No relacionamento, não deve haver lugar para sermões

A molecada está acostumada com o que vou falar aqui. Sou pai, então sei bem o que é isso. Afinal, mais que dar bronca, vez ou outra, rola um “sermão” lá em casa. O meu mais velho escuta sem escutar. Já a menor pede:

– Para, pai.

Faz parte, né? Pai que é pai dá sermão.

Entretanto, sei também o quanto isso é chato. Irritante, diria. Minha filha expressa esse sentimento quando pede para eu parar. Ela demonstra que já entendeu, sabe que errou… E ouvir tudo de novo incomoda demais.

Por isso mesmo, o que dizer dos sermões dentro dos relacionamentos?

Sim, talvez você não tenha se dado conta, mas tem parceiro que adora passar “sermão”. É impressionante. O sujeito está ali e começa a “dar de dedos”. Pode até não apontá-los, mas adota aquela postura indigesta, típica dos que “sabem mais”.

Gente, está aí um negócio que acaba com qualquer tesão no relacionamento. O parceiro – namorado, namorada, marido ou mulher – assume um papel meio de pai, de mãe… e passa a corrigir o outro. É de lascar.

Não estou dizendo que parceiros não devam aconselhar, orientar… Nada disso. Isso é saudável. Entretanto, depois que o problema aconteceu, não existe nada pior que alguém olhar pra você e apontar seu erro. E a pessoinha ainda começa o discurso típico:

– Eu te avisei!!!

Quem fez a bobagem já está com o coração na mão, chateado, decepcionado, frustrado… E de quem esperava acolhimento, vem um sermão.

Caramba! Judia, hein?

Pode ser em função de um negócio mal feito – venda do carro, compra de um celular, empréstimo de dinheiro pra um colega etc. Pode ser por causa de uma briga com colega, com pai, sogra… Pode ser pela correção inadequada de um filho. Pelo esquecimento de algo. Enfim, na dinâmica do relacionamento, erros são cometidos. Não faltam motivos para um lembrar o outro que aquilo não se faz, que não devia ter feito…

Acontece que o erro do outro parece despertar em nós o sentimento de superioridade. Levantamos o queixo, estufamos o peito e, dedo em riste, fica fácil despejar todas as nossas frustrações sobre quem falhou. Há um misto de raiva e de prazer. Raiva pela falha alheia. Prazer porque você disse que ia dar errado. O tom que impera no discurso é sempre o mesmo:

– Eu tinha razão. Está vendo?

Pais fazem isso. Não é a medida mais acertada. Mas não é o fim do mundo quando um pai ou uma mãe assumem essa postura. Entretanto, no relacionamento, isso machuca. Quem errou já estava se sentindo inferior, culpado. Quando o parceiro o acusa, julga, a ferida aumenta. E duas reações geralmente ocorrem: a primeira, acreditar ser a pior pessoa do mundo (a autoestima vai definitivamente “pro ralo”). A segunda, odiar o parceiro. Todas as lembranças das acusações sofridas na infância, das correções de pais, professores e até amigos… tudo desfila no inconsciente, revivendo as piores sensações. E o parceiro, o do sermão, passa a ser odiado – pelo menos, naquele momento.

A vítima do sermão sabe do erro. Poucos são tão negligentes a ponto de não perceberem quando falharam. A maioria sabe. E, por isso, na mente, já está se martirizando. Provavelmente, repetindo dezenas de vezes a mesma pergunta:

– Por que fiz isso? Por que não fiz de tal jeito? Por que não ouvi fulano.

Tem até vergonha de ter de encarar o outro.

Quando o parceiro começa a desfilar frases acusatórias, relembrando o erro, a pessoa nota que o outro não acredita nela. Não confia em sua capacidade de julgar e agir. E uma das coisas que fazem a diferença num relacionamento é a admiração. O sermão evidencia a falta de admiração. A ideia que fica é muito simples:

– Ela me acha um péssimo homem.
– Ele me acha uma mulher incapaz…
Ou… uma péssima mãe etc etc.
– Está comigo por pena. Se pudesse, me descartava.

Não sei qual a dinâmica do seu relacionamento. Não sei como você é. Sei, porém, que é fácil demais a gente cair na tentação de dizer pro outro que ele falhou. É fácil demais acusar. E, no calor do momento, encontramos argumentos para discursar por minutos a fio – relembrando, inclusive, outros fracassos. No entanto, quando a gente quer preservar o relacionamento, aceitar que todos nós falhamos e acolher a pessoa amada é a melhor forma de dizer que se importa com o outro.

Costumo brincar que a regrinha é muito simples: se fosse você, o que gostaria que o outro fizesse? Adoraria o sermão? Pense nisto!

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2 comentários em “No relacionamento, não deve haver lugar para sermões

  1. Nossa!!! me passou um sermão heim Ronaldo, rs, para vai, ja entendi, rs. Vou tentar controlar esse meu “defeitinho”. Muito bom mesmo, marido aqui do lado, adorando a postagem …

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