A graça ou desgraça nossa de cada dia

Ser feliz é uma escolha. A frase parece título de livro de auto-ajuda, mas traduz uma grande verdade. Não é a vida que a gente tem que determina se somos ou não felizes; é a maneira como a gente lida com os problemas que nos faz felizes ou infelizes.

É a forma como a gente vê as coisas que diz se a vida está a nos oferecer graças ou desgraças a cada dia.

Todo mundo tem problemas. Não dá pra escapar deles. E podem ser emocionais, físicos, espirituais… E outros tantos provocados por acontecimentos externos – um acidente com um filho, a perda do emprego, um assalto etc.

Ninguém passa pela vida sem enfrentar situações que nos tiram daquilo que entendemos ser a normalidade.

Não procuramos (alguns sim, mas este é assunto pra outro texto), porém os problemas fazem parte do cotidiano de todos.

Acontece que tem gente que alimenta a falsa ideia de que os problemas só acontecem na sua casa. O vizinho não tem problemas. Ele vê o vizinho sorrindo, feliz… E acha que o sujeito é o mais sortudo do planeta. E pior, começa a se incomodar porque a vida do vizinho é boa e a dele é uma droga.

Aí, quando olha pra dentro da própria casa, acha que o universo não lhe foi generoso. Deu tudo de bom pro vizinho e, as coisas ruins, sobraram pra ele. Quanta injustiça, né?

Esse tipo de gente acredita que o problema é a vida dele. O universo lhe teria reservado só desgraças. É como se fosse um carma. A pessoa estaria no mundo pra “pagar os pecados” de uma outra vida, de seus antepassados… enfim.

Sabe, não é assim que funciona. Se fosse, por que algumas pessoas, que vivem em condições miseráveis, consideram-se felizes?

Qualquer pesquisa sobre felicidade revela que não é a classe social, não é o nível de conhecimento, nem são as condições de saúde física que determinam o índice de satisfação da pessoa com a vida.

Conheci um senhorzinho de 92 anos, quase cego, com parte dos músculos atrofiados, vítima de derrame. Ele vivia melhor que muita gente jovem, saudável, sexualmente ativa. Esse vovô tinha um humor maravilhoso, conhecia as melhores piadas, divertia-se e, onde estivesse, tornava o ambiente muitíssimo agradável.

Aparentemente, não tinha motivos pra isso. Sempre teve uma vida difícil. Na juventude, foi lenhador. Parte dos problemas de saúde surgiu justamente pelo trabalho pesado. Entretanto, quem o conhecia dizia que nunca ouvira da boca desse senhor um único lamento. E quando falava de sua vida sempre sustentava ser um homem feliz.

Histórias como essa existem. E não são poucas. Acontece que os infelizes são barulhentos, reclamam mais e conseguem contagiar negativamente os espaços que ocupam. Também é verdade que é mais fácil lamentar do que ver a vida com olhar positivo, de gratidão.

Sabe, olhar positivamente a vida não é negar os problemas. É reconhecer que existem, admiti-los e enfrentá-los, mas sem se ver como coitadinho.

Rir dos próprios tropeços é coisa de poucos. Daqueles que sabem dar significado à existência. E são essas pessoas que conhecem a felicidade.

Quem espera uma vida sem problemas para ser feliz passará pela vida sem provar o seu sabor.

Na segunda, uma música

Alguns dizem que há amores que são pra sempre. Não se esquecem. Os anos passam, mas nada pode silenciá-los. Duram por toda a vida. Ainda que, por algum motivo o relacionamento tenha se rompido, o sentimento permanece. Talvez silenciado pelas circunstâncias, mas não morto.

De alguma forma, é disso que fala esta música que já tem 30 anos. Total Eclipse of the Heart, de Bonnie Tyler, fala de um amor vivo, mas não vivido.

Seu amor é como uma sombra em mim o tempo todo
Eu não sei o que fazer e estou sempre no escuro

O passado que atormenta é o mesmo que traz lembranças.

Eu sei que você vai ser sempre o único garoto que me queria do jeito que eu sou

Sabe, talvez algum dia alguém lhe tenha dito:

– Eu amo minha vida porque minha vida é você.

Quem sabe, tenha ouvido ou falado tantas outras frases… Talvez ainda estejam vivas na lembrança. Mas… o amor que segue no coração, hoje, já não pode ser vivido.

Era uma vez, havia luz na minha vida
Mas agora existe apenas amor na escuridão

Sabe, não gosto de histórias tristes. Acho que mesmo amores perdidos devem ser recordados como uma lembrança boa. São amores para serem reverenciados. Nunca lamentados.

Então… vamos ouvir?