Flanelinha é bandido em potencial

Ser flanelinha não é o mesmo que ser criminoso. Reconheço. E acredito nisso. Mas há muitos criminosos travestidos de flanelinhas. Não diria que a maioria. Mas muitos deles. E pela disposição que possuem para extorquir, inibir proprietários de veículos e até causar danos nos automóveis, quase todos são potenciais criminosos. Estão na linha limítrofe, aquela que separa o ser decente e o ser bandido.

Digo isto porque ainda noto que algumas defendem os flanelinhas. Sustentam que não devem ser criminalizados e que o Estado precisaria agir para incluí-los.

Concordo com a necessidade de políticas de inclusão. Entretanto, estas são fundamentais quando há de fato exclusão e ausência de oportunidades de trabalho. Não é o que acontece hoje em Maringá e na maior parte das cidades brasileiras. Os programas sociais asseguram o mínimo que o sujeito precisa pra sobreviver. E tem emprego. Falta é gente disposta a aprender uma profissão, especializar-se e “botar a mão na massa”.

Acho curioso como esses mesmos que defendem flanelinhas se silenciam para o fato de existir, hoje, milhares de vagas em cursos profissionalizantes, cursos técnicos, oferecidos por diferentes entidades – Senai, por exemplo – em parcerias com governos municipais, estaduais e federal. Muitos desses cursos sequer fecham turmas. Não tem gente disposta a estudar pra colocar a mão na graxa. Sim, porque são empregos na indústria, na construção civil etc. E esse povo que guarda carros não quer trabalho braçal. Quer moleza.

E sabe o que significa isso? O dicionário define: quem quer moleza, quem não quer trabalhar… A palavrinha é bem conhecida: vagabundo. Sim, flanelinhas podem ser rotulados de vagabundos. Como tenho dito, não gosto de rótulos, porque gente é gente, ser humano. Mas o que dizer de alguém que prefere ficar nas ruas – existindo oferta de empregos – recebendo trocados a trabalhar oito, nove horas por dia, com carteira assinada, mas também com responsabilidades, deveres, obrigações?

Caríssimos, esses sujeitos que estão nas ruas optaram por um jeito de viver. Tem “tiozinho” que não tem capacidade física pra outras atividades? Sim. Claro que sim. Conheço alguns. Mas é minoria. Dá uma olhadela do lado… Quem está cobrando pra “guardar os carros”? São adolescentes, jovens, homens saudáveis. Pessoas que poderiam ser incluídas, se quisessem. Mas escolheram as ruas, pelo dinheiro fácil, ainda que numa condição marginal.

Quem já teve o carro danificado por flanelinha – eu já tive, e por um sujeito que está nas ruas há cerca de dez anos, com cara de “gente decente” – sabe que não cabe defesa aos flanelinhas. Não se defende a ilegalidade. Se querem incluir esses sujeitos, proponham medidas que os estimulem a deixar as ruas. Duvido que possuam alguma ação que seja realmente efetiva. É só olhar os resultados. Municípios que tentaram criar políticas sociais para esse público não tiveram sucesso. O que é lamentável, é preciso dizer. Houve a boa vontade. Mas, no caso dos flanelinhas, só a boa vontade do poder público não resolve o problema.

PS- Também tenho dúvidas sobre a eficácia de leis municipais que criminalizem os flanelinhas.

Anúncios

Olha o tamanho da saia dela

Shortinho, saia curta, um decote mais ousado, roupa colada… traduzem desejo imediato por sexo? Significam que a mulher é “fácil”? Evidenciam que ela está disponível? Mostram que quer ser “cantada”?

Pode ser que sim. Pode ser que não. Depende. Mas, de modo geral, quem pode dizer que a escolha da roupa não é apenas para sentir-se bem?

É verdade que as mulheres dão significado para as roupas. Bem diferente de nós, homens. A maioria delas se veste de maneira consciente. Sabem o que querem. Mulher não pega a primeira peça disponível no guarda-roupas. Entretanto, é simplista categorizar as mulheres pelo tamanho da saia.

Claro, mulher se veste sim para sentir-se gostosa. Mas, quando faz isso, não significa que saiu de casa disposta a transar. Muito menos com o primeiro sujeito que apareça.

Os homens confundem isso. E a sociedade, moralista que é, julga.

Dias atrás, li o depoimento de uma mulher sobre essa questão. Ela disse:

Chega de sermos recriminadas e discriminadas nas ruas porque usamos saias, leggings, regatas, vestidos justos, chega de sermos reprimidas e intimidadas porque somos mulheres, porque somos femininas e porque queremos nos sentir sensuais (…)! Não é porque uso saia que sou puta!

