Seus beijos, hoje, são frios

Não há nada mais nocivo para um relacionamento que o passado. O mesmo passado que guarda os grandes momentos é aquele que pode preservar as lembranças ruins. Tenho dito que é preciso romper com o passado para viver o presente e construir o futuro, mas não é simples superá-lo quando o relacionamento está todo machucado.

Como observador do comportamento humano, defendo que a melhor maneira de proteger o romance é investir nele todos os dias. Mesmo quando falta vontade. Porque a falta de hoje pode ser motivo para arrependimento amanhã.

Quem está vivendo o momento nem sempre se dá conta que certas atitudes vão distanciá-lo da parceira (do parceiro). A pessoa faz o que faz e acha que, depois, será possível arrumar tudo, consertar tudo. O problema é que nem sempre dá.

O amor precisa ser alimentado. E são os pequenos gestos que dão vida ao sentimento. A chama se mantém acesa quando “colocamos lenha na fogueira”. As ações que magoam, que chateiam, que provocam brigas, dúvidas, incertezas, frustrações, decepções vão ferindo dia após dia. Quando menos se percebe, resta pouco – ou quase nada – a fazer.

Conheço algumas dessas situações. Em quase todas, existe amor. Porém, há um descompasso entre os parceiros. Enquanto um investe demais, o outro se mantém ocupado com uma série de coisas. Não se entrega. Acha que o parceiro estará sempre ali e que, se ficar chateado, é só dar uns beijinhos, fazer um carinho, “provocar” um pouquinho e tudo ficará bem.

Isso pode até dar certo. Mas, por um pouco de tempo. Não por uma vida toda.

Sei de gente que segurou o romance por meses e até anos nesse jogo de “morde e assopra”. A pessoa vai lá e magoa a outra e, depois, faz um agrado e ficam bem. Acontece que num determinado momento a “brincadeira” perde a graça. E a parte magoada já não se conforma mais com migalhas. Desconfia… Sabe que poderá se machucar de novo. E as feridas estão ali para não deixar esquecer.

Sabe, em quase todas as histórias que tal situação é vivenciada, a pessoa que feriu – que não mergulhou totalmente no romance, que não soube poupar, proteger – acaba se arrependendo. Num belo dia, descobre que o outro faz falta. E percebe isso porque começam a diminuir as palavras de carinho, os gestos delicados e começa a aparecer um abismo entre os dois. Aí tenta correr atrás, recuperar o tempo perdido… Fala de saudade, amor, querer, vontade, desejo e não mais encontra eco para suas palavras e expressões.

Quando isso acontece, se há disposição para salvar o relacionamento, é preciso ter paciência. E investir no romance. Entregar-se completamente. Abrir mão de hábitos que provocaram as mágoas, deixar de lado aquilo que causou o distanciamento, a frieza e, principalmente, a desconfiança.

Não é fácil. Pode dar certo. Mas não há espaço para “remendos”. É preciso reformar por completo. Afinal, quem se machucou uma vez tem medo de se machucar de novo.