Viver um dia por vez

As crianças nos ensinam a viver o aqui e agora. Para elas, cada momento é único

Talvez este seja um dos meus desafios. Não sei se o maior, mas certamente um dos mais urgentes. Penso que todos nós precisamos aprender a “viver um dia por vez”. Acho até que ao invés de usar “um dia” o correto seria dizer “um momento”. Ou seja, “viver um momento por vez”.

Vivemos apressados. Mais que isto, vivemos pensando no que temos para fazer daqui a pouco. Por isso, enquanto você cuida do leite que está no fogo, sua cabeça está na louça que aguarda ser lavada. Enquanto você está comendo, sua cabeça está nas contas que terá de pagar amanhã e como estará a fila do banco. Enquanto você abraça, sua cabeça está no relógio que não para de correr e, por isso, é preciso se desvencilhar do abraço para não perder o próximo compromisso.

Sabe, poucos conseguem escapar ao imperativo do tempo. Temos planos, projetos. Talvez nem sejam grandes, mas ninguém estará desocupado no próximo minuto. Por isso, raramente uma pessoa poderá dizer “estou aqui só para isso”. Tudo que fazemos no aqui e agora será silenciado em instantes por outra coisa, outro acontecimento que está por vir.

É natural. Afinal, a vida é uma sucessão de vivências, experiências. E ainda bem que é assim.

Entretanto, ao ocuparmos nossos pensamentos com aquilo que faremos daqui a pouco, deixamos de viver o que está acontecendo neste instante.

Para mim, o instante é este meu texto. É ele que deve ocupar meus pensamentos. É nele que deve estar meu motivo de prazer. É verdade que tenho outras coisas pra fazer. Mas se me perder no que ainda vou fazer, se me apressar… este momento estará perdido. Deixará de haver uma razão para ter iniciado ali atrás a construção de um primeiro parágrafo.

Para você, o seu instante também é este texto. Não a escrita, mas a leitura. Você está diante de algo que, para mim, já será passado. Porém, é o seu presente. E como está se ocupando dele? Onde estão seus pensamentos?

Tenho aprendido que os melhores momentos são aqueles em que há total entrega. Nada nos ocupa. Nada nos preocupa. Nada nos perturba.

Pode notar… Quais suas melhores lembranças? Teria sido uma festa? Uma promoção? Um encontro? Posso apostar que sua mente registrou como suas melhores lembranças aquelas situações em que você estava ali, entregue, inteiro, vivendo só o momento.

Existe um verbo que, hoje, pouco conjugamos: contemplar. Estamos tão ocupados do por vir que não contemplamos a vida e a beleza que nela existe. Não contemplamos o amanhecer, o sol se pôr, a chuva que cai, o céu azul, a flor que nasce… Nem a blusa nova , os brincos novos ou o corte de cabelo da pessoa amada.

Outro verbo que parece ter ganhado sentidos pouco autênticos é este: sentir. Temos tocado, mas não sentimos. Não sentimos gostos, cheiros… Nada. A própria passagem do tempo nos escapa. Quando percebemos, a semana passou, o fim de semana acabou, o mês já é outro, o ano está indo embora…

Como diz um autor que admiro:

Esses padrões de vida se desenvolvem a partir de anseios e desejos naturais. Nossos corpos desejam comida, bebida, estímulos, prazer, sexo. Em outro nível, também desejamos beleza, amor, segurança, dignidade, propósito…

Entretanto, viver em função de nossos anseios e desejos naturais também é se permitir mergulhar no aqui e agora. Ter prazer no que se está fazendo (Nem que seja por saber que, ao estar realizando uma tarefa indesejada, esta estará concluída em alguns instantes e você ficará livre para fazer outra coisa).

Lembre-se:

Se você pode viver um momento, consegue viver todo um dia, e o modo de viver um dia é, no final das contas, o modo pelo qual vive sua vida (Philip Yancey, Rumores de outro mundo, p.57).

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