Todos perdemos

A frase é do vereador Belino Bravin. Ouvi dele minutos depois da sessão dessa quinta-feira, quando todos estavam mais calmos. Conhecedor do cotidiano da Câmara de Maringá, Bravin sabe bem o que significou a votação do salário de R$ 6,9 mil para a legislatura 2013-2016. Embora todos os parlamentares tenham sido favoráveis, ninguém parecia de fato satisfeito com o resultado.

É desnecessário repetir aqui as cenas desta novela. Porém, esse derradeiro capítulo, mostrou como um erro pode levar a uma sequência de erros em que todos saem derrotados.

O aumento abusivo para R$ 12 mil, a votação na surdida, a tentativa de driblar a imprensa motivaram uma reação popular não prevista pelos vereadores. Entidades representativas e a própria população não aceitaram o subsídio. E tudo que a Câmara conquistou na atual legislatura – moralização, corte de comissionados, controle dos gastos etc – foi jogado por terra.

Os 13 votos favoráveis desta quinta-feira não mostraram unanimidade. Apenas desespero, tentativa de pôr fim ao fantasma que os persegue: o efeito da opinião popular nas eleições municipais de outubro.

O novo salário também não recupera a imagem do Legislativo. Nem dos vereadores. Como num jogo, escolheram as estratégias erradas. E não perceberam que se deixaram consumir por sentimentos mesquinhos. A aprovação foi por birra, revanche.

Os R$ 6,9 mil não significam o subsídio desejado. E o povo sabe disto. Apenas evidenciam a tentativa de impedir Humberto Henrique tornar-se o “herói” da redução dos salários. O petista foi associado ao pequeno grupo de manifestantes que se organizava pela internet. E, como Humberto garantia o holofote da imprensa enquanto os manifestantes distribuíam pizza no plenário, tudo que os demais parlamentares não aceitavam era que o petista aumentasse seu capital eleitoral tendo uma proposta dele aprovada no plenário.

Depois de o valor de R$ 8 mil ter sido rejeitado, a chance de aprovar um subsídio entre R$ 9 mil e R$ 9,5 mil cresceu bastante. Porém, temia-se que o petista apresentasse uma emenda com valor inferior. Para não permitir que isso acontecesse veio a infeliz proposta: R$ 6,9 mil. Não há cálculo matemático para se chegar a esse montante. É apenas um número. Um número construído sob motivações político-eleitorais.

Não há conquista nesse valor. Nem se trata de uma vitória da população. O povo estava descontente, mas não tinha uma proposta. Na verdade, para o eleitor, qualquer salário é muito dinheiro para um político.

Este valor não repõe a inflação projetada para este ano – o subsídio atual é de pouco menos que R$ 6,7 mil. Corrigir as “perdas” dos últimos anos elevaria o ganho para algo entre R$ 8,1 mil e R$ 9,7 mil – dependendo do índice aplicado.

Seria muito dinheiro? Depende para quem se paga. Pela importância do Poder Legislativo, não é caro pagar um salário desses para um parlamentar, desde que seja eficaz. Pouca gente se dá conta do estrago que um vereador ruim pode fazer. Nem percebe que o dinheiro que ele recebe na folha de pagamento é o que menos importa.

Por isso, a sociedade maringaense também não tem muito o que comemorar com a aprovação dos R$ 6,9 mil. Poucas pessoas sérias e comprometidas com o bem comum têm disposição de participar da corrida eleitoral para ganhar esse valor (que, descontado INSS e IRPF, representa cerca de R$ 5 mil líquido).

Outra questão, um novo subsídio só poderá ser votado para 2017. Quando chegarmos em 2016, é provável que os deputados ganhem quase R$ 30 mil. O subsídio deles é referência para o cálculo do salário dos vereadores. Sabe o que isto significa? Daqui a quatro anos, essa novela vai se repetir. Haverá outros defensores demagógicos da manutenção dos valores e quem vai pedir os 60% dos deputados. Ou seja, quase R$ 18 mil.

Repito, o subsídio é o menor dos problemas. As pessoas parecem ignorar o fato de que o ganho menor aumenta a tentação para o recebimento de “incentivos” na votação de projetos e retenção de parte dos salários de funcionários dos gabinetes. Afinal, quem lembra que o funcionário menor remunerado nos gabinetes recebe mais de R$ 3 mil? Quem lembra que o chefe de gabinete ganha cerca de R$ 5,5 mil?