Foi justamente sob esse argumento que tem se sustentado a Marcha das Vadias. Organizada em várias cidades do Brasil, mulheres de diferentes idades têm ido às ruas pedir respeito. Querem o direito de, trajando uma burca ou usando um shortinho, não sofrerem preconceito. Não serem tachadas de vagabundas, vadias, putas.

Uma das denúncias da Marcha é o assédio, o abuso sexual, os casos de estupros, porque supõe-se que mulher com pouca roupa seja um convite ao sexo. E pior, a sociedade por vezes aprova esse tipo de crime. Não é raro ouvir coisas do tipo:

– Ela foi estuprada? Ah… mas você viu o tamanho da saia dela? Fica mostrando a bunda e não quer ser estuprada?

Transferimos a culpa de um crime para a própria mulher. É moralismo barato, preconceituoso.

Roupas tratam da aparência. Revelam personalidade. Mas não dizem sobre a vida sexual da mulher. É vulgar? Talvez. É provocante? Com certeza. Insinua, mexe com a libido. Entretanto, mostrar o corpo é uma escolha pessoal. O traje é escolha, é exercício da liberdade – inclusive sexual. Isso não nos dá o direito de julgar ninguém. Muito menos de rotular uma mulher como prostituta.

Sabe, a discussão que proponho não é baseada num gosto pessoal. Não é uma defesa do que a mulher deve vestir. Cá com meus botões, ainda acho que mostrar menos é mais elegante. Valoriza a própria beleza, deixa um ar de mistério que intriga e seduz. Porém, a reflexão é sobre nossa hipocrisia, é a respeito da liberdade, do resgate da razão e do respeito ao outro. A gente rotula produtos, mercadoria. Somos pessoas, somos humanos. E isso não tem a ver com a roupa que usamos.

Por que não dizer: fui eu?

A culpa é sempre do outro. Em tudo. Não queremos assumir; transferimos.

O copo quebrou? Ah… mas você deixou na beirada da mesa.
O arroz queimou? Mas foi você que me distraiu.
Eu me atrasei? O trânsito estava complicado.
Não paguei as contas deste mês? O problema é que o chefe cortou o pagamento das horas extras.

Temos desculpa pra tudo. É impressionante.

E o problema é histórico. Vem desde Adão e Eva. O tal do Adão comeu da fruta e culpou a Eva. Já a mulher não deixou por menos; disse que foi a serpente que a seduziu.

Sei que não é fácil dizer: fui eu. Não mesmo. Queremos preservar nossa imagem. E nossos erros nos revelam. Não aceitamos que o outro aponte nossas falhas. Nem nós mesmos as reconhecemos.

Governantes, por exemplo, disputam eleições com o discurso pronto: vão fazer transformações. Quando assumem, as frustrações na gestão nunca são responsabilidade deles; o problema está no governo anterior que “não fez a lição de casa direito”.

Poucos têm a dignidade ser assumir seus erros. Inclusive os mais simples. Caríssimos, a gente se constrange até de admitir que errou na escolha do corte de cabelos. Transferimos a culpa para o cabeleireiro. É mais fácil. Parece que reconhecer as falhas é dizer que somos frágeis, inferiores. Não deveria ser assim. Admitir um erro é mostrar-se humano. Igual. Seria mais honesto, revelaria grandeza de espírito e desejo de corrigir, tornar-se melhor.

Conviver é confrontar verdades; inclusive as nossas

Temos nossas verdades. Fazem parte de nossa identidade. Revelam quem somos. Precisamos delas, pois representam nosso conjunto de valores. Dão significado à nossa vida e nos fazem dar sentido à existência, ao outro e ao próprio mundo. Por isso, nos apegamos a elas. Sem elas, perdemos o chão, ficamos sem rumo.

Ninguém consegue ser alguém, sentir-se gente, sem ter as suas verdades. Por isso, admiro quem tem suas convicções e não se deixa abalar por qualquer nova teoria. Entretanto, também tenho medo daquelas pessoas que não aceitam questioná-las.

Somos diferentes. É isto que constitui a beleza dos homens. Também por isso evoluímos. Gente que não aceita questionar suas verdades é gente que não se permite crescer.

O que favorece (a nossa evolução) é a contradição, a contestação, que induzem à inovação.

Não dá pra viver sob a máxima:

– Eu sou assim, não vou mudar. Quem me quiser, tem que me aceitar.

