Regurgitadores do saber

Vez ou outra escuto alunos reclamando da sobrecarga de atividades. Lamentam que não possuem fins de semana, precisam estudar de madrugada, são obrigados a se debruçar sobre textos chatos, teorias aparentemente sem sentido. Olham para a rotina dos estudos como um peso, um fardo difícil de suportar. Por isso, contam as horas para as férias e, principalmente, para a tão aguardada entrega do diploma.

– Só quero acabar essa faculdade logo.

Este é o tom do discurso de muitos acadêmicos no ensino superior. Não é diferente nas séries iniciais.

Hoje, enquanto lia um texto do professor Rodrigo Zeviani a respeito de Da Vinci, voltei a pensar nessa ausência pelo desejo de aprender. Leonardo era gênio, é verdade. Porém, queria conhecer. Nada e nem ninguém o impediu de ter acesso ao conhecimento. E olha que as circunstâncias não eram favoráveis.

Por isso, me incomoda ver o discurso de nossos estudantes. Por isso, me entristece observar que, para muitos, estudar é um peso.

Ao que tudo indica, todos buscam sua “zona de conforto”. Os desafios deveriam ser a alternativa para a superação. A preguiça deveria ser combatida com todas as forças. Somos uma geração fadada às repetições. Os pensadores estão em falta.

Sim. E o que é pior, na mesma medida que alguns professores transferem a responsabilidade pelo não aprender para os alunos; muitos alunos transferem para seus professores a culpa pelo não desejo de conhecer. Por vezes, chegam a ridicularizá-los, inclusive.

Volto a me inspirar no texto do professor Rodrigo… Imaginem o que seria de Da Vinci se achasse seu mestre na pintura um “pobre coitado”? O que seria de Leonardo? Ele superou o próprio mestre. E mostrou isso na primeira oportunidade que teve. Isso, porém, não o impediu de seguir trabalhando com Verrocchio.

Lembro dos esportes… Por que um Roger Federer respeita seu técnico? Ele poderia pensar: se seu técnico fosse tão bom assim não deveria ele, o técnico, estar na quadra? Mas é assim que funciona: ao professor cabe estimular; ao aluno, cabe ir além… Conhecer mais. Fazer mais.

Mesmo atividades aparentemente sem sentido podem se transformar em oportunidades raras de aprendizagem. Quando há prazer em aprender, busca-se o saber. Recordo que um dos trabalhos mais “imbecis”(?) que tive durante a faculdade, tornou-se talvez no melhor momento do nosso grupo durante aqueles anos de academia. Achamos tudo tão sem sentido que resolvemos pesquisar por nossa conta, criar nossa própria proposta… Por fim, nos divertimos e… aprendemos. Para mim, foi a maior lição que aprendi na faculdade: o estímulo é dado em sala de aula, o conhecimento obtenho fora dela – por minha própria conta.

Quando a gente se põe a lamentar da rotina, a gente trava. Não aprende. O texto fica chato, a atividade sem sentido, o estudo… sem graça.

Um ano de muitas leituras pode ser difícil sim. Um bimestre com muitos trabalhos pode nos roubar noites de sono sim. Uma semana de provas, seminários etc pode estressar sim. Entretanto, se isso vai nos dar prazer ou não quem define somos nós mesmos. Não é a escola, a faculdade. Nossa atitude é determinante.

Para os “meros regurgitadores do saber”, talvez esses períodos sejam apenas isso: um fardo. Para os que encontram satisfação no conhecimento, nenhum minuto de estudo será tempo perdido.

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