Você é feia!

Ouvi a frase da boca de uma mãe. Foi dita com ênfase, após uma garotinha de, no máximo, dois anos insistir em mexer no rádio do carro. Presenciei a cena quando retornava do almoço. Fiquei incomodado. Afinal, por que rotular tão cedo uma criança? E… o que tem a ver a “arte” da menina com a aparência dela? Criança teimosa é feia? Ou é a teimosia um ato feio?

Sabe, uma das coisas que mais me entristece no processo de educação familiar são justamente essas bobagens cometidas pelos pais. Na tentativa de corrigir os filhos, eles têm reações imbecis, despropositadas, desmedidas. Não raras vezes já vi pais xingarem os filhos. E, em muitos casos, de maneira depreciativa – até do ponto de vista do caráter.

Diga-me, como vai crescer uma criança que ouve dos pais frases do tipo:

– Você não presta!
– Você é um vagabundo!
– Você não vale nada!
– Você é uma sem vergonha!

A referência que temos a respeito de nós mesmos é dada em grande medida pelo outro. E é na infância que formamos a imagem que temos do mundo, do que é certo e do que é errado… e também aprendemos quem somos. Portanto, uma mãe que diz pra filha que ela é feia, vai se desenvolver acreditando nisso. A mãe é sua primeira referência. Certamente, terá problema de autoestima. Vai ter dificuldade em se olhar no espelho e achar que é uma pessoa bonita.

Vale o mesmo para as outras frases.

Lembro de uma garota que, certa vez, foi abordada pela mãe quando provava uma calcinha. A menina tinha colocado uma dessas pequeninhas. Moralista, a mãe surtou. Xingou a filha de vagabunda, sugeriu que estava virando puta… Coisas do tipo. A garota cresceu, se tornou uma bela mulher, mas guardou o trauma. E sempre teve dificuldades para usar até uma lingerie mais ousada para o marido.

Defendo a disciplina. Acho melhor, inclusive, pecar pelo excesso (rigor) que pela falta. Penso que pais devem ser pais, não bananas. Entretanto, existe uma diferença entre disciplinar e agredir. Filhos que ouvem dos próprios pais frases como essas estão sendo agredidos emocionalmente. Vão crescer como uma imagem distorcida de si mesmos. Terão traumas e podem desenvolver traços de personalidade que se assemelham com aquilo que foi ouviram durante toda a infância e adolescência. O “não presta” de hoje, dito num momento de raiva como resposta a uma teimosia da criança (um brinquedo quebrado, às vezes), pode se transformar de fato num “não presta” na fase adulta.

Conheço gente que escutou o tempo todo “você é egoísta” e passou a agir como tal. Para se livrar do rótulo e do comportamento egoísta, teve que vencer muita coisa – superar até mesmo a imagem que tinha de si. Afinal, a pessoa chega numa fase que, quando tem uma atitude, ela mesma simplifica: “ah… eu sempre fui egoísta; minha mãe sempre disse que eu era egoísta”. E se conforma com isso.

A gente precisa entender que as palavras têm força. E, na infância, são determinantes para definir o que seremos como pessoas, como seres humanos.