Burrice coletiva

O conhecimento que liberta pode ser o mesmo que aprisiona. Pelo menos, é o que se nota nos últimos tempos com o sucesso da internet e, em especial, das redes sociais. Quando o conhecimento se constrói com bases sólidas, fundamentadas, possibilita-se ver além do obvio, permite-se crescer como sujeito e cidadão; quando ocorre o contrário, afunda-se na ignorância. E o que é pior, o ignorante sente-se dotado de conhecimento porque se justifica na informação obtida em algum espaço supostamente digno de credibilidade. É o típico caso do camarada que diz:

– Ah, mas eu li na internet. Recebi um email falando sobre isso.

Ou seja, a pessoa não conhece, não sabe, mas não reconhece sua ignorância porque viu ou leu algo que acha ser verdadeiro. Torna-se teimoso, resistente.

O momento em que vivemos é propício para a procriação dos imbecis. Nunca tivemos tanta informação. O problema é justamente esse. A mesma facilidade que existe para o acesso também existe para a disseminação de conteúdo falso ou duvidoso. Qualquer pessoa com conexão à internet pode fazer circular uma informação falsa.

Tenho dito que a internet é terra de ninguém. Afinal, não há controle algum. Isto é positivo na medida em que se rompe com a censura, democratiza o processo de acesso e produção das notícias. Mas deixa de ser quando notamos, por exemplo, que tem crescido o número de pais que evitam vacinar os filhos. Alguns por convicção mesmo. Outros porque acreditam em teorias conspiratórias que, vez ou outra, surgem na internet e se espalham entre a população. Tem gente que acha que a vacina pode causar doença aos filhos, que a indústria farmacêutica criou a necessidade da imunização por mero interesse econômico… Enfim.

A crença numa bobagem dessas coloca em risco os próprios filhos dessas pessoas como ainda cria uma janela no processo de imunização que pode permitir o retorno de doenças que deixaram de ser comuns – caso do sarampo e até mesmo da paralisia infantil.

Numa de minhas últimas aulas, sustentei a importância da educação para as novas mídias. Não visando ensinar a apertar teclas, entrar em sites… Nada disso. Isso é fácil. Não carece de orientação especializada. É necessário preparar as pessoas para ler criticamente o conteúdo hoje disponível. As pessoas não podem ser vítimas de informações deturpadas, viciadas, falsas. Isso é dever do Estado que deve ter políticas públicas adequadas na Educação. Mas é papel de todos mobilizar-se, cobrar.

Afinal, ainda que o senso comum por vezes revele parcialmente a verdade, é preciso romper com tudo aquilo que é raso, superficial. O público não pode ser refém desse tipo de conhecimento. Do contrário, vamos continuar nos arrastando na direção do desenvolvimento. De nada adianta termos um país economicamente rico, mas pobre de conhecimento, alienado em suas próprias crenças.

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3 comentários em “Burrice coletiva

  1. Excelente texto, e a velocidade com que o Facebook e as mídias sociais ajudam nessa disseminação de conteúdo é assustadora, tanto para coisas boas de utilidade publica quanto para boatos e fatos que as pessoas vem como verdade absoluta e clicam em compartilhar como sendo a maior verdade do universo.

    De certa forma isso é triste, pois gera uma revolta coletiva contra algo que é irreal e isso vai virando uma bola de neve que cresce mais e mais. As pessoas reclamam da manipulação que sofrem dos meios de comunicação, mas abaixam a cabeça e dizem “sim, vamos compartilhar” para qualquer besteira sem antes verificar a veracidade.

    Parabéns pelo texto e pelo Blog em geral, já estou curtindo e vou acompanhar.

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