama do vice-presidente e torce para que ele vença mais uma vez a doença. Mas desta vez a situação parece mais complicada. O próprio fato de a hemorragia persistir já sinaliza a complexidade do momento. 

Cá com meus botões, gostaria de vê-lo descer a rampa do Planalto, despedir-se do governo e viver este último ato oficial ao lado de Lula, das Marisas (mulher de Lula e também da esposa dele) e da presidente Dilma. Seria simbólico. Ainda assim, entendo como uma forma de José Alencar sentir que sua missão está completa – uma espécie de adeus à política e, talvez, à vida. E isto debaixo dos aplausos de uma multidão que, independente de bandeiras partidárias, admira sua luta.

Na segunda, uma música

A banda surgiu na década de 1980. Teve seu auge num período em que outras tantas bandas arrebentaram. Entretanto, o tempo passou e apenas as melhores sobreviveram. Entre elas, o Paralamas do Sucesso. Embora não tenha uma voz maravilhosa e nem firmeza nas interpretações, Herbert Vianna é um músico genial, um grande compositor. Por isso mesmo, soube como poucos liderar o grupo em períodos em que o gênero produzido pelo Paralamas e outras bandas não era o mais consumido pelo público. Nesta segunda, compartilho uma de suas belas músicas, Aonde quer que eu vá. 

Foi pelas pessoas que veio o Cristo do Natal

A gente chega a este dia 24 de dezembro, véspera de Natal, com aquela sensação de: "espera aí, o que aconteceu? Onde eu estava em março, junho, setembro… Como assim? Já é Natal?". Se você me acompanhou por aqui no ano passado, nessa mesma data, deve lembrar que falei da urgência do tempo, da maneira apressada como vivemos e da impressão que dá de que tudo passou rápido demais. É verdade. Passou rápido demais. E mais um ano está indo embora. É Natal. Já é possível ouvir o som dos sinos, as boas conversas e risadas ao redor da mesa. Mas tudo isso também vai passar pra daqui a pouco comemorarmos a passagem de mais um ano e "estreia" em 2011.

Falar pra você "vamos aproveitar melhor o tempo, curtir intensamente cada momento" até parece um discurso repetitivo. Entretanto, não nos resta algo muito diferente. Afinal, o que importa na vida são os bons momentos que vivemos. As experiências mais profundas. Tudo mais é descartável. A gente esquece. Por isso, neste Natal o melhor é abrir o coração para as pessoas que amamos. A comida, a bebida, a música fazem parte apenas de um cenário em que os protagonistas devem ser cada de nós – nossa mulher, o marido, o namorado, a namorada, os filhos, os pais, os sogros… enfim, gente. São as pessoas que realmente importam. Gente é que faz a vida valer a pena. Foi pelas pessoas que o Cristo, do Natal, veio a este mundo – nascer, morrer e ressucitar.

Então, que este seja o nosso sentimento neste Natal. Aproveite. Curta. Viva as pessoas que ama, viva o melhor Natal.

Observando, refletindo e aprendendo

Tempos atrás uma leitora e amiga questionou sobre a "inspiração" para meus textos. Ela comentou que tinha a impressão que sempre escrevo com base na observação de coisas que acontecem ao meu redor. De certa forma, é bem isso mesmo. Traduzo em palavras o que vejo, escuto ou o que sinto. Os textos são resultado de minhas observações, vivências. E as conclusões, posicionamentos que tenho, fruto do aprendizado, leituras e experiências – até mesmo de outros.

Na verdade, a vida nos concede diariamente muitas oportunidades de aprendizagem. Basta se dispor a ouvir os "sons" do mundo. Tudo nos ensina. Desde as conversas mais banais até as tantas vezes que nós, ou pessoas próximos de nós, "quebram a cara". Quando queremos parar, observar temos a chance de refletir, logo, aprender.

Dia desses conversei com uma pessoa sobre seu relacionamento. De alguma forma, ela tem estado um tanto ausente e não dá conta de demonstrar seus sentimentos de maneira a fazer a outra pessoa se sentir segura – ou tranquila na relação. Ela concluiu: "acho que nunca aprendi a amar".

Brinquei que o tempo em que está convivendo, dividindo sua vida com outro alguém, certamente já pôde ensinar muita coisa. Inclusive a maneira de amar, demonstrar amor. E completei que para isso bastaria observar um pouco mais seu modo de agir e o modo de agir do outro. A observação ensinaria. E muito. Acrescentei que se não buscasse esse aprendizado nunca seria feliz.

Sei que o ato de parar e contemplar está fora de moda. A gente nunca observa na busca por aprender algo; observa-se para apontar erros, criticar. Entretanto, inverter essa lógica pode ser o começo de uma forma nova de viver, de entender de gente, da comunidade em que vivemos e do mundo que transcende o nosso umbigo.