A vida em comunidade, os relacionamentos são baseados no conflito. E os conflitos existem porque temos nossas próprias verdades, são nossas convicções que se opõem ao outro, que contestam as verdades do outro. Acontece que essas divergências nos fazem melhor.

Reconhecer a existência do outro é aceitar suas possibilidades de desacordo comigo. Ele é e será sempre diferente de mim, eu não sou o centro do mundo nem meu ponto de vista é o único válido.

Mas dá trabalho aceitar isso, né?

Queremos impor nossa forma de pensar, pois acreditamos que ela está correta. Nós pensamos estar certos. Porém, ao fazer isso, mesmo sem querer, estamos reforçando o discurso de que o mundo gira em torno de nosso umbigo. Estamos dizendo que há uma só verdade: a nossa.

Esse é um engano. Não existe um único jeito de viver, não existe uma só forma de agir, não há uma só verdade. Há ideias e mais ideias. Muitas, centenas, milhares, milhões. Existem hoje para serem revistas, recriadas amanhã.

As ideias novas jorram com freqüência de pontos de vista divergentes que partilhamos e discutimos de maneira franca.

Sabe, sem oposição, não dá para progredir.

Quando, por conformismo e para preservar a segurança, proibimos qualquer discussão, corremos o risco de rapidamente ficarmos sem criatividade.

Claro, o novo, o diferente, nos lança um desafio. E não é simples dizer pra gente mesmo:

– Eu estou errado.

Não é fácil confrontar nossas convicções, revê-las e aceitar que pode haver outras formas de viver e ver o mundo. Afinal, mudar significa ir em direção ao desconhecido.

No entanto, reconhecer que nossa verdade não é única, que pode estar equivocada é aceitar que, sozinhos, nunca teremos acesso ao todo. Minha verdade é parte do todo; a sua, também. Eu percebo o mundo do lugar onde estou e, por isso, apenas acesso a realidade sob uma perspectiva. Os outros vêem uma outra parte.

Quando optamos por tentar entender a verdade do outro, ampliamos horizontes, conhecemos outras formas de ver o mundo, admitimos novas possibilidades de amar, sentir, experimentar a própria vida.

PS- As frases recuadas, em itálico, são citações do livro “Os conflitos”, dos franceses Jacques e Claire Poujol.

Na segunda, uma música

Escrevo-te estas mal traçadas linhas meu amor
Porque veio a saudade visitar meu coração

Essas são as primeiras frases da canção escolhida pra hoje, “A carta”. Nas últimas horas, esta música está “martelando” minha mente. Porém, nem lembrava o título. Muito menos, os intérpretes. Mas o Google também serve pra isso: ajudar-nos a descobrir as canções que tocam nosso coração.

“A carta” foi gravada nos anos 1990 por Erasmo Carlos num dueto com Renato Russo. E fez sucesso.

Acho dispensável falar sobre Erasmo e Renato. São duas feras. Renato tornou-se mito. E o Erasmo será o eterno “tremendão”, admirável pelo talento, pelas composições, pelas parcerias com Roberto Carlos, por ajudar a escrever a história da Jovem Guarda.

“A carta” é uma daquelas músicas simples que a gente ouve e gosta. Quem sabe, pela própria simplicidade. Da letra, da melodia, da interpretação. “A carta” parece nos remeter a coisas boas, sentimentos bons.

Então… vamos ouvir?

As famílias brasileiras estão endividadas

Quer dizer, não todas. E muitas delas também têm nível de endividamento aceitável: 26,2% da renda mensal. Porém, 14 milhões de famílias já comprometeram mais de 30% do salário de cada mês com o pagamento de contas. E esse índice é preocupante. Principalmente porque são justamente as famílias mais pobres – classes C, D e E.

Mas é preciso entender a razão disso. É fácil dizer: o brasileiro está endividado. Também é simplista afirmar: pobre gasta mais do que ganha. Ou, brasileiro não sabe administrar seu salário.

Essas são verdades parciais. Não problematizam, muito menos elucidam a questão.

O brasileiro está endividado – e fazendo novas dívidas – porque, nos últimos anos, descobriu o crédito. E, ganhando um pouco mais, acreditou e experimentou uma vida melhor.

Nosso povo sempre foi pobre. Ao longo da história, sofreu restrições. Gente simples, morando de forma precária e tendo poucos bens de consumo. Depois do Real, as pessoas começaram a comer melhor, vestir melhor. Mais que isso, conheceram o prazer do consumo.

