É mais fácil fugir da verdade

De vez em quando desconfio que temos um botãozinho lá dentro do cérebro. Tem a função de desligar nossa memória todas as vezes que aprontamos alguma… É sério! Já notou que é só você apertar alguém que fez algo errado e logo o sujeito sai com essa:

– Verdade? Eu fiz isso? Não lembro. Não lembro mesmo.

Conhece alguém que tenha usado esse argumento?

Estava pensando nisso quando vi o título da matéria da Folha Online:

Paulo Bernardo diz não se recordar de voar em avião de empreiteira

O ministro tem mesmo muita coisa para fazer. Deve ter se esquecido.

Mas deixa o marido da Gleisi pra lá…. Vamos falar de nós. Afinal, políticos fazem parte de uma outra classe. Eles não são gente como a gente.

Pois bem. Esse “esquecimento” quase sempre é conveniente. Ninguém gosta de ser confrontado com a verdade. Principalmente se ela tira a nossa máscara; se mostra a nossa face.

Embora as mentiras façam parte de nosso cotidiano – em alguns casos, até como estratégia de sobrevivência -, ser pego numa delas, geralmente envergonha (tem gente safada que nem fica vermelho mais, né? Mas essa é outra história). Quem tem um pouco de pudor, fica constrangido ao ter um de seus erros descobertos.

Por isso mesmo, parece que o botãozinho entra em ação, vai lá e desliga a memória.

Dizer que esqueceu é uma tentativa de manter as aparências, minimizar o erro. É como se a pessoa estivesse falando:

– Desculpa. Se eu fiz, foi uma bobagem; algo pequeno, rápido. Nem dei conta que estava fazendo algo errado.

De alguma maneira, o discurso é: “eu não sou assim. Este não sou eu”.

Quase sempre, o “esquecimento” não cola. Pode amenizar o fato, mas a fuga, evitar a verdade só retarda e pode, inclusive, acentuar a desconfiança. Porém, assim somos nós. Nossa natureza vacilante nos torna personagens; presos em nossas aparências. Sempre será mais fácil dizer: “não lembro”.