Qualidade de vida e consumo: alguém nos enganou

Será que não há prazer nas coisas simples?
Será que não há prazer nas coisas simples?

Um dos equívocos que a sociedade contemporânea comete é confundir qualidade de vida com consumo. A gente acredita que consumir é ter qualidade de vida. Mais que isso, confunde-se inclusive prazer e felicidade com consumo. O sujeito fica feliz feliz quando vai pro shopping e sai de lá abarrotado de sacolas. As mulheres, principalmente. Os homens preferem outras coisinhas – carros novos, por exemplo.

Claro, essa visão é obra de uma construção social. Numa sociedade capitalista, não poderia ser diferente. Somos estimulados a comprar. E, por isso, não é difícil entender por que fazemos essa confusão danada.

Vive-se para consumir. O consumo passou a ser a medida da qualidade de vida das pessoas. E todo mundo mede seu estado de bem-estar pela quantidade de coisas que pode comprar. Quem pode menos, sente-se excluído, sofre, deseja inclusive a vida do outro. Passa dias, semanas e anos na busca incansável de ter as mesmas possibilidades que o colega “mais riquinho”.

Essa tem sido a lógica da maioria de nós. Basta refletir sobre o que fazemos. Trabalhar oito horas por dia já não é suficiente. É preciso ir além – acumular empregos ou atividades extras, que poderão ser feitas em casa. Queremos a tal “qualidade de vida” – casa boa, carro bom, televisor LCD, plasma ou sei lá o quê… Queremos celular de última geração, tablet, férias duas vezes por ano – mas não qualquer férias; tem que ser numa praia badalada, famosa e com direito a muita comilança e festas. 

Essa é a medida da qualidade de vida.

Acontece que, ao fazer isso, ignora-se que qualidade de vida não é um momento de prazer. Não é o que o dinheiro pode comprar. Isso até contribui, mas não é garantia de nada.

Qualidade de vida tem a ver com bem-estar físico e emocional. De nada adianta consumir tudo que se deseja, mas ter como custo estresse, cansaço e até insônia. Não adianta ter boa cama, mas não conseguir dormir. Não adianta ter carro bom e não ter prazer ao dirigir – enquanto dirige, xinga o motorista do lado, fala ao celular, buzina, grita… Não adianta ter férias num paraíso duas vezes por ano, mas passar as demais semanas e meses do ano sem namorar a mulher, sem conversar com os filhos, sem ler um bom livro. Não adianta ter dinheiro para frequentar os melhores médicos, mas estar com o colesterol alto, sofrer hipertensão ou ter a libido reduzida por causa da pressão sofrida na empresa.

Sabe, mentiram pra nós. E nós acreditamos. Disseram que viver bem é ter coisas, ter a chance de comprar tudo que desejamos. O problema é que não param de nos oferecer coisas. O problema é que nos incentivam a consumir cada vez mais e nos transformaram em escravos de um sistema que aprisiona nossa mente e rouba nossa saúde, nossa paz de espírito. Rouba o nosso tempo. 

Viver assim não é viver. Qualidade de vida não é nada disso. Mas nos engaram. E, tolos como somos, não conseguimos mudar nada disso. Ninguém está satisfeito com a vida que tem, mas não consegue romper com o modelo proposto. Lamentável!

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9 comentários em “Qualidade de vida e consumo: alguém nos enganou

  1. Mas não é mesmo qualidade de vida é tormento de vida.
    Tormento p/ mim não porque não posso acompanhar e sair comprando, porque não quero…
    Tormento p/ mim é perceber que ta acabando um bom papo, as pessoas só falam de coisas materiais que adquiriram ou vão adquirir chatoooooo!
    Abç ae
    PS: Sem querer mencionei uma qualidade de vida ter por perto pessoas com bom papo.

    1. Boa Orquídea, eu pensei que eu era a última dos moicanos do mundo que pensava assim! Sério, eu queria muito ter o meu cantinho, ter um carro pra emergências, mas ainda não posso ter nada disso, faz 5 anos que casei, tenho um menino de 4 anos e quando eu casei, meu marido ganhava 500ão! Passamos fome nos primeiros meses! Quem acha isso normal hoje em dia? Os homens nem pensam em casamento, as mulheres, querem uma carreira pra chamar de sua, ou quando se fala em casamento, querem já a casa quitada e mobiliada, pronta pra morar dentro – claro, o marido tem que bancar pelo menos a maioria das coisas. Descobri a importância das coisas simples depois que saí do colégio, porque aquilo era um antro de orgias financeiras, quando eu tinha 8 anos as meninas falavam em viagens pra Disney e eu achava legal ir pra casa do meu avô em julho. Durante um bom tempo eu achava que vida boa era isso, comprar como se não houvesse amanhã, viajar pra onde quisesse no mundo, andar sempre impecável, ter tudo da última moda… Até descobrir os amigos verdadeiros, os bons momentos em família e o grande prazer de um bom papo!

  2. Concordo plenamente com sua visão, ainda que, eu mesmo, tenha lutado contra isso. Estou evitando trocar de carro sem ter necessidade, estou procurando ler mais, e trabalhar menos. Parabéns pelo post, seu blog já está nos meus favoritos!

  3. Gostei muito do seu artigo. Reflete exatamente o que penso, porém, acredito que a maior dificuldade é educar os filhos com essa visão. Tenho duas filhas, uma adolescente, que faz comparação o tempo todo com os amigos, quer o último modelo de celular, mesmo que não funcione como o antigo, somente porque a turma tem.

  4. Andamos na contra-mão, quando pensamos diferente. Porém não devemos calar nossos conceitos e valores.E, mais do que palavras temos que ter atitudes.Parabéns!

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