A gente para pra ver Avenida Brasil

A Globo estima em 38 milhões de espectadores. Cá com meus botões, tenho a impressão que o público chega a ser maior que isso. Afinal, ainda que de forma indireta, boa parte da população brasileira acompanha a atual novela das nove, Avenida Brasil. Até a presidente Dilma estaria interessada em ver o capítulo final.

Eu, por exemplo, não devo ter assistido, ao todo, uma hora dessa novela. Entretanto, sei o nome dos principais personagens. E conheço boa parte da trama.

Não preciso gastar tempo para isso. Basta abrir a página da Globo em busca de notícias. Dois ou três destaques do site estão relacionados à novela. Quando acesso a Folha de São Paulo, encontro comentários e informações sobre os capítulos. Nas revistas semanais, vez ou outra há notas tratando do enredo e até das discussões propostas pelo autor.

E agora, chegando ao final de Avenida Brasil, as notícias se intensificam. Carminha, Nina, Tufão, Suellen etc etc são nomes que aparecem em todos os lugares. E ainda tem o Max, morto em capítulo da semana passada.

O brasileiro gosta de novela. Não existe um produto televisivo com maior poder de atração. Mais que divertir, o gênero pauta as conversas cotidianas. Por isso, a imprensa retrata o desenrolar da trama. Afinal, não basta assistir. É preciso saber das novidades antecipadamente, conhecer os personagens e até acessar fofocas dos bastidores.

Uma novela termina, outra começa… E por mais oito ou nove meses fará parte do cotidiano de milhões de pessoas.

Novela é diversão barata. Num país pobre, e de hábitos culturais pouco refinados, acaba tendo até função social, já que serve como instrumento para discutir valores sociais, questões de gênero, sexualidade, política… Até fornece informações sobre o próprio país e o mundo. Muito do que se conhece sobre Rio, São Paulo, Salvador… Índia… se conhece pelos cenários das novelas.

Os críticos acham isso muito pouco. Até entendem que, por não retratar a realidade, as novelas prestam um desserviço à população. Em partes, discordo da tese.

Entendo que novelas anestesiam o público. Mas a passividade social não é culpa da televisão. É falta de educação.

Avenida Brasil e outras tantas novelas são o que são por causa do nosso povo, da nossa gente. Este gênero televisivo só tem espaço na grade da TV brasileira porque tem público, tem pessoas que gostam de assistir. Prendem-se por meses a uma trama e aguardam durante todo esse tempo o desfecho dos personagens. É uma opção das pessoas. A televisão apenas oferece um produto que agrada o público e que o leva a conversar sobre a Carminha como se estivesse falando daquela tia megera ou da vizinha malvada, que judia dos animais.

Você vai ao restaurante e escuta alguém na mesa ao lado falando dos lances mais recentes da novela. Na fila do banco, duas amigas animadas criticam a Nina como se falassem de uma pessoa da família… E é bem assim que funciona: nas novelas, os personagens se tornam parte da família brasileira. Foi assim com Avenida Brasil, como foi no passado com Roque Santeiro, Vale Tudo, Terra Nostra… Como ainda será com outras tramas que farão parte do nosso cotidiano.

E isso não é bom e nem ruim. É só reflexo dos nossos hábitos culturais.