Pedagogos, mais que professores, quase sacerdotes da educação

Considero-me um educador. Por formação, exercício profissional e escolha pessoal. Embora nunca tenha vivenciado o dia a dia da educação básica, do ensino nos primeiros anos da criança na escola, acompanho essa realidade como pai, curioso e pesquisador. Por isso, sinto-me no dever de propor uma breve reflexão neste Dia do Pedagogo.

Falar em Dia do Pedagogo soa até meio estranho. Afinal, a maioria dos profissionais desta área são mulheres. Há poucos homens formados em Pedagogia. Não creio que seja por ser uma atividade feminina. As razões são outras. Entre elas, por ser uma tradição cultural brasileira. Desde as primeiras escolas, o Estado estimulou a educação numa perspectiva quase maternal. A professora era uma espécie de mãe – ou “tia”, como ainda alguns têm o hábito de chamar.

Outra razão, o salário. Paga-se pouco. E a mulher poderia contentar-se em ser a renda complementar da família. Não a principal. Ela se submeteria a um salário menor.

Esses dois motivos já seriam suficientes para não estimular o homem a trabalhar na educação infantil.

Curiosamente, as mesmas razões que não atraem os homens para a educação básica são também as responsáveis pelo drama do ensino no Brasil.

O ensino superior paga melhor que o ensino básico. Isso tira os melhores professores da sala de aula dos menores (e isso não tem nada a ver com a falta de homens dando aulas para os baixinhos). A remuneração é maior numa correspondência direta com a série do aluno. Logo, o professor que ensina na faculdade, ganha mais. E, nas universidades públicas, os doutores mais badalados não estão presentes nem nas salas de aula da graduação; preferem a pós-graduação (os cursos de especialização, mestrado e doutorado).

Com isso, quem hoje cuida do ensino das crianças é quase um sacerdote. Tem que imbuir-se do sentimento de missão. Em Maringá, por exemplo, que tem um dos melhores salários para professores no Paraná, um iniciante ganha pouco mais de R$ 900,00 por 20 horas semanais. Ainda que tenha mestrado, não chega aos R$ 1,2 mil. No ensino superior, ganha-se o dobro disso. E, por vezes, sem estar todas essas horas em sala de aula.

No entanto, nem todas as professores dão conta de fazerem por amor (porque só por paixão e fé na profissão alguém dá conta de ser efetivamente educador ganhando o que se ganha). Na verdade, muita gente que está na educação infantil escolheu Pedagogia porque era o curso mais fácil para passar no vestibular. Ou seja, não dava para garantir vaga em Medicina, Arquitetura, Direito… Optou-se, então, pela Pedagogia.

Resultado? Em sala, temos gente sem aptidão para o ensino, formação inferior e pouco compromisso com a formação do aluno.

Talvez por isso seja comum ouvir de alunos depoimentos como já escutei de minha filha. Entre outras histórias, lembro de uma vez em que uma professora substituta, sem controle da sala, reclamou dos alunos e saiu com um dessas:

– Vocês são terríveis. Fiquem quietos! Eu devia ter ficado em casa cuidando da minha filha.

Não duvido que as crianças estavam deixando-a completamente maluca. Nem que ela preferia estar com a filha. E por motivos justos. Mas o despreparo, a tensão, a frustração mostram-se evidentes.

E, como disse, o Estado não ajuda – paga mal e vê a professora mais como uma segunda mãe que efetivamente como uma educadora.

Existem exceções? Sim. Felizmente. Existem professoras comprometidas. E são elas que motivam a molecadinha a aprender.

Para elas, resta nosso reconhecimento. Reconhecimento de poucos, é preciso dizer. Infelizmente, nem a sociedade vê os professores como deveria ver. Mas essa é uma outra história…

A vida é um eterno recomeçar. Então, por que não hoje?

Acho que não tenho uma música favorita. Entretanto, vez ou outra escuto uma canção que me toca profundamente. Hoje, lembrei dela após uma conversa. Parei por alguns instantes, liguei o som, coloquei o fone de ouvido e fiquei ouvindo…

O trecho que mais me chama a atenção diz:

O tempo não para nem pode parar, mas me dá a chance de recomeçar.

Entendo que não há nada mais precioso que a maneira como administramos nossa vida nesse eterno jogo com o tempo. E o tempo sempre nos convida a recomeçar. Cada tic-tac do relógio é um aviso: dá para começar de novo, de novo e de novo.

Sabe, aquele barulhinho soa como música aos ouvidos. Ele não avisa apenas que o tempo passa. É como um grito, um apelo para que aproveitemos a oportunidade de um recomeço.

Conheço tantas histórias infelizes. Conheço tanta gente frustrada, magoada, perdida. Gente que se perdeu em sua própria história e parece incapaz de escrever algo novo.

Todas as vezes que vejo gente assim, lembro da música. E lá está o recado. O mesmo tempo que não para é o que avisa: se o relógio nunca retrocede, por que devemos retroceder?

O tempo não volta, o relógio não para. É a vida que segue.

Deu tudo errado na escola? Agora pode dar certo.
A carreira projetada não decolou? Dá para tentar um novo projeto.
Viveu desencontros no amor? Uma nova paixão pode bater a sua porta.

A vida é assim… Um eterno recomeçar. Apenas não podemos perder as oportunidades. Não dá para passar nossos dias vislumbrando um recomeço e nos esquecer que a nossa chance é agora. O depois não existe.

Portanto, esquecendo o que passou, o tempo nos convida a recomeçar. Hoje.