Jogadores: profissionais ou mercenários?

Enquanto lia a Folha de São Paulo, esbarrei numa crítica feita por um leitor à premiação que será dada pela CBF aos jogadores do Brasil, caso a seleção conquiste o inédito ouro olímpico. A lógica do sujeito é bastante simples: os atletas deveriam ter prazer em vestir a camisa amarela e defender o país. Para o leitor, brigar pelo título é uma obrigação patriótica.

Eu achei curioso o comentário. Fiquei pensando no que ele disse. Algumas perguntas surgiram:

– Defender a seleção brasileira é defender o país?
– Conquistar um título olímpico é obrigação do atleta?
– O jogador deve defender a seleção por prazer?
– Jogador de seleção não deve ser remunerado por isso?

Olha, eu entendo que o jogador convocado deve sentir-se honrado. Também penso que, em campo, deve dar o melhor de si. Concordo que precisa estar comprometido com o grupo e brigar por títulos. Entretanto, a seleção brasileira não é a nossa seleção. Ela é da CBF, uma entidade privada e altamente lucrativa.

Quem joga pelo Brasil não joga pela nação. A tese do patriotismo, de um grupo de atletas como representantes de um país, é apenas uma estratégia de mobilização das massas. Nós, torcedores, nos sentimos parte. Há um apelo para isso. E nós somos seduzidos por esse apelo, pois vibramos, choramos, rimos juntos com o time. No entanto, a seleção não é do povo. Não atende uma demanda pública e social. Ela faz parte de um mercado, um mercado específico, mas tão voltado para o capital quanto qualquer empresa.

Mesmo numa competição, como as Olimpíadas, a demanda do esporte não é pela saúde, pela competição, pela representatividade de uma nação. A competição segue uma lógica de investimentos, patrocínios… e algumas milhares de pessoas são diretamente beneficiadas com os lucros resultantes do evento. O país-sede até pode ser beneficiado. Mas ainda assim não se pode ignorar os investimentos bilionários feitos para receber o evento. E nem o fato de que o país – representado pelo Estado – pouco – ou nada – pode interferir na organização da competição.

E neste contexto quem são os atletas? São profissionais. São os operários do espetáculo. São eles que dão o show, que resulta em grandes públicos nos estádios, arrecadações milionárias, audiências impressionantes na televisão, patrocínios significativos para confederações esportivas etc etc. Então, por que não devem ser remunerados? Por que devem jogar apenas pelo prazer? Qual a justificativa para gerarem lucro para entidades como a CBF e não receberem por isso?

O tempo da prática esportiva por paixão já passou. Hoje, os atletas são profissionais. Entram em campo, entram em quadra, mas querem ser pagos por isso. Essa é a lógica que faz funcionar a engrenagem do mundo capitalista. Não seria diferente no futebol, no vôlei, no basquete e em nenhum outro esporte.

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