O que a Xuxa não disse

O Brasil amanheceu comovido nesta segunda-feira. O depoimento de Xuxa ao Fantástico deu ao programa recorde de audiência e sensibilizou muita gente. Em qualquer página da web, encontramos algum tipo comentário sobre a entrevista. Claro, o assunto que mais tocou o público foi o fato de a apresentadora global ter sido vítima de abuso sexual na infância e na adolescência.

Semelhante a todos que gostam de Xuxa, ou têm o mínimo de humanidade, também fiquei triste pelo drama vivido pela ex-modelo. A violência sofrida, como ela admite, está gravada na memória e ainda a influência, atingindo principalmente sua autoestima.

Entretanto, não vou discutir o depoimento corajoso de Xuxa. Vou na contramão, como tenho me proposto a fazer por aqui.

Ressalto que, o que ela fez em rede nacional, foi um ato digno. Nunca precisaria se expor. Mas fez isso pelas causas que defende, pelo que acredita. E só isso já seria suficiente para aplaudi-la.

Xuxa não disse o que disse para aparecer. Talvez tenha sido um tanto ingênua (diria que foi), mas foi movida pelas coisas em que acredita.

Porém, entre a entrevista concedida e o que a apresentadora pretendia, penso, há uma grande distância. Basta olhar a repercussão.

Alguém viu alguma discussão sobre os problemas reais apontados por Xuxa?

Vamos relembrar:
– Quando criança e adolescente, Xuxa foi vítima de abuso sexual, e mais de uma vez;
– Os criminosos eram conhecidos da família;
– Ela não teve coragem de contar para os pais;
– Os pais não notaram o que estava acontecendo.

O que aconteceu com Xuxa há quase 40 anos é o mesmo que acontece todos os dias, silenciosamente, com centenas de crianças e adolescentes. Parece até haver um script. Criminosos e vítimas repetem esse lamentável roteiro: crime, intimidação, medo, silêncio e impunidade.

Por medo, Xuxa não denunciou. Por medo, crianças e adolescentes não denunciam. E o que acontece? Nada. O que o depoimento da apresentadora trouxe de novo? Apenas a admissão de que as vítimas são indefesas e, geralmente, nem os próprios pais acreditam nelas.

Ontem, no Fantástico, hoje, nas redes sociais, blogs e na imprensa, ninguém discutiu e nem está discutindo como romper com a lógica cruel desse tipo de crime. Xuxa não tinha por que mostrar o caminho para mudar esse cenário. Mas o Fantástico podia fazer isso. A imprensa poderia estar fazendo isso. No entanto, o que temos? Apenas o show, o espetáculo com o passado dramático da mulher mais famosa do Brasil.

A audiência do Fantástico bombou. Quem está reproduzindo, e até fazendo piada de outros temas levantados pela Xuxa, também está aproveitando-se do que impacto do que ela disse.

E o que mais dá para ver? Gente que diz:

– Coitadinha da Xuxa.
– Que triste isso, né?
– Tá explicado por que a Xuxa nunca casou.
– Que mulher de fibra é a Xuxa.
– Que coragem a Xuxa teve de admitir…

Para além disso, o que há? Nada.

Não sei se era isso o que a Xuxa desejava ao falar ao Fantástico. Não creio que ela esperasse que seus fãs sentissem pena dela. Acho que a apresentadora sonhou que sua declaração pudesse provocar comoção, mas que a violência, o abuso sexual contra crianças e adolescentes pudessem entrar na pauta cotidiana da sociedade.

Pelo menos por enquanto, não é este o efeito da entrevista. Até o momento, a declaração serviu para emocionar, fazer chorar, fazer rir. Lamentável. Reflexo de um país onde imprensa e sociedade ainda não parecem maduras para transformar dramas em busca de respostas, em soluções para os problemas que afligem não apenas alguns indivíduos, mas milhares de pessoas.

PS- Ainda há tempo para discutir de maneira séria o assunto. Não o crime contra a Xuxa, que ficou no passado. Mas o que fazer para pôr fim ao que acontece com outras tantas vítimas anônimas, diariamente.

Na segunda, uma música

Não gosto de homenagens atrasadas. Este espaço está aberto há quase dois anos. Entretanto, nunca havia compartilhado uma música do Bee Gees. Hoje, trago aqui uma canção da banda por conta da morte de Robin Gibb, que junto com os irmãos Barry e Maurice, formaram um dos grupos de grande sucesso na música.

Robin morreu vítima de um câncer de colo e fígado. Desde 2010, o cantor lutava contra a doença. Porém, Robin preferia não falar sobre o assunto. Por exemplo, no último mês de novembro, após ser internado, preferiu dizer aos fãs que estava tudo bem e no caminho da recuperação.

Neste ano, Robin estava lançando um primeiro disco solo. Uma parceria com o filho, RJ. A obra serviria para lembrar a tragédia do Titanic.

Apesar da morte, o cantor faz parte da lista de artistas eternizados. A carreira construída, os shows memoráveis, os inúmeros sucessos do Bee Gees ressaltam a importância da banda.

A trajetória começou ainda na década de 1960. Como poucas bandas, o Bee Gees soube renovar-se. Transitaram por diferentes gêneros – do rock psicodélico às baladas. No repertório tem rock, disco, country, romântico, pop rock… E nos mais de 40 anos de carreira, o grupo parou, recomeçou, parou de novo… Não faltaram brigas, desencontros. Nem reconhecimentos, prêmios e homenagens. Ao todo, mais de 250 milhões de discos vendidos.

Por tudo que o grupo representa, não dá para escolher uma música que resuma o Bee Gees. Ainda assim, me atrevo a escolher uma canção, How Deep Your Love.

Vamos ouvir?