Nem tudo está perdido

Nem tudo está perdido… Se ao chegar em casa, fiquei frustrado com a qualidade de um ser humano capaz de emporcalhar toda a escadaria do prédio, por outro lado, também me senti tocado pelo gesto de um garoto quando fui pegar o carro no horário do almoço.

Não coloquei o cartão de estacionamento do Estar. Como era esperado, recebi uma notificação pela ausência do cartão. Entretanto, quem emitiu a “multa” não fixou muito bem no vidro e nem o deixou visível. Por isso, entrei no carro e já ia dando partida quando um garoto chamou minha atenção.

Do lado do passageiro, ele acenava pra mim. Demorei um pouco pra entender o que era. Abaixei o vidro e ele estava me avisando que a notificação estava colada no vidro. Ele comentou:

– Estou tentando avisar, porque o senhor pode perder o papel enquanto estiver dirigindo. Aí vai ter que pagar multa, porque não conseguiu acertar os R$ 4 do Estar.

Agradeci, peguei a notificação e saí tocado pelo gesto do rapaz.

Ele não precisava fazer isso. Não mesmo. Caminhava pela calçada, viu que eu poderia perder a notificação e resolveu me avisar para que eu não tivesse que pagar uma multa depois.

O garoto poderia pensar: “este é um problema dele”.

Não estaria fazendo nada errado. Nada demais. É assim que somos. Pensamos em nós. Muito pouco nos outros. A notificação era para mim; uma possível multa, também. Além disso, quem deixou de colocar o cartão também fui eu. Ele não precisava se importar. Mas se importou.

Consegue ver a dimensão disto? Consegue perceber como tudo poderia ser muito melhor se tivéssemos disposição para nos preocuparmos só um pouquinho mais com os outros?

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Tem gente que não é gente

Ainda pela manhã publiquei o post “Carpinejar, Jô Soares e o homem borralheiro“. Quando estava chegando em casa, foi impossível não lembrar do texto. Vi um servicinho porco nas escadarias do prédio. Pelas características, concluí: é coisa de homem (apesar que, de vez em quanto, a gente topa com algumas mulheres que não são muito diferentes do que certos homens). E desses ignorantes, que não sabem valorizar o trabalho alheio.

As escadarias estavam cheias de barro. Alguém deixou o carro no estacionamento e, provavelmente estava com os calçados muito sujos. Pois o sujeito não teve nenhum cuidado e subiu emporcalhando tudo. Isto, depois do prédio estar limpinho. A zeladora cuida de tudo logo pela manhã e, nessas ocasiões, deixa tapete ou um pano de chão para que os moradores mantenham o local arrumado.

A pessoa não teve capacidade de fazer isso. Sujou, ignorando que o serviço estava feito, ignorando que tem vizinhos, que o ambiente fica com aspecto desagradável e, principalmente, que alguém vai ter que trabalhar dobrado para limpar o chão que sujou.

Acho essas atitudes mesquinhas. Um comportamento de prepotência. De desrespeito pelo outro.

Tem origem na educação. Ou da falta dela.

Carpinejar, Jô Soares e o homem borralheiro

Um dos assuntos mais comentados no Twitter na manhã desta quinta-feira é a entrevista do escritor Fabrício Carpinejar ao Jô Soares. Mais que ser engraçada, Carpinejar fala do novo homem, o Borralheiro. Um homem que também tem que ajudar em casa em tarefas antes tidas como exclusivas da mulher.

Embora o papo do escritor com Jô Soares faça a gente rir – até mesmo do visual de Carpinejar -, vale a pena levá-lo a sério. Afinal, não há mais espaço para o homem machão – aquele que senta no sofá, assiste tv enquanto a mulher lava a louça.

Vivemos um momento em que o homem precisa se envolver. Não apenas porque a mulher também esteja trabalhando fora. Mas até por uma questão de tornar o ambiente doméstico mais justo. Que direito o homem tem de apenas assistir sua mulher colocando a casa em ordem? Quem deu a ele esse direito? Que superioridade é essa?

Ninguém perde a masculinidade por lavar louça, fazer o almoço, varrer uma casa, limpar o banheiro, trocar a fralda da criança.

Quem divide uma vida deve estar disposto a dividir as tarefas.

A Pippa usou o mesmo vestido. E daí?