As demandas eram – e são – reais. Nunca foram imaginárias. O povo não tinha geladeira boa, não tinha máquina de lavar moderna, o mobiliário doméstico era velho (quase sempre, herança de família e dos presentes de casamento), os eletrônicos restringiam-se a um aparelho televisor e rádio. Carro e motocicleta eram bens de poucos.

O crescimento econômico do país – com geração de emprego e renda – mais os programas sociais dos governos proporcionaram o clima ideal para o cidadão sentir-se no direito de gastar. E gastou. Está gastando. E tem razão pra isso, pois as carências ainda são grandes.

Muita gente gasta sem necessidade? Sim. Compra supérfluo? Sim. Entretanto, só quem lava roupas sabe o que significa trocar uma máquina com sete anos de uso, capacidade para cinco quilos, por outra maior e mais moderna.

Além disso, o sujeito é pobre, ganha menos de três mínimos, mas pensa:
– Quero andar de carro novo;
– Estou precisando de um sofá melhor:
– O guarda-roupas das crianças está com a porta caindo;
– A mola do colchão já está “cutucando” minhas costas;
– Quero uma tevê no quarto para assistir só eu e minha mulher;
– A molecada está cobrando computador;
– Esse negócio de Facebook é legal, mas tenho que instalar internet em casa;
– etc etc.

A renda do camarada já está comprometida, mas a lista de necessidades segue lá. É extensa. E seu desejo de consumo é justo.

Como o apelo do mercado é forte, a oferta de crédito não para de crescer, o governo incentiva o consumo, o cidadão vai na loja e gasta. Pode ter feito bobagem, comprometido seu equilíbrio financeiro. Porém, de imediato, sente o prazer de sentir-se gente, parte do todo.

É isso que as notícias frias de economia não mostram. Há uma lógica atrás dos gastos. Há uma razão para esse endividamento. E aquelas explicações de sempre não são suficientes para justificá-lo.

Apenas um sorriso

Sabe aqueles dias difíceis em que nada dá certo? Tive um desses. Tirei o dia para resolver alguns problemas. Porém, acho que avancei pouco. Ou quase nada.

Mas meu maior incômodo não surgiu pelos desencontros entre meu desejo de resolver e as impossibilidades apresentadas. Claro, é frustrante. No entanto, pior que não conseguir fazer o que se deseja é encontrar tanta gente sem vontade de ajudar, sem disposição para facilitar… apenas tentar resolver.

É incrível como algumas pessoas parecem decorar palavras de um manual ou de um contrato de atendimento e apenas as recitam sem rugas no rosto. Há uma má vontade generalizada. O “não” brota naturalmente. O rosto lívido não esconde a incapacidade de sentir empatia pelo problema alheio.

O setor de serviços me assusta. Você paga, mas parece pedir favor.

Nesse mundo frio, encontrar calor humano é como procurar pérolas em meio aos porcos. Por isso, quando um sorriso brota no rosto de alguém de maneira espontânea coloca luz em nosso coração.

Foi assim que me senti já no início da noite quando esbarrei numa jovem. Pedi uma informação e o sorriso veio fácil, agradável, leve… Me senti acolhido, respeitado. Me senti humano. Era como se em meio as pedras encontrasse uma rosa.

Não gosto de sorrisos amarelos. É verdade que eles também estão em meu rosto. Devem estar no seu. Hoje, fazem parte de nossa face. Quase estão colados ao nosso caráter frio, falso e pouco disposto a doar-se, a amar.

Por isso, sorrisos verdadeiros parecem bálsamo para um corpo ferido, água para o sedento, alimento para o faminto. Sorrisos sinceros, espontâneos, desprovidos de máscaras, interesses são cada vez mais raros. Mas quando os encontramos nos lembram que a vida pode ser mais simples e se faz bela nos pequenos gestos.

Todos perdemos

A frase é do vereador Belino Bravin. Ouvi dele minutos depois da sessão dessa quinta-feira, quando todos estavam mais calmos. Conhecedor do cotidiano da Câmara de Maringá, Bravin sabe bem o que significou a votação do salário de R$ 6,9 mil para a legislatura 2013-2016. Embora todos os parlamentares tenham sido favoráveis, ninguém parecia de fato satisfeito com o resultado.

É desnecessário repetir aqui as cenas desta novela. Porém, esse derradeiro capítulo, mostrou como um erro pode levar a uma sequência de erros em que todos saem derrotados.

