Dor se deixa doer

Foto: Pedro X. Moreira

Às vezes, não há desejo, não há vontade. Nada. Só o sentimento de abandono. Busca-se paz. Onde encontrar? Espírito inquieto, mente confusa, corpo trêmulo… Tensão. Não parece haver razão para tamanha inquietude. Mas dores da alma não se explicam.

Há dias em que tudo que sobra é o vazio. Vazio absoluto. Pelo sim e pelo não, segue-se vivendo. Vivendo ou sobrevivendo? Não dá para saber. Viver é estar, é sentir, é notar, ser notado, amar e ser amado. Sobreviver é meio assim, assim… Deita-se e acorda-se, passa-se o dia. Mantém-se vivo. Vivo por ainda haver existência. Porém, morto para as emoções, para os sentimentos.

As buscas são insanas. O destino é desconhecido. As pessoas próximas são apenas números. Esbarro, ouço, falo. Existem, mas não estão em mim. Não as sinto. São rostos, são sorrisos… Ou lágrimas. Mas nada significam. Estou mergulhado em mim. Os outros são os outros. Neste mergulho, os sentimentos estão perdidos. Dor ou prazer parecem ser uma só coisa.

Quem sou? Onde estou? Para onde vou?

Vez ou outra, sentimo-nos assim. São sentimentos humanos. Nessas horas, nada e nem ninguém podem tornar nossos dias melhores. E quem se envolve, tenta ajudar, talvez se veja impotente, um estranho caminhando por estradas desconhecidas em meio à escuridão.

Não, não há jeitinho. Não existe um “faça isto e você vai ficar bem”. Auto-ajuda é coisa para iludidos. E emoções intensas podem ser confusas, mas não se enganam com palavras bonitas. Dor se deixa doer. Experimenta-se sem fuga até o ponto de, nesse mergulho, encontrar-se e voltar a ver o brilho do sol, a beleza da vida. Por alguns instantes, será possível respirar…

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