Só a literatura clássica pode nos salvar da ignorância?

Na semana passada, a Veja trouxe uma discussão interessante sobre as provas do Enem. Com base num levantamento das questões de literatura, a revista concluiu que o candidato não precisa mais conhecer literatura para ter bom desempenho na avaliação. Consequentemente, mesmo sem referências dos clássicos, consegue fazer um curso superior e acessar grandes universidades.

A reportagem diz que o negócio do Enem é identificar se os alunos sabem mesmo é interpretar textos – em especial, quadrinhos.

O levantamento realizado pela Veja foi bastante amplo. Analisou as provas do Enem deste 1998. E, para se ter uma ideia, nesses anos todos, apenas sete questões citaram nosso maior escritor, Machado de Assis. Guimarães Rosa ganhou uma única pergunta. Pouco, né?

Pois é. Esta foi a impressão que tive após ler a reportagem. Conduzido pelos argumentos da Veja, fiquei com a sensação que cobra-se pouco de nossa literatura e gasta-se muito tempo com interpretações de quadrinhos do Garfield, Mafalda etc. Portanto, de fato, faltariam critérios para os avaliadores do Inep (órgão responsável por elaborar as provas).

Entretanto, o assunto ficou me incomodando. E hoje resolvi compartilhar com os amigos leitores.

A pergunta que não me sai da cabeça é muito simples:
– Quem disse que para provar que é um bom aluno é preciso ter lido os clássicos?

Pensava nisto enquanto deixava meu filho na biblioteca. Ele estava com três livros nas mãos. Literatura adolescente. Porém, obras com mais de 400 páginas cada. Leu tudo em uma semana. Mais de 1,2 mil páginas em sete dias.

Não gosto das histórias que ele gosta. Eu prefiro Machado de Assis. Sou apaixonado por Eça de Queirós. Mas sei também que a maioria dos adolescentes não tem maturidade para ler esses autores. Essa molecada cresceu assistindo o mundo fantástico dos desenhos animados; as luzes, cores e ações dos jogos eletrônicos; os heróis do cinema…

Como pedir que se encantem pela literatura clássica?

Para eles, essas obras são chatas demais. Cansativas.

Não discordo. Na idade deles, é sim. Lembro que, quando tinha uns 10 ou 12 anos, li “Inocência” de Visconde de Taunay. Não estava pronto para aquele romantismo trágico. Fiquei tão chocado com a história que, ao final da leitura, queimei o livro. Hoje tenho um exemplar novinho na minha prateleira, mas, na época, não tinha maturidade para dar conta daquela leitura.

Essa garotada faz o Enem – e o vestibular – com 16, 17 anos. São pouco maduros. Entendo que precisam ser leitores. Devem ser leitores. Mas cobrar numa prova que saibam sobre Machado, Eça, Manuel Bandeira, Graciliano Ramos, Augusto dos Anjos, Mário de Andrade, Lima Barreto, Guimarães Rosa, Castro Alves, José de Alencar e outros tanto???

Para ler essa gente toda teriam que estar em contato com as obras desses autores há três ou quatro anos. Não consigo vê-los maduros para isso. Não se trata de dizer que não devam ler os clássicos. Apenas de reconhecer que, no contexto em que vivemos, são obras difíceis, pouco acessíveis. E, sob obrigação, não nasce um gosto.

Acredito que leitores são formados desde a infância. Adquiri o hábito da leitura por meio de obras fáceis como as da coleção Vagalume. Lia dezenas desses livros. Perdi as contas do número de obras. Porém, aprendi a gostar (e sentir) da literatura clássica numa fase mais madura. Aos poucos fui me aventurando em textos mais difíceis até chegar a Dostoievski, Oscar Wilde, Franz Kafka etc.

A descoberta das grandes obras não foi por obrigação. Foi escolha. Algo do tipo: “não posso passar pela vida sem saber por que esses ‘caras’ foram tão importantes”.

Ler dá trabalho. É cansativo. A moçada quer saber de diversão. Os clássicos nunca vão entretê-los. Obrigá-los a ler essas obras pode até melhorar as provas do Enem, mas não me parece que será suficiente para construir um país mais letrado – como sustenta a Veja. O conhecimento vem sim pelos livros e pela leitura. Mas não apenas estes. Esses autores não escreveram para adolescentes. Escreveram para um público mais maduro. E quando publicaram não tinham a pretensão de serem as principais referências de leitura de um povo. Por isso, parece-me que sustentá-los como único porto seguro do conhecimento e da educação é restringir o sistema de ensino e ignorar que a leitura é um caminho não um fim em si mesma.

4 comentários em “Só a literatura clássica pode nos salvar da ignorância?

  1. Caríssimo, já que o assunto me permite, devo-lhe confessar que de obras literárias, não li quase nada!
    Concordo sim com a inflexão de dúvida sugerida pela Veja acerca da qualidade das provas. Fiz a prova do Enem em dois anos e, pouco antes, a do Saresp (prova de avaliação do Governo do Estado de São Paulo para alunos do ensino médio). Em todas estas, passei por cima das questões de literatura. Como você bem pontuou, achava massante este tipo de leitura e, em geral, lia resumos ou perguntava o contexto da história para os colegas que tinham lido. Ao que me parece, em nada fizeram falta para as provas, pois os resultados foram satisfatórios. A última avaliação do Enem, aliás, me garantiu bolsa através do Prouni.
    Se as provas, contudo, são negligentes com os clássicos, a não leitura destes não significa falta de conteúdo, tampouco baixo potencial de raciocínio. As tirinhas, acima de qualquer crítica, também exigem interpretação, decodificação de símbolos e intertextualidade com a situação nelas ilustradas.
    Hoje sinto falta destas leituras para entender contextos históricos e passagens interessantes, como a de Canudos, relatada por Euclides da Cunha. Deste “leque” de contextualizações sinto em ter lido apenas resumos. Todavia, não me arrependo de ter dedicado horas afinco nas histórias surrealistas ou regionalistas da série Vagalume.
    Se é que existem critérios para uma boa leitura de mundo, estes perpassam as obras literárias. Pedem muito mais assimilação histórica e vivência, além do desenvolvimento crítico em período escolar!

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  2. Tem um grupo de pessoas que acham que não é válido que os jovens leiam literatura “modinhas” como Crepúsculo. Outro grupo, diz que é preferível que se leia algo, mesmo sendo besteiras. Para que se desperte para o gosto da leitura.
    Pertenço ao segundo grupo.

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  3. Para mim o que esta acontecendo com a literatura e mais ou menos parecido com a musica, escute um sucesso musical dos anos 80, com melodia e mensagem. Hoje as mais tocadas so valorisa o sexo pelo sexo, ostentacao e violencia. O mais doloroso e que as coisas so vao piorar daqui para frente.

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