A morte silencia tudo

Foto de Dur Maciel. Ensaio com a atriz Thaís Siegle

Uma leitora sugeriu que eu escrevesse sobre perdas. Quis entender melhor… O recado havia sido deixado no Facebook então questionei:

– De que perdas estaria falando? Mortes?

Ela respondeu que sim.

Sinto-me desafiado a falar sobre o tema. Não me sinto preparado, reconheço. Mas quem está? Alguém teria sonhos “cor-de-rosa” com o fim da existência? É sim possível encará-la com a tranquilidade de um Sócrates, mas nunca sem senti-la como o esgotamento de uma possibilidade única, não retornável, intransferível.

Sinceramente, evito pensar na morte. Ela não exerce nenhum fascínio sobre mim. E espero que não apareça nenhum fanático de plantão me criticando aqui ou sugerindo que eu seja um homem de fé… Quem sabe dizendo que a morte é bênção para os que têm certeza que vão morar com Deus. Caríssimo, se está com pressa pra ir ver Deus, pode pedir pra Ele te levar mais cedo. Se quer ir ver a Glória, reclame com Ele. Eu prefiro ficar por aqui mais um tempinho.

Uma vez, lendo um dos escritos do sábio Salomão, encontrei um texto sugestivo. Ele diz que nossas insatisfações, nossa angústia diante da vida se deve a um desejo da alma por eternidade. O que o autor sugere é que fomos “programados” para desejar viver eternamente.

Talvez por isso nunca aceitemos a morte. Aqueles que têm fé, esperança… acreditam que a vida não acaba com a morte física, talvez se conformem, consigam lidar melhor com a perda de uma pessoa querida. Ou aceitem o fato de que a morte é a única certeza que temos. Entretanto, para todos, a morte significa o fim. Pode até ser o fim de um ciclo e o início de outro. Ainda assim é o fim. O fim de um tipo de existência… Familiares, amigos, colegas… Acabou tudo. Para quem foi, o desconhecido; para os que ficaram, apenas saudade, lembranças.

Por isso, não dá pra evitar as lágrimas. Quem fica, vai chorar mesmo… Se amava, vai sentir falta. Vai doer. Nada será igual. Não dá pra trazer de volta. Quem morreu… está morto. Acabou. Você pode até acreditar que a pessoa está noutra dimensão, mas o que adianta? Você não vê, não ouve, não toca, não sente… Cadê os abraços? Cadê os sorrisos? Cadê aqueles lábios, a boca, o cheiro, o gosto? Onde estão as mãos, os braços fortes? O colo?

A morte silencia tudo.

É por isso que palavras não resolvem. O que posso dizer a alguém que sofre por perder um filho, a esposa, um avô… um amigo querido? Dizer “ele está com Deus”? Falar “ele está olhando pra você?”. Nada disso repõe uma perda. Talvez ajude a criar uma espécie de ilusão. Talvez sirva como anestésico para a dor. Mas a anestesia que alivia não estanca o sangue que brota da ferida aberta pela perda da pessoa amada.

A esperança de um além acalma, é verdade. Entretanto, a morte é a mesma para todos. É separação. Por isso, entendo que morte se chora mesmo, se deixa sangrar, mergulha-se no luto… Sem negá-la. Morte a gente aceita. Compreende-se que faz parte do ciclo da vida e que perdas, mesmo que irreparáveis, são inevitáveis. Ninguém passará por aqui sem experimentá-las. Vão fazer sofrer, vão magoar, vão ferir o coração. Mas teremos que enfrentá-las, tentando encontrar motivos para seguir em frente. Sem enxugar as lágrimas, nunca veremos que o sol nasce de novo a cada dia… E que por mais que perdas deixem feridas, elas cicatrizam – ainda que as marcas nos lembrem que nada é para sempre.

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4 comentários em “A morte silencia tudo

  1. Eu sempre digo o q vc disse: a morte é a única certeza q temos na vida….o problema é a gente aprender a conviver a ausência do ente querido, Difícil…

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