A vergonha nossa de cada dia

vergonha
Enquanto descia o elevador, escutei duas senhoras conversando. Uma delas reclamava que facilmente sente frio. Nem é preciso cair muito a temperatura. O tempo mudou um pouco, já sente falta de uma blusinha. Por isso, conta que sempre tem uma na cadeira.

– Quando esfria um pouquinho, já está ali.

E continuou:

– Só não tenho coragem de sair na rua. Todo mundo sem manga e eu de blusa? Tenho vergonha.

Foi um papo à toa… Mas fiquei pensando na última frase dela: “tenho vergonha”. Um pouco mais ou um pouco menos, todo mundo sente vergonha. A minha personagem tem vergonha de colocar uma blusa e sair na rua num dia em que a maioria está com roupa de verão.

Tem gente que tem vergonha de falar em público. Tem gente que sente vergonha de pedir uma informação – parar o carro e perguntar onde fica determinada loja, banco etc vira um drama. Tem gente que, numa roda de amigos, não dá conta de expor sua opinião; prefere ficar em silêncio, apenas ouvindo. Tem gente que vê um parente fazendo uma coisa errada a vida inteira e sente vergonha de abordar a outra pessoa (não é porque receia ofender, é porque tem vergonha de falar).

Durante muito tempo, eu senti vergonha de escrever textos mais pessoais – como os de relacionamento, por exemplo (este, certamente nunca seria publicado). Escrevia apenas sobre fatos cotidianos com os quais lidava profissionalmente.

Mas por que isso acontece com a gente? Razão simples, bem simples: temos medo da avaliação alheia. Temos uma imagem a zelar. Não queremos nos expor. Certas coisas geram ansiedade, porque sabemos que o outro estará nos observando. Talvez até nos critique. Ou transforme nosso comportamento em motivo de riso, de piada. A maioria de nós não quer isso.

A vergonha está ligada a nossa insegurança. Olhamos para nós mesmos e não confiamos naquilo que fazemos ou somos. Pensamos que o outro é melhor que nós. Na verdade, entregamos para o outro a responsabilidade por promover ou destruir nossa autoestima. Se somos elogiados, ficamos bem; se somos criticados, sentimo-nos “o pior dos seres humanos”. Então, sair com de blusinha de manga num dia de calor faz com a pessoa se sinta vigiada, observada.

– Estou ridícula, talvez diria.

Nessas horas, não vale o bem-estar. Vale o que o outro pensa de mim. Atribuímos ao outro uma importância que ele não tem e diminuímos o nosso valor.

Sabe qual o problema disso? A perda da identidade, a perda de oportunidades. A gente se referencia pela vergonha, pela insegurança e temor da avaliação alheia, e deixa de fazer coisas. Não faz o que quer, faz o que pensa que o outro deseja que a gente faça. Isso acontece comigo. Acontece com quase todo mundo. Mas é justo com a gente? Parece-me que não.

Se somos todos iguais, acho que vale romper com nossos medos, rir de nós mesmos, aceitar os “micos da vida” e simplesmente vivermos. Afinal, não é autenticidade alheia o que mais invejamos?

Anúncios

11 comentários em “A vergonha nossa de cada dia

  1. Me identifico com muito com este post… Muitas pessoas levam a vida tendo como base o “achismo” alheio, se preocupando com o que os outros vão pensar. E por isso, muitas vezes, deixam de viver, e até são infelizes! Seu blog é Lindo de Viver!! Parabéns!

    Fabiana Oliveira

  2. Ola Ronaldo, td bem?
    Achei seu blog por acaso, e me apaixonei, como é bom ler aquilo que as vezes a gente está precisando ouvir, e hoje a mensagem me serviu muito de lição, mas como a gente deixa lado os que outros pensam? Não é fácil e eu tb já passei pela situação acima e é ruim, te confesso que eu fico numa briga interna comigo sobre este fatos. Um grande abraço. Fique com Deus.
    Rosi

  3. Olá Ronaldo, muito bom refletir sobre isto. Gosto do seu blog.
    Sabe, talvez a falta de autoconhecimento, autoestima … esteja deixando muita gente SEM vergonha, sem princípios, sem referências. Enfim, as pessoas sentem vergonha do que os outros veêm, mas não daquilo que fazem longe dos olhos de todos.
    Um grande abraço, continue escrevendo. É bom ler.
    Miriam

  4. Esse comportamento me lembra muito a adolescência, tudo era mico! Hoje eu convivo com adolescentes na Igreja e acho muito bonitinho, muito engraçada essa mania, mas em adultos… Ah, eu rio, mas não deixo de falar algo dessa sua reflexão, que foi o que eu aprendi a vida toda, ninguém paga minhas contas, ninguém me dá de comer, então pensem o que quiserem e eu vou ser feliz!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s