O título da matéria é este:

Pippa Middleton usa o mesmo vestido por dois dias seguidos

No primeiro, saiu para fazer compras. No segundo, foi a um jogo de tênis. Vestido vermelho, básico, bonito. Não entendo tanto assim de moda, mas me parecia bem vestida.

Agora, diga-me, qual o problema em repetir o vestido? Tudo bem, há quem diga que deve-se evitar, principalmente por tê-lo usado em dias seguidos. Até nós, que não somos celebridades midiáticas, procuramos não sair de casa dois dias seguidos com as mesmas roupas. Mas, se o fizermos, deixamos de ter bom gosto? Ou somos relaxados? Cometemos um “crime”?

Já que ontem e hoje questionei a mídia, vou fazer outra perguntinha básica:

– Por que o fato (a Pippa usar o mesmo vestido) é notícia?

Alguém pode me responder?

Ah… e por que a cunhada do príncipe é notícia mesmo?

Vamos deixar de bobagem. Temos mais o que fazer, né?

A “morte” de Amin Khader: qual a responsabilidade da imprensa?

Uma das discussões que faço com meus alunos na disciplina de Leitura Crítica da Mídia é sobre o comportamento da imprensa em relação aos seus próprios erros. Um autor que uso como referência para tratar do assunto, Patrick Charaudeau, diz que a mídia não é autocrítica. Ela transfere os erros para os outros, para as circunstâncias; nunca se auto-avalia, nem tenta analisar qual sua responsabilidade no processo.

Estava pensando nisso ao ver na manhã desta quarta-feira o desdobramento envolvendo a falsa notícia de que o promoter Amin Khader teria morrido. O foco está em quem inventou a história. Nenhum veículo de comunicação assumiu ou vai assumir que esqueceu de algo básico: ligar para o telefone do “morto”, para algum empregado ou para alguém que morasse com Amin. E mais: se ele estava morto, o corpo deveria estar em algum lugar. Então por que não checar esse detalhe tão básico a fim de confirmar a morte?

Ninguém fez isso. O fato de um amigo(?) ter noticiado a morte foi suficiente para compartilhar com o público. Era preciso ser rápido. O mais rápido possível devido a relevância(?) e urgência(?) do assunto.

Se foi o David Brazil ou o próprio Amin que inventou a história, pouco importa. Quer dizer, importa. A gente pode discutir o caráter das pessoas, a necessidade de aparecer, a falta de bom senso… coisas do tipo. Mas importa ainda mais refletir sobre o jeito de se produzir e dar notícias.

Não tem graça alguma informar e desmentir depois. Perde-se tempo demais com bobagens. É a espetacularização da ausência, do vazio, do não existente. E o público embarca. O que é relevante fica silenciado, ou em segundo plano, pois a novela de uma falsa morte torna-se mais importante que qualquer outro fato.

Convenhamos, está na hora de virar a página. E a mídia (na pessoa inclusive de jornalistas, apresentadores e outros profissionais) de reconhecer que também é responsável por situações como essa. Quem deu eco a mentira foram os veículos de comunicação e os apressados de plantão que, inocentes ou tolos, preferiram a farsa a gastar tempo em busca da verdade.

A “morte” de Amin Khader e as mentiras na internet

Já que o assunto aqui hoje é internet, volto a falar sobre as bobagens que se publicam na rede. Pegadinhas sempre foram normais. Mentiras mesmo. Na rede, ganham proporção desmedida. E o povo acredita. Inclusive nós, jornalistas.

Dias atrás um amigo e ex-aluno falou comigo quase desesperado. Ele viu uma notícia, achou um absurdo o fato retratado e não conseguia se convencer que trava-se apenas do chamado “jornalismo mentira”.

Eu dizia:

– É mentira. Só uma brincadeira.

Ele replicava:

– Mas está num blog sério.

Já avisei: internet é terra de ninguém. A mentira vira verdade. É preciso duvidar sempre.

Nesta terça-feira, uma brincadeira(?) de David Brazil levou muitos canais de TV, gente no Twitter e uma galera de blogs a noticiarem a morte do promoter Amin Khader.

Não passava de pegadinha.

Tenho dito, não sou dono da verdade. Mas, convenhamos, é preciso ser menos precipitado e principalmente menos inocente ao consumir informações na web.

Fica a dica: leia de novo este post aqui.

