A “morte” de Amin Khader: qual a responsabilidade da imprensa?

Uma das discussões que faço com meus alunos na disciplina de Leitura Crítica da Mídia é sobre o comportamento da imprensa em relação aos seus próprios erros. Um autor que uso como referência para tratar do assunto, Patrick Charaudeau, diz que a mídia não é autocrítica. Ela transfere os erros para os outros, para as circunstâncias; nunca se auto-avalia, nem tenta analisar qual sua responsabilidade no processo.

Estava pensando nisso ao ver na manhã desta quarta-feira o desdobramento envolvendo a falsa notícia de que o promoter Amin Khader teria morrido. O foco está em quem inventou a história. Nenhum veículo de comunicação assumiu ou vai assumir que esqueceu de algo básico: ligar para o telefone do “morto”, para algum empregado ou para alguém que morasse com Amin. E mais: se ele estava morto, o corpo deveria estar em algum lugar. Então por que não checar esse detalhe tão básico a fim de confirmar a morte?

Ninguém fez isso. O fato de um amigo(?) ter noticiado a morte foi suficiente para compartilhar com o público. Era preciso ser rápido. O mais rápido possível devido a relevância(?) e urgência(?) do assunto.

Se foi o David Brazil ou o próprio Amin que inventou a história, pouco importa. Quer dizer, importa. A gente pode discutir o caráter das pessoas, a necessidade de aparecer, a falta de bom senso… coisas do tipo. Mas importa ainda mais refletir sobre o jeito de se produzir e dar notícias.

Não tem graça alguma informar e desmentir depois. Perde-se tempo demais com bobagens. É a espetacularização da ausência, do vazio, do não existente. E o público embarca. O que é relevante fica silenciado, ou em segundo plano, pois a novela de uma falsa morte torna-se mais importante que qualquer outro fato.

Convenhamos, está na hora de virar a página. E a mídia (na pessoa inclusive de jornalistas, apresentadores e outros profissionais) de reconhecer que também é responsável por situações como essa. Quem deu eco a mentira foram os veículos de comunicação e os apressados de plantão que, inocentes ou tolos, preferiram a farsa a gastar tempo em busca da verdade.

3 comentários em “A “morte” de Amin Khader: qual a responsabilidade da imprensa?

  1. Como escrevi no meu blog ontem:
    SEM CHECAR
    No “meu tempo”, nenhuma notícia, principalmente desse tipo, era publicada sem que fosse devidamente checada. “Barrigas” eram motivo de punição, pelo menos de bronca séria. Pois não é que isso mudou, depois dos twitters, orkuts e tais. Todos os principais sites publicaram hoje, 28, a “morte” do, como dizer, “repórter de celebridades” Amin Khader, a partir do post em um twitter de outro congênere. Mas, era um trote, pegadinha, informação falsa. Todos os principais sites (IG, UOL, Terra, G1) publicaram “a brincadeira” como fato consumado, sem entrar em contato nem com a fonte, nem, para descargo de consciência, com o telefone do eventual falecido. Em termos de jornalismo, é um imenso absurdo, uma “barriga” colossal. Corrói a credibilidade desses canais e, pior, mostra como está “o nível”. Sacado o erro, sequer admitiram. No máximo, aguardaram alguém de fora das redações o desmentido, pois caso contrário o moço estaria morto até agora. Como naquele episódio do locutor de rádio que anunciou, por engano, a morte do Papa João Paulo II, restava dizer na correção: “Senhores ouvintes, lamento informar, mas o papa não morreu”.

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