Gostamos de gastar

O brasileiro está devendo mais. É isto que revela a pesquisa mensal do IPEA. Na média, cada cidadão tem uma dívida de R$ 5.214,00. E o tamanho dessa conta está crescendo mês a mês. De março para abril foram 24% de aumento.

Há uma demanda reprimida. Como a sensação é de que estamos ganhando mais, que a economia está melhor e as perspectivas futuras não são ruins, a gente gasta mesmo.

Não dá para esperar pelo celular novo. Tem que ser agora. Vale o mesmo para a televisão, aparelho de som, geladeira… E a lista é grande.

Roupas e calçados… a gente nem conta. Passa em frente à vitrine, se gostou, leva. É só tirar o cartão de crédito do bolso, parcelar em quantas vezes for possível e sair da loja feliz da vida.

Não sei se a felicidade dura muito tempo. Afinal, uma hora a fatura chega. E quando chega, nem sempre os números que apresenta nos deixam satisfeitos.

Mas… este é o momento que estamos vivendo.

Na imprensa, ouvimos toda hora falar da volta da inflação. E os economistas e analistas de plantão culpam o governo.

O governo tem culpa. Parcial.

Nós, consumidores, temos a nossa. A gente quer gastar. Durante muitos anos, foi nos tirado o direito de comprar o que desejávamos. Acontece que a pressão de consumo gera inflação. Não há razão para – desde o produtor da matéria-prima, passando pela indústria até chegar a lojinha da esquinha – segurar o preço se a venda vai acontecer.

Se custava dez e passou a custar doze, vai vender. Do mesmo jeito.

Ninguém vai cancelar o churrasco, porque chegou no mercado e encontrou o quilo da carne R$ 2,00 mais caro. O cidadão reclama, fala da inflação, mas compra.

Essa demanda, não acompanhada no mesmo ritmo pela produção – somado a outros fatores, inclusive os gastos do Estado – gera inflação.

E o endividamento das pessoas é só mais uma consequência disto tudo.

O que esperamos é que, no final das contas, não sejamos surpreendidos por um retorno ao tempo das “vacas magras”.