Aprenda a controlar a sua imagem

A internet acabou com nossa privacidade. É verdade que nem todo mundo está na rede. Ainda assim, a pessoa pode ser citada, ter sua imagem publicada… Enfim, ser alvo de comentários diversos. Não dá para evitar. Você vai a uma festa, alguém tem uma máquina fotográfica nas mãos e, sem que você saiba, sua carinha vai parar no Orkut. Ninguém pediu autorização. Simplesmente publicou.

Quem tem uma função pública está ainda mais exposto. Uma exposição por escolha. Às vezes, profissional. Outras, porque fez a opção por usar as mídias sociais para se expressar, compartilhar conteúdo ou apenas para se relacionar com amigos, colegas etc.

Ainda ontem escrevia por aqui que ninguém consegue ser dono de si mesmo. Em tempos de internet, também não somos donos de nossa imagem. Ela é de todos. Até podemos interferir, tentar administrá-la. Porém, a face que mostramos pode ser confrontada por aquela que é exibida por gente que nos ama ou nos odeia.

Ainda hoje estava fuçando num novo serviço lançado pelo Google. Trata-se no “Eu na Web”. A proposta é ajudar os usuários a ter um certo controle de sua imagem na rede.

Deve ajudar. Mas não assegura que possamos ter pleno controle do que acontece na rede e muito menos de como seremos citados. Até dá para denunciar os conteúdos indesejados. Remover completamente informações problemáticas é algo um pouco mais complexo. Mas, como disse, é mais uma opção para cuidar da reputação na web.

Cá com meus botões ainda penso que o melhor caminho é evitar fazer em rede qualquer coisa que possa te envergonhar depois. Dia desses disse aos meus alunos:

– Antes de publicar qualquer coisa, use como regra: se amanhã alguém para quem for pedir emprego ver isso daqui, sentirei vergonha ou orgulho?

Vale o mesmo para outras situações. Tipo convidar alguém para sair e até pedir em casamento. Se achar que vai te constranger, evite. A exposição virtual não fica só na web; atinge-nos na vida real (fora da telinha do computador).

Quem gerencia a sua vida?

Vi um comentário do Ulisses Efatá, falando do texto que postei sobre o uso das redes sociais, e fiquei pensando: conseguimos gerenciar alguma coisa nos dias de hoje?

Ele falava que a única forma de não se perder em meio às redes, a quantidade de conteúdo, de serviços etc etc é escolher usar apenas umas três delas e ainda administrar o tempo on e off.

Concordo com o Ulisses. Mas o termo que ele usou, gerenciar, ficou me martelando.

Tenho acompanhado o drama de um amigo apaixonado. Bom, apaixonado é modo de dizer. Ele está amando. E muito. Mas a relação é bastante difícil. Pelas circunstâncias, tem sido difícil viver esse sentimento. Mais que isso. Por vezes, tem dúvidas se é plenamente correspondido, e principalmente se vale a pena todo o investimento que tem feito nessa história de amor.

Olho pro meu amigo e sempre chego a mesma conclusão: ele não tem controle da sua vida. Tem um termo do inglês que gosto para caracterizar o estado de vida dele: stand-by. É isso. Meu amigo está em stand-by. Todos os projetos, sonhos, planos… Tudo. Enquanto a outra pessoa não embarcar de vez no relacionamento, ele segue investindo seu tempo, seu amor. Ela é sua prioridade. As demais coisas estão em estado de espera.

Ele gerencia a vida dele? Não.

Mas será que apenas nesses casos a pessoa perde o controle de sua vida? A resposta é a mesma: não.

Primeiro, porque todas as vezes que estamos num relacionamento, não somos senhores de nós mesmos. Dividimos a nossa vida com outra pessoa. Logo, nossas decisões não são apenas nossas.

No entanto, ninguém é plenamente gerente de si. Ou, dono de si.

Por exemplo, quando trabalhamos, muitas vezes o patrão é muito mais dono de nossa agenda que nós mesmos.

Temos uma festa à noite. O chefe nos convoca para uma reunião de última hora. Perdemos a festa, mas não colocamos o emprego em risco.

Sempre digo que não somos plenamente livres. Nossas escolhas quase sempre são mediadas. Há interferências. Das mais diversas. Talvez até gerenciamos nossa vida. Afinal, o gerente não decide sozinho. Apenas tenta administrar da melhor forma possível dentro de um contexto apresentado. Mas estamos longe de sermos senhores de nossa vida.