Doenças que nascem em nós

Um estudo publicado na revista científica ‘The Lancet’ revela que um quinto dos brasileiros sofre com doenças mentais. Não, ninguém está doido da cabeça – como diriam por aí. São pessoas – como eu e você – acometidas por algum tipo de doença que rouba a qualidade de vida delas. Geralmente, psicoses, dependência do álcool e depressão.

O dado é preocupante. Mais ainda por que muita gente não leva a sério as doenças mentais. Acha que é frescura. É como se fosse algo simples: eu decido deixar de beber; eu decido não ficar deprimido. Por sinal, depressão é vista, por alguns ignorantes, como doença de pessoas fracas. Só os fracos ficam deprimidos. Vale o mesmo para a dependência do álcool, de outras drogas e até para outros males de origem mental.

Não sou especialista no assunto. Apenas me atrevo a discutir o tema como “filósofo do cotidiano”, curioso da educação e do comportamento humano. Entretanto, creio que deveríamos dar maior atenção aos dados desta pesquisa. E não apenas pelos números estatísticos. Mas sim pelo fato de que nós também podemos fazer parte deles.

Vivemos um período crítico. Somos candidatos a nos tornarmos doentes mentais. Ninguém está livre. A sociedade contemporânea nos empurra para o abismo da solidão, da insatisfação, do egoísmo, da vaidade, do orgulho, do medo, da insegurança etc etc. São sentimentos naturais do homem, mas que estão acentuados pelas características do mundo atual. Nem todos dão conta de lidar com isso.

Por exemplo, sentir-se insatisfeito é normal. Você mora numa casa e, com o tempo, desgosta dela. Isso é normal. A cada nova conquista, passado um tempo, sentimo-nos insatisfeitos com a condição atual e desejamos mais.

Entretanto, isso passa a ser um problema quando esse sentimento de insatisfação rouba a nossa paz, a nossa felicidade. Quando não conseguimos nos contentar com nada, cria-se um vazio que nada parece capaz de preencher. Passamos a ser reféns da promessa do que ainda está por vir pela necessidade de ter o que ainda não temos.

Assim acontece com cada um dos outros sentimentos que nos incomodam e se tornam maiores que nós. Esse vazio existencial tira as nossas referências. E o que era só um sentimento mal acomodado pode se tornar doença.

As doenças mentais até podem ter origem orgânica – um hormônio ali, outro aqui que estão em desequilíbrio. No entanto, na maioria das vezes, surgem porque há um choque entre nosso corpo, nossa mente, nossos desejos, nossas capacidades e a projeção social de um modelo que o mundo e que nós mesmos nos impomos.

Depois disso, desenvolver um transtorno psíquico, cair em depressão, tornar-se dependente do álcool ou de qualquer outra droga são só consequências.