Gente assim pode casar

Talvez eu seja tão somente um romântico incorrigível… Mas eu acredito no casamento. Sei que a maioria não será “até que a morte os separe”, entretanto ainda penso que casar é bom. E deixa eu explicar… casar como um ato de estarem juntos, de sonharem juntos, de dividirem uma vida, de terem uma vida em comum. O casamento como cerimônia é só uma festa. Exagerada, por sinal. Hoje, custa caro e, por vezes, compromete a vida financeira do casal nos primeiros anos de relacionamento. Tem gente que chega a demorar anos pra casar não por dúvidas a respeito dos sentimentos, mas porque quer fazer uma cerimônia pomposa.

Mas, apesar de defender o casamento, penso que viver a dois não é pra qualquer um. É pra gente resolvida, que sabe o que quer, que tem disposição pra ser feliz e pra fazer feliz. Gente carente é potencial parceiro-problema.

Lembro-me de ter lido recentemente uma ideia que cheguei a guardar:

O casamento não foi feito para os que estão doentes por falta de amor, mas para os que sabem amar.

A frase resume uma verdade. Casamento é pra quem sabe amar. Quem reclama ser amado, vai ser infeliz. E fazer o outro infeliz.

Casamento não é conto de fadas. Dá trabalho. E muito. Exige dedicação, disposição pra fazer dar certo. São duas pessoas diferentes e com expectativas distintas pra uma vida juntos. Se não negociarem bem, cada movimento dos antigos apaixonados criará um turbilhão de problemas. E tem que amar. Amar muito. Amar como ato de doação, porque virão dias em que você não vai se sentir amado. E se a sensação de não ser querido tornar-se uma cobrança, o que pode ser apenas uma situação momentânea resultará em desamor, conflito, crise… e até infidelidade.

E o que mais gosto da frase é que ela traduz algo que pode escapar num primeiro momento. Não é apenas ter amor pelo outro. É saber amar. Porque tem gente que ama o parceiro, mas não sabe amar. Ama, mas faz tudo errado. Existe sim jeito certo e jeito errado de amar. Tem gente que ama e só machuca o outro. E ainda diz:

– Mas eu amo tanto…

Ama, mas ama do jeito errado.

Portanto, casamento não é pra gente que está com problemas em casa, sofre com os pais, é carente… e anda precisando de alguém que diga todo dia: “eu te amo”. Esse tipo de pessoa precisa de tratamento, de terapia. Casamento é pra quem tem muito amor pra dar. Tem amor e sabe dedicar esse amor.

E, como diz São Paulo, num pensamento que chegou a inspirar Renato Russo:

O amor é paciente, é benigno, o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz incovenientemente, não procura seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

Sim, tem jeito inconveniente de amar. Os próprios escritos sagrados dizem isso.

Saber amar é não se deixar consumir pelo ciúme e nem tornar a vida do outro um inferno por conta disso… É aceitar a diferença, ter disposição pra perdoar… É sofrer os dias maus, mas é acreditar e construir, com esperança, os dias bons. É ter as palavras certas; é saber calar, quando for preciso; é romper com o egoísmo; é não se apegar aos pequenos desencontros cotidianos e torná-los motivos de desavença (uma toalha na cama, um arroz queimado…). Saber amar também não é tolerar a injustiça no relacionamento, porque quem ama o outro, primeiro, se ama.

Gente que sabe amar assim… pode casar.

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