Ninguém vota contra si mesmo

Quem é capaz de abrir mão de seus interesses para privilegiar os interesses do outro? Pouca gente. É claro que sempre existirão aqueles que vão sustentar que seriam capazes disso. Entretanto, provavelmente isso só aconteceria no discurso.

Mas… para que esta introdução? Para refletir sobre algo que vi no Diário dia desses. Ao tratar sobre o aumento do número de vereadores, a reportagem revelava que a maioria dos atuais parlamentares é a favor da criação de oito novas cadeiras – limite previsto pela atual legislação. Maringá tem 15 vereadores, mas tem o direito de chegar a 23. E quem decide isso não somos nós, cidadãos; são eles.

Na prática, a gente paga a conta. Mas eles escolhem fazer a despesa.

Claro, na boca de cada vereador haverá uma justificativa bastante razoável para tal medida. Ninguém vai assumir que aprovar o aumento significa facilitar o seu próprio caminho para a reeleição e para futuras disputas eleitorais. O argumento provavelmente será este: ter mais gente na Câmara significa garantir maior representatividade para a comunidade maringaense.

A justificativa é bonita, cheia de boas intenções. Porém, é só discurso vazio. Ter 15 ou 23 vereadores não vai mudar muita coisa na representatividade da população. Até porque a questão da representatividade não passa pela quantidade mas sim pela quantidade dos nossos nobres vereadores.

Eu ficaria um pouco mais sensibilizado com o argumento se os atuais vereadores, que se propõem a votar tal medida, também aprovassem a divisão de seus rendimentos e dos gastos de seus gabinetes com os novos colegas. Algo do tipo: quanto custa a folha de pagamento dos vereadores? R$ 90 mil (este número é hipotético)? Ok, então vamos dividir esses R$ 90 mil por 23 e não mais por 15. E fizessem o mesmo com as despesas com assessores, contas de telefone etc etc.

Não vão fazer isso. É óbvio. Primeiro, porque acreditam que a remuneração que recebem é inferior a que merecem; segundo, exatamente porque pouca gente é capaz de abrir mão do que acredita ser seu direito.

Meu comentário aqui não é para dizer que nosso Legislativo é melhor ou pior do que outros do país. Nada disso. A intenção é só propor uma reflexão… Não me parece correto permitir que determinados grupos tenham o direito de fazerem suas próprias leis. Dificilmente os vereadores serão altruístas a ponto de abrirem mão dessa chance de ampliar o número de cadeiras. Como também dificilmente teremos uma reforma política neste país que seja realmente abrangente e transformadora. E por só por isso: ninguém vota contra si mesmo.