Toda a verdade

Este é o título de um livro. Vi na prateleira de uma livraria. Não conheço a obra. Nem sei qual o assunto abordado. Entretanto, o título me chamou a atenção. Fiquei pensando na ideia de uma verdade em sua totalidade. Onde estaria essa verdade? Tenho medo de quem diz ter ou conhecer a verdade e ainda se orgulha disso. Duvidar é o princípio do conhecimento.

Eu gostaria de ter acesso a “toda a verdade”. Não tenho. Ninguém tem. Mal sabemos o que é verdade. Vivemos uma vida sobre a qual mal sabemos.

Tudo é maquiado, fantasiado… preparado para ser apresentado num todo coerente. Inclusive nós mesmos. Quem se apresenta com todas as suas contradições? Mesmo quem se diz autêntico faz disso apenas um discurso, uma fachada, um personagem.

A política então… é o reino da fantasia. Entre aquilo que conhecemos e o que de fato acontece existe um abismo. A fala política destinada ao povo é apenas efeito. Numa campanha eleitoral, por exemplo, busca-se a conquista do eleitor. Por isso, nada é explicado. E o cidadão se encanta, vota e nada do que foi dito durante a disputa acontece. Isso, porque a dinâmica de uma campanha é diferente da dinâmica do exercício do mandato.

As religiões também não traduzem a verdade. Podem até se basearem numa verdade, mas não a apresentam na totalidade, pois sequer a compreendem. Se a compreendessem, não teríamos tantas religiões no mundo. O que se mostra aos fiéis é um efeito de verdade, um discurso em que se cruzam explicações visando uma coerência, um convencimento.

Costumo dizer que temos acesso a fragmentos de verdade. Na relação do homem com o mundo, ele encontra sentidos para vida nesses pequenos fragmentos. Esses fragmentos ajudam a construir a ilusão de uma verdade. Constroem o que alguns teóricos chamam de imaginário popular. Temos imagens do que deve ser a família, os estudos, o trabalho, os relacionamentos… E passamos a agir de acordo com esses modelos imaginários, pois acreditamos que os modelos são reais, verdadeiros.

Isso não é todo ruim. Afinal, é o que ajuda dar sentido à existência. Porém, compreender que não conhecemos toda a verdade nos ajuda a ser mais tolerantes, principalmente com aqueles que são diferentes ou com situações que nos parecem anormais. Por outro lado, contribui para desenvolvermos um olhar crítico, questionador… um tanto desconfiado. Afinal, nem tudo que parece ser de fato é.

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