O aumento abusivo para R$ 12 mil, a votação na surdida, a tentativa de driblar a imprensa motivaram uma reação popular não prevista pelos vereadores. Entidades representativas e a própria população não aceitaram o subsídio. E tudo que a Câmara conquistou na atual legislatura – moralização, corte de comissionados, controle dos gastos etc – foi jogado por terra.

Os 13 votos favoráveis desta quinta-feira não mostraram unanimidade. Apenas desespero, tentativa de pôr fim ao fantasma que os persegue: o efeito da opinião popular nas eleições municipais de outubro.

O novo salário também não recupera a imagem do Legislativo. Nem dos vereadores. Como num jogo, escolheram as estratégias erradas. E não perceberam que se deixaram consumir por sentimentos mesquinhos. A aprovação foi por birra, revanche.

Os R$ 6,9 mil não significam o subsídio desejado. E o povo sabe disto. Apenas evidenciam a tentativa de impedir Humberto Henrique tornar-se o “herói” da redução dos salários. O petista foi associado ao pequeno grupo de manifestantes que se organizava pela internet. E, como Humberto garantia o holofote da imprensa enquanto os manifestantes distribuíam pizza no plenário, tudo que os demais parlamentares não aceitavam era que o petista aumentasse seu capital eleitoral tendo uma proposta dele aprovada no plenário.

Depois de o valor de R$ 8 mil ter sido rejeitado, a chance de aprovar um subsídio entre R$ 9 mil e R$ 9,5 mil cresceu bastante. Porém, temia-se que o petista apresentasse uma emenda com valor inferior. Para não permitir que isso acontecesse veio a infeliz proposta: R$ 6,9 mil. Não há cálculo matemático para se chegar a esse montante. É apenas um número. Um número construído sob motivações político-eleitorais.

Não há conquista nesse valor. Nem se trata de uma vitória da população. O povo estava descontente, mas não tinha uma proposta. Na verdade, para o eleitor, qualquer salário é muito dinheiro para um político.

Este valor não repõe a inflação projetada para este ano – o subsídio atual é de pouco menos que R$ 6,7 mil. Corrigir as “perdas” dos últimos anos elevaria o ganho para algo entre R$ 8,1 mil e R$ 9,7 mil – dependendo do índice aplicado.

Seria muito dinheiro? Depende para quem se paga. Pela importância do Poder Legislativo, não é caro pagar um salário desses para um parlamentar, desde que seja eficaz. Pouca gente se dá conta do estrago que um vereador ruim pode fazer. Nem percebe que o dinheiro que ele recebe na folha de pagamento é o que menos importa.

Por isso, a sociedade maringaense também não tem muito o que comemorar com a aprovação dos R$ 6,9 mil. Poucas pessoas sérias e comprometidas com o bem comum têm disposição de participar da corrida eleitoral para ganhar esse valor (que, descontado INSS e IRPF, representa cerca de R$ 5 mil líquido).

Outra questão, um novo subsídio só poderá ser votado para 2017. Quando chegarmos em 2016, é provável que os deputados ganhem quase R$ 30 mil. O subsídio deles é referência para o cálculo do salário dos vereadores. Sabe o que isto significa? Daqui a quatro anos, essa novela vai se repetir. Haverá outros defensores demagógicos da manutenção dos valores e quem vai pedir os 60% dos deputados. Ou seja, quase R$ 18 mil.

Repito, o subsídio é o menor dos problemas. As pessoas parecem ignorar o fato de que o ganho menor aumenta a tentação para o recebimento de “incentivos” na votação de projetos e retenção de parte dos salários de funcionários dos gabinetes. Afinal, quem lembra que o funcionário menor remunerado nos gabinetes recebe mais de R$ 3 mil? Quem lembra que o chefe de gabinete ganha cerca de R$ 5,5 mil?

Todos perdemos. A frase do Bravin resume o que ocorreu na tarde desta quinta-feira. Os vereadores não demonstram maturidade e foram infantis na discussão sobre os salários. Os movimentos populares – inclusive das entidades de classe – perderam-se no tom do discurso e não levantaram a principal pauta: a qualificação do Legislativo. E sem qualificação não há garantia de que teremos uma Câmara melhor na próxima legislatura.

As lições que ficam:
– a pressão da sociedade funciona;
– gente mobilizada pode virar o jogo;
– vereadores temem a opinião popular;
– a ameaça das urnas é a ameaça mais eficaz.

Só precisamos ter um pouquinho de bom senso e não permitir que a política – da politicagem – silencie a razão.

Então, por que não pensarmos nisso no primeiro domingo de outubro?