O amor faz bem

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Ela era chefe de cozinha. Seus pratos eram conhecidos, elogiados., pareciam ter um toque mágico. Nos dois anos em que comandou a cozinha daquele restaurante badalado da cidade, nenhum cliente havia reclamado uma única vez.

Tudo parecia estar dando muito certo. Aquela jovem de 25 anos fazia o gostava. Tinha o emprego que desejava. Até cinco anos atrás, morava numa pequena cidade do interior. Mas lá não tinha espaço para colocar em prática suas habilidades. Nem podia fazer o curso dos sonhos, Gastronomia. Mudar-se para a capital foi uma aposta. Nem todo mundo a apoiou. O pai, porém, foi forte e entendeu. Incentivou-a. Com dificuldades, sustentou a filha nos primeiros meses, garantiu o pagamento do aluguel e as principais despesas. Ela logo conseguiu emprego de ajudante num restaurante. De lá para o emprego atual foi um caminho natural, trilhado por alguém que tinha muita paixão pelo que fazia. O sonho havia se tornado realidade.

No coração, sentia que faltava apenas uma coisa: um amor de verdade. E queria alguém que fosse capaz de lhe tirar o fôlego. Foi quando ele apareceu. Tocou-a de tal forma que nada mais importava. Só ele. Dia e noite se falavam. Praticamente se mudou para a casa dele. Ele tornou-se o centro de sua vida. Quando estava distante, chorava de saudade. Se brigavam, ficava perdida. Mas, quando questionada, sempre respondia que havia encontrado o amor de sua vida. Ou, a “tampa da panela”.

Um dia, uma amiga próxima, daquelas pessoas raras, foi direto ao assunto:

– Isso não é amor. É doença.

Assustada, retrucou, defendeu com ardor sua paixão.

A amiga não se abateu. E sustentou:

– O amor faz bem. Não destrói a gente.

O que ela não conseguia perceber era que seu relacionamento tinha roubado suas energias. O rendimento no trabalho não era o mesmo. Recebera bronca do chefe. Há três meses, não criava um prato novo. Até no sal já tinha errado.

Sabe, nossa personagem não é muito diferente de outras tantas pessoas loucamente apaixonadas. Passionais, envolvem-se profundamente. E mergulhar no romance não é ruim. Na verdade, amor bom é amor comprometido, com cumplicidade, entrega. Entretanto, isso tudo é bem diferente de orbitar em torno do outro a ponto de perder a autonomia, a criatividade.

Se a pessoa está menos produtiva, se perdeu desempenho na faculdade,  se  está chorando nas madrugadas, se não consegue dormir, se tem perdido a vontade de comer… alguma coisa está errada. O amor faz bem. Amor de verdade coloca sorriso no rosto, faz ter vontade de cantar, dançar. Quem está por perto, nota. Até a pele fica mais bonita.

Tem suspiros? Tem. Tem lágrimas? Tem. Mas a pessoa não fica de cara amarrada, de olheiras, não vive chegando atrasado no trabalho, não comete erros por desatenção toda hora. É até normal, na fase áurea  da paixão, perder-se um pouco. Porém, a criatividade é potencializada. A vontade de viver intensamente é refletida no olhar. Quem vive um amor de verdade, quer o bem, faz o bem, torna-se melhor.