O crime contra Carolina Dieckmann é alimentado pelo nosso comportamento voyeur

A internet potencializou os crimes. E deu oportunidade pra gente com alma criminosa, mas que temia ser bandido no “mundo real”, de extravasar suas maldades.

A vida em rede nunca foi um porto seguro. Talvez não exista um outro espaço que forneça tantas possibilidades de se viver de maneira marginal. O sujeito pode, escondido atrás da tela de um computador, roubar senhas, invadir contas bancárias, divulgar fotos alheias, espalhar mentiras – sobre acontecimentos ou pessoas – etc etc.

O que está acontecendo com a atriz Carolina Dieckmann é um exemplo concreto desse tipo de crime.

Carolina optou por não ceder às chantagens e agora luta para tirar da web suas fotos pessoais e ainda encontrar o responsável por expor sua intimidade na rede.

A tarefa da atriz é ingrata. O site onde as fotos foram colocadas é inglês. Isso dificuldade o processo. Mas a situação vai além. Ainda que o criminoso seja encontrado, o site elimine as fotos, essas imagens nunca mais estarão sob controle de Carolina. Afinal, qualquer pessoa pode baixar essas fotos, guardar no computador, pendrive, CD ou mesmo em seu email e, posteriormente, voltar a divulgá-las.

As fotos de Carolina Dieckmann, que eram privadas, agora são públicas. E não deixarão de sê-las. Nenhuma multa ou punição vai reparar seus danos.

Tenho dito que a internet pôs fim à privacidade. E ninguém mais tem controle pleno sobre sua imagem. Alguém pode me fotografar, filmar e, depois, colocar na rede. Sem meu consentimento. Sem que eu saiba.

Meu computador e meus arquivos podem ser invadidos. Ninguém está seguro.

Alguém pode até dizer:

– Ah… mas quem mandou essa menina fazer fotos sensuais? Quem mandou fotografar pelada?

Gente, vamos parar com esse discurso moralista, né? Na intimidade, todo mundo tem direito de fazer o que quiser. Se ela fotografou nua ou não, não é problema nosso. E as imagens estavam no computador dela. O computador não é público; é propriedade privada. É preciso entender isso e respeitar as escolhas alheias.

O que é problema nosso é nossa curiosidade – maldosa, inclusive – pela intimidade dos outros. Esse tipo de crime só existe porque nós consumimos essas ações criminosas.

Da mesma forma que o roubo é mantido porque existe o receptador, a divulgação de imagens privadas de famosos – ou não – só acontece porque, do outro lado, existe o voyeur, aquele que espia pelo buraco da fechadura.

A reação de Carolina foi digna. O enfrentamento da situação, não ceder à chantagem, coloca as coisas no devido lugar. As fotos são íntimas, são dela, mas não mostram nada que todo mundo não tenha – corpo, seios, bumbum, sensualidade etc. Embora não tivesse a intenção de exibir-se, sua nudez não é crime; o crime é do outro, que divulga. Ela também não se apequena ao ter sua privacidade invadida por milhares, milhões de anônimos. Na verdade, são esses que se tornam menores ao consumirem, às custas de uma ação marginal, as imagens de sua intimidade.