Olha o tamanho da saia dela

Shortinho, saia curta, um decote mais ousado, roupa colada… traduzem desejo imediato por sexo? Significam que a mulher é “fácil”? Evidenciam que ela está disponível? Mostram que quer ser “cantada”?

Pode ser que sim. Pode ser que não. Depende. Mas, de modo geral, quem pode dizer que a escolha da roupa não é apenas para sentir-se bem?

É verdade que as mulheres dão significado para as roupas. Bem diferente de nós, homens. A maioria delas se veste de maneira consciente. Sabem o que querem. Mulher não pega a primeira peça disponível no guarda-roupas. Entretanto, é simplista categorizar as mulheres pelo tamanho da saia.

Claro, mulher se veste sim para sentir-se gostosa. Mas, quando faz isso, não significa que saiu de casa disposta a transar. Muito menos com o primeiro sujeito que apareça.

Os homens confundem isso. E a sociedade, moralista que é, julga.

Dias atrás, li o depoimento de uma mulher sobre essa questão. Ela disse:

Chega de sermos recriminadas e discriminadas nas ruas porque usamos saias, leggings, regatas, vestidos justos, chega de sermos reprimidas e intimidadas porque somos mulheres, porque somos femininas e porque queremos nos sentir sensuais (…)! Não é porque uso saia que sou puta!

Foi justamente sob esse argumento que tem se sustentado a Marcha das Vadias. Organizada em várias cidades do Brasil, mulheres de diferentes idades têm ido às ruas pedir respeito. Querem o direito de, trajando uma burca ou usando um shortinho, não sofrerem preconceito. Não serem tachadas de vagabundas, vadias, putas.

Uma das denúncias da Marcha é o assédio, o abuso sexual, os casos de estupros, porque supõe-se que mulher com pouca roupa seja um convite ao sexo. E pior, a sociedade por vezes aprova esse tipo de crime. Não é raro ouvir coisas do tipo:

– Ela foi estuprada? Ah… mas você viu o tamanho da saia dela? Fica mostrando a bunda e não quer ser estuprada?

Transferimos a culpa de um crime para a própria mulher. É moralismo barato, preconceituoso.

Roupas tratam da aparência. Revelam personalidade. Mas não dizem sobre a vida sexual da mulher. É vulgar? Talvez. É provocante? Com certeza. Insinua, mexe com a libido. Entretanto, mostrar o corpo é uma escolha pessoal. O traje é escolha, é exercício da liberdade – inclusive sexual. Isso não nos dá o direito de julgar ninguém. Muito menos de rotular uma mulher como prostituta.

Sabe, a discussão que proponho não é baseada num gosto pessoal. Não é uma defesa do que a mulher deve vestir. Cá com meus botões, ainda acho que mostrar menos é mais elegante. Valoriza a própria beleza, deixa um ar de mistério que intriga e seduz. Porém, a reflexão é sobre nossa hipocrisia, é a respeito da liberdade, do resgate da razão e do respeito ao outro. A gente rotula produtos, mercadoria. Somos pessoas, somos humanos. E isso não tem a ver com a roupa que usamos.

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2 comentários em “Olha o tamanho da saia dela

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