As cartas que hoje fazem falta

As tecnologias mudaram nosso jeito de ser. Alguns hábitos se foram; outros se estabeleceram. Dois costumes perdidos, porém, fazem falta. Não pra mim, é verdade; pois nunca os tive. Entretanto, uma pensadora que estou estudando me convenceu que deixar de escrever cartas e o diário pessoal trouxe perdas consideráveis.

Os argumentos da autora são interessantes. E em especial me fizeram pensar no assunto. Cheguei à conclusão que, ao abandonar tais hábitos, abrimos mão de pensar sobre nós.

Hoje ninguém manda cartas. No máximo, deixamos um recadinho para os amigos no Facebook. Mas, olha que coisa… As cartas motivavam as pessoas a contar a própria história, os relacionamentos, o dia a dia da família, o contato com os amigos, os sucessos e os fracassos nos estudos, no trabalho. Escrever uma carta era quase um evento. Era um momento de parar tudo e se deixar envolver pelas lembranças, pelos fatos ocorridos desde o último contato com o destinatário. As cartas provocavam a memória. Ainda que, por vezes, num tom saudosista, revivia-se no ato de escrever momentos já vividos.

Os diários pessoais faziam ainda mais. Além de mexer com as memórias, revivê-las, escrever algo tão íntimo era uma forma mergulhar em si mesmo, conhecer-se, dar vazão aos sentimentos, às emoções. Ao escrever, a pessoa era levada a pensar sobre si mesma, sobre gostos, preferências, tristezas, alegrias, decepções, surpresas…

Isso pode não parecer muito significativo, mas é. A gente vive um momento de abandono dos sentimentos. Abandono do ser. Não conhecemos a nós mesmos. Não valorizamos os pequenos gestos, os pequenos acontecimentos. As cartas e os diários registravam esses momentos. Faziam reviver e guardavam para o futuro muito de nossa história. Eram oportunidades de contemplarmos a própria vida e as coisas do nosso coração. Hoje, somos muito o que sentimos aqui e agora… para esquecer no minuto seguinte. Tudo tem que ser intenso demais para ser lembrado. Como a memória nos trai e a quantidade de informações é imensa, sofremos amnésia. Resultado: quase sempre ficamos com as piores recordações.

Na segunda, uma música

Faz tempo que “ensaio” compartilhar aqui uma música do Maroon 5. O argumento era sempre o mesmo: a banda parece não combinar muito com meu estilo. Acho que a expectativa dos outros me fez acreditar nessa imagem: sou um bocado tradicional. Entretanto, o que uma coisa tem a ver com a outra, né? Os caras têm um som legal. A galera gosta. Meus filhos curtem… Então, por que não?

A banda americana de pop rock tem influências do soul, funk e R&B. Surgida em 1995, ainda no colegial, a banda só se descobriu como tal quando os integrantes já estavam na faculdade. Nos primeiros anos, usavam os corredores e os dormitórios para tocar música gospel.

Inspirados por Beatles, Bob Dylan, Simon & Garfunkel e Stevie Wonder, os rapazes foram descobrindo o prazer de criar as próprias músicas, desenvolvendo uma identidade própria que acabou despertando o interesse das grandes gravadoras.

No início dos anos 2000, já com o nome definido, o grupo gravou os primeiros sucessos. Escolhi para esta segunda-feira, “Payphone”. A música não foge ao estilo da banda: falar de sentimentos de um jeito sincero, sem medo de ousar, de emocionar.

Eu sei que é difícil recordar
As pessoas que éramos
É ainda mais difícil imaginar
Que você não está aqui ao meu lado
Você disse que é tarde demais para conseguir
Mas será tarde demais para tentar?
E no nosso tempo que você desperdiçou
Todas as nossas pontes foram queimadas.