Eu quero lhe usar

O personagem de José Wilker, em Gabriela, caiu na boca do povo por um bordão:

– Deite que vou lhe usar.

A frase virou piada. Foi parar nas redes sociais e também nas ruas. E, brasileiros que somos, rimos de tudo.

O contexto do jargão estava claro: o uso do outro na cama – a outra, no caso – para obter prazer sexual.

Entretanto, embora a frase não seja verbalizada, ela é uma verdade pra muita gente. E não apenas na cama. É a verdade de muitos relacionamentos.

Por carência, insegurança, egoísmo… tem gente que não se relaciona. Pelo contrário, se apropria do outro para atender suas necessidades físicas e emocionais.

Não há amor, apenas uso. O parceiro lhe serve. Há uma função definida.

Alguns nunca tiveram amor de mãe e buscam na mulher aquilo que não encontraram no lar. A namorada ou parceira tem que atender as carências afetivas maternais. Algumas mulheres não tiveram referências positivas paternas. Então, o companheiro acaba tendo de fazer papel de pai.

Porém, essas demandas emocionais têm origem definida: são falhas na educação. A formação foi comprometida. Gente assim precisa de terapia, de ajuda. E, em alguns casos, até vivem bem sem tratamento – isto, se encontram alguém que supra essas necessidades.

Acontece que não existe apenas esse tipo de uso. Há pessoas que não estão ligadas aos parceiros por um desejo de viver junto, de compartilhar, dividir… São “romances” práticos. Apenas se apropriam daquilo que o parceiro ou a parceira pode oferecer. São relacionamentos de conveniência.

O sujeito tem suas necessidades e vê no outro o objeto que pode resolver os seus problemas. Se precisa ser bajulado, reclama da parceira essa característica. Se quer alguém que tome conta da casa, arruma uma “amélia”. Se a garota precisa de grana, encontra um camarada com boa conta bancária. Se é louco por sexo, procura alguém que “apague seu fogo”.

São relacionamentos doentios. Não há entrega. Só cobrança. Serve a quem se serve do outro. Mas esgota e transforma uma das partes em objeto de consumo.

O que me intriga nesse tipo de relacionamento é a condição de submissão, de aceitar ser usado pelo outro. E, principalmente, o fato de uma das partes tornar-se refém de uma pessoa para a qual não tem real valor. Sua importância é medida pela capacidade de atender aos desejos do “dono”.

Isso acaba com o amor próprio. Quem aceita ser usado pelo parceiro, agride a si mesmo. Não tem autoestima que resista. Ao longo do tempo, destrói a capacidade de valorizar-se. De sentir-se gente. E, infelizmente, tem quem se acostuma e passa a achar que é normal, que não merece ser amado de verdade.

Esses “amores” me fazem lembrar de uma canção antiga da Joana. Nela, há um tom de lamento pelo namorado que nunca aparece. Ela conta que até recado nos classificados de um grande jornal já foi publicado reclamando a presença dele. Mas, conformada, diz:

Meu namorado é um sujeito ocupado
Não manda notícias
Nem dá um sinal
Eu ando meio com medo
Que um dia ainda ache
A tristeza normal

A música, porém, termina retratando esta época… O momento em que vivemos. Um tempo egoísta em que pessoas tornam-se descartáveis à medida que deixam de atender aos desejos de uso.

O tempo me dado
Pra andar nessa terra
É um tempo de guerra
Um tempo cruel
Até os amores
São tão mal cuidados
Que acabam virando
Uma coisa banal

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4 comentários em “Eu quero lhe usar

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