Sentar juntos


Temos perdido isso, né? Quantas vezes sentamos juntos com nossos filhos, nossos pais, ou nosso parceiro pra almoçar? Nos fins de semana? Nas festas?

E quando estamos com eles, quantas vezes conversamos? Sim, conversamos. Jogamos conversa fora. Papeamos, rimos juntos?

Às vezes fico pensando em nossos hábitos e noto que algumas coisas deixaram de ter valor. Sentar junto pra comer, ou simplesmente pra conversar, é uma delas.

Não sou saudosista. Penso que muita coisa melhorou. A tecnologia, por exemplo, é algo incrível. Posso estar com a pessoa amada o tempo todo – mesmo quando ela está distante. De alguma forma, permanecemos juntos. Porém, tenho a impressão que nos acostumamos a esse ritmo apressado e achamos que, em qualquer hora em qualquer momento, podemos recuperar –  inclusive o tempo perdido.

Dias atrás, lendo uma obra de um dos mais importantes médicos americanos, encontrei uma afirmação que me incomodou. Ele dizia que essa história de não importar o tempo que passamos com as pessoas, mas que este tempo seja de qualidade… Ele dizia que isso é balela. Como dizia meu pai, “conversa pra boi dormir”. Não existe pouco tempo com qualidade. Existe tempo. E tempo com qualidade é ter tempo.

Sentar junto pra comer com a família, dividir a refeição ao lado da pessoa amada é uma dessas coisas boas. Não se trata de sentar junto, olhar pro prato e, em meia dúzia de garfadas, engolir o alimento, levantar-se e já sair apressado. É sentar e investir tempo. Olhar nos olhos. Sorrir. Perguntar das experiências do dia. Contar de si mesmo.

Lembro que as refeições na minha avó geralmente eram demoradas. Não pela oferta de banquetes. Mas pelo tempo que se buscava ter junto com a família. Recordo que, mesmo quando ela estava sozinha com meu avô, todas as vezes que iam se alimentar, a mesa era posta. Tudo arrumado. Nada feito de maneira improvisada. A refeição era quase um ato cerimonial.

Falta isso pra muitos de nós. E a falta resulta em menos diálogo, menos conhecimento das pessoas que amamos. Menos intimidade. Nos afogamos em nosso próprio universo e deixamos de partilhar, de sentir, de viver as pessoas que amamos.

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