Não são apenas gafes ou esquecimentos

tempo
Você é o dono do seu tempo

Esse nosso jeito apressado de viver gera situações curiosas. Acho graça, por exemplo, do súbito interesse de algumas pessoas pela vida da gente. Não, não pra fofocar. Mas para se mostrar amigo, aproximar-se. Enfim, tentar um diálogo. E, claro, como essas coisas acontecem sem planejamento, vira e mexe alguém paga mico. Eu adoro, é claro. Afinal, rir – nem que seja só por dentro – faz um bem danado.

Minutos atrás, estava eu no corredor do prédio. Uma colega que me conhece há uns sete ou oito anos, me viu e, sorridente, me cumprimentou. Para puxar conversa, foi logo perguntando sobre certa empresa para a qual já trabalhei. Educadamente, respondi que não tinha muitas informações. A pessoa ficou meio perdida… Com aquele olhar de “como assim?”. Expliquei:

– Não presto serviços para eles há uns seis anos.

Toda sem graça, a pessoa se desculpou e foi para sua sala.

Semana passada, enviei um email para uma profissional confirmando agenda para uma conversa. Coloquei lá o compromisso, o dia e o horário. Também dei explicações sobre o que deveria ser feito. Três minutos depois, recebo a resposta:

– Tudo ok. Confirmado. Mas qual horário mesmo?

Eu não precisava responder, né? Estava tudo ali, na mensagem anterior. Mas, na pressa, a pessoa nem viu o horário.

Já uma amiga de trabalho, dias atrás, reclamava.

– Não ligo quando as pessoas escrevem meu nome errado. Quando não me conhece, elas não têm obrigação de saber que é com C e não com K. Mas se me mandam um email, uma mensagem no Facebook, por que escrevem errado? Está ali, diante dos olhos da pessoa. Então, por que erra?

É chato mesmo. E ela tem razão. Também não entendo por que erram tanto meu sobrenome. Fazer o quê, né? Falta atenção.

Entretanto, quando se trata de questões pessoais tenho aprendido a me incomodar menos. Não fico chateado, por exemplo, com essas gafes. Sei que a pessoa não tem obrigação de saber sobre minha vida. Se a colega não sabe que deixei de prestar serviço para a tal empresa, não vou ficar de bico por causa disso. Na verdade, até havia boa intenção. Ela queria interagir.

O problema é que nosso jeito apressado de viver acabou atropelando também a maneira de nos relacionarmos. Não prestamos mais atenção nas pessoas. Nem no que elas falam.

Tem que gente que me aborda e diz:

– Sou leitor do seu blog.

Respondo:

– Que bacana! Obrigado. E qual texto achou interessante?

A pessoa fica toda perdida e não sabe o que responder. Quer dizer, ela até conhece o blog, mas não recorda o que escrevo.

Quantas vezes alguém conta coisas pra gente e, uma semana depois, você está lá retrucando:

– Não, você não me falou isso.

E o outro tem um trabalhão danado para provar que falou com você sobre o tema.

Sabe, isso não é falta de memória. Na verdade, só acontece porque não estamos presentes no presente. Estamos num lugar, mas nossa cabeça está noutro. Conversamos com as pessoas, mas não as ouvimos. E isso acontece comigo, com você… com todos nós.

Tem jeito de mudar? Tem. Porém, a mudança começa dentro de nós. Começa quando passarmos a sentir mais, ver mais, ouvir mais. Quando aprendermos a gastar tempo com a gente e com os outros.