As famílias brasileiras estão endividadas

Quer dizer, não todas. E muitas delas também têm nível de endividamento aceitável: 26,2% da renda mensal. Porém, 14 milhões de famílias já comprometeram mais de 30% do salário de cada mês com o pagamento de contas. E esse índice é preocupante. Principalmente porque são justamente as famílias mais pobres – classes C, D e E.

Mas é preciso entender a razão disso. É fácil dizer: o brasileiro está endividado. Também é simplista afirmar: pobre gasta mais do que ganha. Ou, brasileiro não sabe administrar seu salário.

Essas são verdades parciais. Não problematizam, muito menos elucidam a questão.

O brasileiro está endividado – e fazendo novas dívidas – porque, nos últimos anos, descobriu o crédito. E, ganhando um pouco mais, acreditou e experimentou uma vida melhor.

Nosso povo sempre foi pobre. Ao longo da história, sofreu restrições. Gente simples, morando de forma precária e tendo poucos bens de consumo. Depois do Real, as pessoas começaram a comer melhor, vestir melhor. Mais que isso, conheceram o prazer do consumo.

As demandas eram – e são – reais. Nunca foram imaginárias. O povo não tinha geladeira boa, não tinha máquina de lavar moderna, o mobiliário doméstico era velho (quase sempre, herança de família e dos presentes de casamento), os eletrônicos restringiam-se a um aparelho televisor e rádio. Carro e motocicleta eram bens de poucos.

O crescimento econômico do país – com geração de emprego e renda – mais os programas sociais dos governos proporcionaram o clima ideal para o cidadão sentir-se no direito de gastar. E gastou. Está gastando. E tem razão pra isso, pois as carências ainda são grandes.

Muita gente gasta sem necessidade? Sim. Compra supérfluo? Sim. Entretanto, só quem lava roupas sabe o que significa trocar uma máquina com sete anos de uso, capacidade para cinco quilos, por outra maior e mais moderna.

Além disso, o sujeito é pobre, ganha menos de três mínimos, mas pensa:
– Quero andar de carro novo;
– Estou precisando de um sofá melhor:
– O guarda-roupas das crianças está com a porta caindo;
– A mola do colchão já está “cutucando” minhas costas;
– Quero uma tevê no quarto para assistir só eu e minha mulher;
– A molecada está cobrando computador;
– Esse negócio de Facebook é legal, mas tenho que instalar internet em casa;
– etc etc.

A renda do camarada já está comprometida, mas a lista de necessidades segue lá. É extensa. E seu desejo de consumo é justo.

Como o apelo do mercado é forte, a oferta de crédito não para de crescer, o governo incentiva o consumo, o cidadão vai na loja e gasta. Pode ter feito bobagem, comprometido seu equilíbrio financeiro. Porém, de imediato, sente o prazer de sentir-se gente, parte do todo.

É isso que as notícias frias de economia não mostram. Há uma lógica atrás dos gastos. Há uma razão para esse endividamento. E aquelas explicações de sempre não são suficientes para justificá-lo.

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2 comentários em “As famílias brasileiras estão endividadas

  1. As frias notícias de economia também não nos dão conta de que nossa política de desenvolvimento é falha, caríssimo.
    Sim, a geração de emprego e renda são realidades modernas e despertaram o poder de compra da população. Este poder legitimado pelo mercado, entretanto, não é tão grande quanto estamos acostumados a acreditar. Mercado e governo sabem disso.
    Nossa política de consumo tenta reverter a medíocre economia pautada pela exportação de matérias-primas. Não as industrializamos aqui e, com custos altamente elevados, temos de comprá-las como produtos acabados. O país se torna refém de sua própria incapacidade de crescer.
    Assim, fica muito mais fácil mascarar o patrimonialismo secular por incentivos econômicos do que repensar questões estruturais de governo e comércio. E à esta herança política é que se devem medidas paliativas, como a redução de IPI para carros ou eletrodomésticos.
    Se o índice de desemprego é baixo (6% em abril), a mão-de-obra, no entanto, não é qualificada e os salários, desta forma, sofrem reajustes enxutos. E as pequenas cifras mensais não são capazes de cobrir tamanho consumo. Seis em cada 100 carros financiados estão com parcelas atrasadas há mais de três meses e o governo, mais uma vez, implantou medidas de incentivo para compra de automóveis.
    Estamos comprando mais, comendo melhor e satisfazendo nossas necessidades e vontades. O problema é que assim o fazemos confortados em projeções, num dinheiro que ainda não existe. Nosso poder de compra, ao contrário do que nos subentendem governo, frias notícias e mercado, nem se equipara a solidez de grandes instituições para crises.
    Para consolidar crédito e consumo, há de se articular novas formas de relação com o mercado. Antes, porém, livrar-se do patrimonialismo hegemônico e pensar sua estrutura econômica, educação e infra-estrutura é dever de uma política que se intitula emergente.

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