Decepção, nossa eterna companheira

Vez ou outra nos decepcionamos. Decepcionamo-nos com os outros e também com nós mesmos.

A decepção é uma espécie de frustração. Espera-se algo e nada acontece. Ou porque o outro não atendeu nossas expectativas ou porque não fomos capazes de fazer aquilo que desejávamos.

Não tem jeito. Esse sentimento sempre vai existir. Faz parte da vida.

Dias atrás vi um texto sobre o assunto escrito pelo Professor Ozaí. Ele é ótimo. E tem argumentos mais profundos que os meus. Eu sei falar das nossas emoções. Apenas isso. E, enquanto lia, pensava nas diferentes situações cotidianas que nos decepcionam.

Sabe, a gente só se decepciona com quem está perto, com quem se convive e confia. Gente distante, que não faz parte daqueles por quem temos afeto, não causa decepção. Não esperamos nada dessas pessoas. E se nada esperamos, elas têm pouca influência sobre nossas emoções e sentimentos.

Então, é justamente por estar próxima, por convivermos, por confiarmos, que uma atitude do outro pode nos magoar tão profundamente.

É verdade que tem gente que se magoa fácil. Qualquer coisa é suficiente para ficar de biquinho. Entretanto, a decepção é um sentimento mais profundo. É algo que machuca pra valer e, por vezes, quebra o laço de confiança.

Uma traição causa decepção. Mas nem precisa ser um caso de infidelidade para fazer sangrar o coração.

Você se decepciona quando conta um segredo pra um amigo e descobre depois que ele espalhou sua intimidade pra outras pessoas. Você se decepciona quando, depois de anos de amizade, espera um abraço amigo após a derrota e só recebe um olhar de reprovação. Você se decepciona quando aposta todas as fichas em alguém e a indica para um trabalho e, dias depois, percebe que o sujeito é incapaz de cumprir com suas tarefas. Você se decepciona quando espera um carinho da pessoa amada no momento em que está triste e ela sequer nota suas lágrimas. Você se decepciona quando se entrega completamente e não tem do outro nada mais que algumas migalhas de atenção.

Perdoar pode ser a saída? Sim. Perdoar sempre será necessário. Afinal, nunca vamos saber os verdadeiros motivos de quem nos magoou. Entretanto, a gente precisa perdoar pra preservar nossa sanidade mental. Não significa aceitar a convivência eterna com alguém que nos feriu. Mas, quando decepcionados, perdoar é mais que dizer: “ah… está tudo bem; esqueci”. Isso não existe. Perdoar nesses casos é fundamental para não transformar a existência num mar de amargura. É reconhecer que sempre vamos nos decepcionar. Faz parte do próprio ato de viver. E conviver. É reconhecer que, mesmo isolados, haverá momentos em que seremos o motivo de nossas decepções.

Na segunda, uma música

Embora nunca tenha deixado de curtir Marisa Monte, nos últimos anos fiquei com a impressão que a artista tem apresentado “mais do mesmo”. Seus álbuns, ainda que bem elaborados, parecem releituras do que a cantora e compositora tem feito desde o início da carreira. Essa visão, porém, mudou bastante após a entrevista dela ao programa Almanaque, da Globo News. Na conversa com Zeca Camargo, Marisa demonstrou que faz de sua música uma arte dela, no tempo dela, que toque e fale pra ela. Sem pressão, sem medo de o disco encalhar nas lojas ou não vender shows.

Talvez seja só um discurso, uma expressão de quem tenta fazer de sua arte uma arte desligada do mercado, das motivações por agradar, encantar… E faz sim tão somente pelo desejo de se sentir bem. Ainda assim, a fala de Marisa me agradou. Afinal, são poucos aqueles que conseguem produzir pelo próprio prazer.

A entrevista ainda me fez parar e sentir a beleza simples da canção “Depois”. Ainda que fale de despedida, do fim de um amor, mostra carinho, gentileza, respeito pelo outro. É singela, mesmo a despedida. Quantos fazem isso hoje? Nas músicas, principalmente estas que mais tocam nas rádios e dão ritmo aos carros que trafegam por nossas cidades, ouve-se muito mais rancor, raiva e até desprezo pela pessoa que um dia já viveu em seus braços.

Por tudo isso, escolhi “Depois” para esta segunda-feira. Vamos ouvir?