Na internet, compra-se gato por lebre

Sou eu o idiota? Acho que sim. Vira e mexe repito aqui: não acredite em tudo que circula na internet. O negócio na rede é estranho. Internet é terra de ninguém. Todo mundo fala o que quer. E a gente não pode sair acreditando em tudo que lê ou vê.

Mas parece que esse meu discurso não cola. Acho até que perdi um amigo. O cara me mandou um texto sobre o activia – é aquele mesmo… aquele iogurte que ajuda no funcionamento do intestino e que você já viu a propaganda.

Pois bem, tem um email circulando na rede (e está inclusive em blogs) falando que, na composição, o produto tem fezes. Para tudo, minha gente. O que a Danone, uma empresa fundada há quase 100 anos, presente em cerca de 120 países, estaria fazendo com seus clientes?

Então, respondi o email do amigo, apresentando informações que rebatem os argumentos da mensagem, e pedi que tomasse mais cuidado antes de sair espalhando conteúdo duvidoso. Ele não me respondeu e nem escreveu mais.

Fazer o quê? Depois dou um jeito e fazemos as pazes. Rsrs. Afinal, não vou perder um amigo por causa da tal “fezes no activia”.

Faltando sério… A democratização na produção de conteúdo – todo mundo se tornou um produtor de conteúdo (ainda que mentiroso, muitas vezes) – acabou dando nisso. O sujeito inventa uma teoria e espalha. E outro acredita. Mais que isso, compartilha pra um monte de gente. Que replica… E a mentira se torna uma verdade.

Tudo de maneira inconsequente.

A rede é fantástica. Sou fã nesse negócio aqui. É maravilhoso perceber a força que tem a internet e que gente anônima, desconhecida acaba por exercer no meio digital. Basta ver o que aconteceu no caso da Arezzo. A marca simplesmente tirou das lojas toda uma coleção feita em couro de raposa por causa da reação nascida nas redes sociais.

No entanto, plantar mentiras na web – outras vezes compartilhá-las sem saber que se trata de uma informação não verídica – é muito comum. Por isso, tem que filtrar. Saber a origem, checar.

Nos jornais, rádios e tevê também se erra. Porém, o fato de existirem profissionais por trás da notícia e uma preocupação com a credibilidade (que é o que garante a audiência e, consequentemente, o faturamento) resulta num conteúdo menos sujeito a falhas.

O problema é que, por vezes, também quem está nos meios de comunicação tradicionais repetem o erro da internet – que é boa fonte de pautas. Um exemplo foi o que fez dias atrás o Serginho Groismann. Ele se pautou na história de que uma mulher conseguiu o direito de se masturbar no trabalho e levou o assunto para uma sexóloga que participa do Altas Horas. Ele não viu a tag “jornalismo mentira”. Pautou a pergunta e pagou mico.

É o tipo de coisa que pode acontecer com qualquer um de nós. Por isso mesmo, o termo “redobrar a atenção” (redobrar é mais que dobrar, concorda?) é mais que bem-vindo em tempos de internet. Nunca antes corremos tanto o risco de “comprar gato por lebre”.

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É jornalismo ou preconceito?

Uma gorjeta. Tudo bem… Era um bela gorjeta: 75 reais. Mas a gorjeta de 75 reais virou notícia na página online do jornal O Globo. O dono da boa ação é o deputado federal Everardo Oliveira da Silva.

Conhece? Talvez não por este nome. O deputado Everardo é o humorista Tiririca. Acho que agora ficou fácil…

Desde que foi eleito, Tiririca se tornou alvo da mídia. Uma gorjeta para o barbeiro vira notícia. Qualquer movimento, rende nota da imprensa.

Normal? Não sei.

O fato de ter sido o mais votado justifica os holofotes? Ou a motivação implícita seria um certo preconceito com o humorista?

Tá… Vamos combinar… Também acho um absurdo a eleição do Tiririca. Não acredito que tenha perfil pra ser deputado. Mas, convenhamos, ele tinha o direito de disputar vaga na Câmara. Como todo mundo tem. Se há culpados, estes são os eleitores e o sistema eleitoral brasileiro que leva lideranças políticas a usarem gente como ele para garantir mais vagas para o partido no Legislativo.

Feito o esclarecimento, voltemos ao tema central: a cobertura dada aos movimentos do deputado Tirica se justifica? Não tem nada, nadinha de preconceito?

Quantos outros parlamentares ocupam vagas na Câmara Federal – e até no Senado – e também fazem papel ridículo? Se é para ridicularizar o Tiririca, outros também não renderiam pauta? Ou o fato de não serem famosos seria o motivo? Afinal, embora pagos pelo nosso dinheiro, esses ilustres parlamentares desconhecidos não dão audiência, né?

Bem, o papo aqui não tem a pretensão de trazer nenhuma conclusão. É só pra pensar alto. É só uma reflexão sobre hábitos da imprensa, e nosso olhar para as notícias – que acaba motivando as escolhas da mídia.