A criança que você era teria orgulho do que você é?

Prefiro me aceitar e seguir em frente

O título não é meu. É da Martha Mendonça, uma das mais admiráveis jornalistas e escritoras que temos. Como costumo fazer em certas situações, não li o texto. Preferi não ser conduzido pelo que a autora escreve. Apenas me deixei levar pela pergunta proposta.

Sinceramente, a pergunta me incomodou. Primeiro, porque me fez voltar à infância. Não tenho o hábito de recordar dos meus tempos de menino. Algumas coisas seguem comigo, porém a maioria delas ficou no passado. Lembranças de brincadeiras, da presença de meus pais, da casa simples, das dificuldades financeiras que tínhamos… Estas fazem parte do meu dia a dia. Sempre recordo do meu sonho – realizado – de ser professor. Mas geralmente não gasto muito tempo para ir além disso.

A pergunta também me incomodou por fazer olhar para mim mesmo, para meus atos hoje, para o que me tornei. Não, não estou insatisfeito. Entretanto, confesso que nunca havia parado pra pensar nesta perspectiva:

Será que a criança que eu era teria orgulho de mim?

Geralmente sou bastante exigente comigo. Cobro perfeição. Mas estou longe disso. Do ponto de vista profissional ou pessoal, carrego falhas. O tempo me ensinou a aceitar os erros, a conviver com eles e a não limitar-me em função das decepções cotidianas. Hoje, vivo bem comigo.

Mas… e o menino que ficou no passado? O que ele pensaria de mim? Não sei.

Sempre fui sonhador. Tinha sonhos grandes. E, como toda criança, carregava algumas ilusões. Alimentei-as por anos. Planejei o futuro tendo como referência muitas ideias de criança. A experiência dos anos me faz olhar para o passado e compreendê-lo. Sem remorsos. O tempo traz sabedoria e me faz sorrir para as conquistas que tive e pela vida que tenho. Contudo, não sei como aquele menino veria o homem que me tornei. Mas o menino não existe mais. Vou seguir em frente. Afinal, a vida se faz com os olhos voltados para o caminho que se abre a cada novo dia. E aceitar-se é um dos segredos da felicidade.