Todos perdemos. A frase do Bravin resume o que ocorreu na tarde desta quinta-feira. Os vereadores não demonstram maturidade e foram infantis na discussão sobre os salários. Os movimentos populares – inclusive das entidades de classe – perderam-se no tom do discurso e não levantaram a principal pauta: a qualificação do Legislativo. E sem qualificação não há garantia de que teremos uma Câmara melhor na próxima legislatura.

As lições que ficam:
– a pressão da sociedade funciona;
– gente mobilizada pode virar o jogo;
– vereadores temem a opinião popular;
– a ameaça das urnas é a ameaça mais eficaz.

Só precisamos ter um pouquinho de bom senso e não permitir que a política – da politicagem – silencie a razão.

Então, por que não pensarmos nisso no primeiro domingo de outubro?

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4 comentários em “Todos perdemos

  1. Verdade Ronaldo, com todo o respeito, mas tenho a obrigação de esclarecer que o movimento não está atrelado a nenhum dos vereadores da atual casa e a aprovação desse valor foi o grande equivoco dos “birrentos” que queriam sim a manuteNção dos R$ 12 mil.
    No entanto, o movimento vai continuar com a mobilização e o assunto ainda não está encerrado! Esperamos que os meios de comunicação, que foram determinantes, mais do que qualquer movimento de internet, não aceite esse CHAPÉU dos vereadores e continue divulgando o que estará acontecendo. Vejo pela lucidez do seu artigo que isso não irá ocorrer, sei que depende de alguns compromissos que alguns órgãos de imprensa tem com determinados financiadores e patrocinadores, o que é normal que ocorra! A revogação dos $uper$alários dos Vereadores de Maringá é uma batalha que está vencida, apesar de não ser o melhor e o desejado por todos. Porém, a responsabilidade pelo resultado não pode ser atribuida ao movimento e sim aos próprios vereadores!
    No entanto, vamos continuar o movimento e realizar um ATO DE PROTESTO E COMEMORAÇÃO PELA REVOGAÇÃO DO SUBSÍDIO DO VEREADOR E PELA CONTINUIDADE DO MOVIMENTO NA LUTA PELA REVOGAÇÃO DO $UPER$ALÁRIO DO PREFEITO, SECRETÁRIOS E VICE! Vamos sim comemorar com champanhe a vitória de uma ação de ampla participação política, com um evidente efeito pedagógico sobre uma cultura de descrédito da população que afirma que “nada adianta fazer” e que aliás, ainda não foi valorizada como se deveria. Agora vamos manter a mobilização para revogar os $uper$alários dos Secretários Municipais, Vice Prefeito e principalmente do Prefeito. Nada Justifica o Prefeito de Maringá receber mais do que o Prefeito de São Paulo!
    MOVIMENTO REVOGAÇÃO DO $UPER$ALÁRIO DO PREFEITO JÁ CONTINUARÁ! Veja a mobilização na Internet!
    http://www.facebook.com/?ref=logo#!/events/286843951410345/

  2. Nezo, texto completamente objetivo e esclarecedor. Parabéns!!!

    Certamente teremos um “vale a pena ver de novo” dessa novela daqui 4 anos, e, pode ser que pelo sucesso dela no momento, seja até feito um “remake” com outros atores (vereadores). Tudo dependerá de como agiremos nas urnas em outubro.

    Era evidente que jamais apoiariam uma proposta de Humberto Henrique, não só por birra, mas também por ele ser do PT. Dão muito mais valor a uma porcaria de legenda partidária do que ao que realmente importava, que era o valor da proposta de redução do referido vereador. Agora aprovaram um mero “número”, como você mesmo citou. Número este inferior a real necessidade e que ainda gerará polêmica no próximo mandato. Preferiram aprovar um valor ínfimo ao que de fato necessitavam apenas para “não dar o braço a torcer”, por birra, por infantilidade, agindo pior do que criança mimada cujos pais não a educam como devem. Criança agindo dessa forma é compreensível, mas adultos, eleitos pelo povo e caracterizados como “mentalmente saudáveis” para tal cargo do legislativo, é, no mínimo, inadmissível. Atuei 10 anos na área da educação e em nenhuma creche vi tal comportamento tão infantil vindo das próprias crianças, o que seria admissível.

    Se toda vez que eles aprovarem bobagens nós tivermos coragem de “tirar a bunda da cadeira” e nos levantarmos para cobrar uma mudança de postura, como foi feito agora, aos poucos vamos mudando não só a nossa cidade, mas também nosso estado e quiçá, nosso país.

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