Xanddy e Carla Perez: reféns da fama

Como estou reclamando do mundo, vamos a mais uma. O que o público tem a ver com a vida íntima dos famosos? Com o casamento das celebridades?

Gente, será que não temos mais nada pra fazer não?

É fato histórico. Desde sempre foi assim. Na antiguidade, sabia-se da vida dos nobres pelas cozinheiras, pelos serviçais. Tecnologicamente e economicamente, evoluímos. Mas, no comportamento, somos parecidos com nossos antepassados.

As pessoas se interessam pela intimidade dos outros. Principalmente, se são pessoas importantes. Entretanto, essa curiosidade, esse de consumo voyer, me incomoda profundamente.

Tudo bem, sou rabugento, chato mesmo. No entanto, o famoso não tem direito nem de curtir uma crise entre quatro paredes. O que acontece – e até o que não acontece – vai parar na imprensa.

Vi hoje a reclamação de Xanddy, marido da Carla Perez. O sujeito usou o Instagram pra negar a crise no casamento. Mas a sua reclamação maior não foi em função do constrangimento pra ele e pra mulher. Foi por causa dos filhos.

Nossos filhos são os mais atingidos. São crianças e ficam sendo interrogados.

É bem isso mesmo. As crianças, que nada tem a ver com a história, são inocentes, pagam um preço alto por serem filhos de famosos. O povo fala da celebridade e a família paga a conta.

Não me parece justo.

Aí alguém pode dizer: “ah… mas é só não ter problema”. Ignorância demais, né? O fato de se tornar conhecido não isenta a pessoa de problemas. E a fama nem deveria representar uma prisão, como infelizmente ocorre.

Acho que tudo poderia ser muito mais simples se o público se dispusesse a ser apenas isso: público. Com direito a ser fã. Mas sem cultuar seus ídolos a ponto de invadir a vida privada deles.

PS – Claro, tem celebridade que escolhe exibir sua intimidade. Mas aí é uma outra história.

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Coitado do Monteiro; pobre de nós

Já escrevi aqui que devo ser o cara errado, na hora errada, no mundo errado. Gente, estou desanimado. A coisa está preta. Desculpa, não posso falar assim, né? Pode ser entendido como preconceito, discriminação.

Socorro, viu?

O tal do Iara – Instituto de Advocacia Racial – agora quer tirar de circulação o livro “Negrinha”, do Monteiro Lobato. Não bastasse o ataque contra “Caçadas de Pedrinho”, agora o instituto quer proibir outra obra do autor.

O Iara, que faz o papel de protetor dos negros e de suas causas, tem atropelado o bom senso em nome do politicamente correto. A justificativa é sempre as mesmas: o texto de Monteiro Lobato é preconceituoso, apresenta o negro numa visão estereotipada.

Como “Negrinha” faz parte do Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE), do governo federal, o instituto quer a obra banida da lista. Não admite que, com dinheiro público, se financie o que chama de uma obra “fortemente carregada de conteúdos raciais”. E promete, inclusive, recorrer à cortes internacionais para tirar o livro de contos das prateleiras.

Gente, livro é livro. Na literatura, pode tudo. E os textos de Monteiro são fruto do contexto histórico. O autor era racista sim. Mas é um dos nossos maiores escritores. A gente precisa aprender a separar as coisas.

E tem mais. As obras literárias funcionam sob a lógica do exagero. O que seriam os vilões se não fossem pintados em cores fortes, carregadas? O que seria a mocinha se não fosse a mais bela, a mais gentil?

Cenários e personagens até podem se inspirar na realidade, mas são obras de ficção. Por isso, o estereótipo é recurso comum. Essa é uma característica da arte. O que seria do humor se os personagens não fossem caricatos? Que graça teria um gay no humor se seus traços e gestos não fossem exagerados?

Convenhamos, gente educada sabe diferenciar realidade e ficção. E as escolas têm sido palco de discussões importantes sobre preconceito, racismo, discriminação etc etc. Professores não precisam ser “treinados” para usar os livros de Monteiro Lobato em sala. E, ainda que não fossem, leitores de “Negrinha”, “Caçadas de Pedrinho” não olharão o negro de forma estereotipada por conta do texto do autor. Quem acredita nisso subestima a inteligência do leitor. Ignora que a fixação de significados, a construção do imaginário popular, se dá pela redundância, pela repetição e quando o discurso se mostra coerente.

Banir ou censurar textos, principalmente literários, é um recurso pobre, mesquinho, de quem pensa pequeno. Gente que tem em si mesmo enraizado preconceitos e mania de perseguição. Na tentativa de corrigir o passado, estão matando o presente.